Até quando a religião será usada para justificar a submissão das mulheres?
Depois do sucesso de “King Kong Fran”, Rafaela Azevedo volta aos palcos com “A Igreja da Fran”. A peça revisita passagens da Bíblia, cruza referências históricas e questiona como determinados dogmas religiosos podem sustentar violências.
Uma sequência de notícias de crimes cometidos por líderes religiosos é projetada no fundo do palco. Muitas manchetes, várias, inúmeras. Corrupção, violência sexual, pedofilia. Em seguida, ela entra em cena com um revólver em cada mão atirando pra cima. Vista de frente, veste uma saia preta na altura das canelas e um paletó preto, aberto, que deixa à mostra uma barriga de gestante e o par de seios com mamilos cobertos.
“É perversa a quantidade de atrocidades que se comete em nome de Deus”
Poderia ser uma encenação do meme “por mim, eu botava fogo em tudo”, mas são as primeiras cenas da peça “A Igreja da Fran”. Fran é a personagem criada pela atriz, palhaça e dramaturga Rafaela Azevedo, que entre 2022 e 2026 viajou por cidades do Brasil e do mundo com “King Kong Fran” e levou mais de 150 mil pessoas ao teatro ao tratar de misoginia, em situações que invertiam os papéis de gênero.
“Quando comecei a pensar na igreja da Fran, achei que fosse fazer um jogo de inversão também, só que agora dentro desse universo religioso. Mas aí quando eu comecei a pesquisa os milhares de casos de pedofilia me chocaram muito. É uma questão muito conectada com a Igreja Católica, mas também recorrente na evangélica. Os números são absurdos”, conta Rafaela, em entrevista para esta coluna.
A atriz observa que, quando um escândalo envolvendo a Igreja vem à tona, logo abafado e classificado como “caso isolado”. “É uma instituição criminosa e o que eu entendi é que esse é um lugar tabu da religião. Portanto, eu teria de ir além da misoginia dogmática”. Não à toa o perfil da peça nas redes sociais têm sido alvo de conservadores e religiosos, homens e mulheres. Em Curitiba, a peça foi cancelada, o que a atriz entende como um ato de censura.
Na hora e meia de monólogo, que está em cartaz no Teatro Sabesp, em São Paulo, Fran conta parte da história que consta na Bíblia, mistura referências históricas, questiona ferozmente os dogmas patriarcais usados como sustentação da submissão da mulher ao homem, fala de manipulação emocional, de maternidade como produção de mão de obra, de corrupção da Igreja, abuso econômico, pedofilia, violência sexual, escravidão, estelionato, dá nomes, não poupa ninguém. A exemplo da montagem anterior, “A igreja da Fran” só foi possível graças a um financiamento coletivo de apoiadores. “O meu público diz que eu sou corajosa, mas, gente, estamos em 2026, essas coisas têm de ser ditas”, desabafa.
Ainda que “dizer essas coisas” cause um tremendo desconforto. Como aquela figura que a certa altura da festa deixa o superego descansar e começa a falar um monte de verdades incômodas e a fazer piada delas. Fran, a personagem, não se conforma que o mundo trate como natural uma realidade absurda. Tão absurda que precisa ser ficcionalizada como aceitável. “A quantidade de atrocidades que se comete em nome de Deus… É perverso, é a impunidade com o perdão de Deus”. Rafaela, a atriz, acredita que essa impunidade também beneficia muitas mulheres, já que desloca a questão. “Deixa de ser um problema social, ou cultural, vira um problema espiritual. Então, quando existe esse deslocamento, não tem como resolver o problema, a não ser pelos meios que eles estão propondo”.
Uma crença que prega que a mulher deve ser submissa e obediente dá margem a vasta interpretação e abre a porta para abusos. Uma mulher submissa e obediente não tem querer: sexual, emocional, patrimonial, cidadão. Então, se uma doutrina religiosa diz que a mulher é inferior ao homem, essa mulher não tem autonomia e nem direito de escolher a própria roupa, sua carreira, quando quer transar ou um presidente, não é mesmo? Essa é a ideia, endossada, inclusive, por mulheres.
“Essas figuras conservadoras têm a ilusão de que vão conseguir tirar uma boa fatia dessa sociedade patriarcal, acham que entenderam o jogo. Então, quando você ouve ‘eu sou contra o voto feminino’, sendo que é uma mulher falando… Se você é contra isso, se você é contra a mulher ser considerada um indivíduo, que a mulher tenha um direito social, você nem poderia estar falando, sabe?”, conclui Rafaela – o que nunca é demais, e lamentavelmente cada vez mais necessário, lembrar.
Já ouviu esse discurso por aí? Tem ganhado força em grupos masculinistas de extrema direita nos Estados Unidos, e claro que a extrema direita brasileira vem copiando com louvor, através dos e das porta-vozes de sempre. Isso é método discursivo.
Pergunto à Rafaela se ela acredita ser possível seguir os preceitos cristãos e viver uma vida feminista. “Não. Porque ou você valida uma doutrina que submete todas as mulheres e mantém os homens no poder, ou você luta por uma emancipação feminina”.
Recentemente, entrevistei no “Estúdio CBN”, a pastora Helena Raquel, líder da Assembleia de Deus Vida na Palavra (ADPIV) no Rio de Janeiro, que viralizou numa pregação em que faz um alerta sobre violência doméstica, e fala sobre casos de abuso sexual e pedofilia dentro da Igreja. Perguntei se ela acredita que a mulher deve ser submissa ao homem e se essa dinâmica leva mulheres a situações de violência. “Eu não exponho a igreja quando digo que precisamos tratar isso. Ao contrário, eu acredito que é saudável e que precisamos encarar o problema com inteligência. (…) Nos grandes centros, não é falta de informação, é má vontade. Mas, em muitos lugares, a ignorância ainda impede que as coisas mudem”, respondeu à época.
Na discussão em torno do projeto de lei que criminaliza a misoginia, que o presidente da Câmara Hugo Motta resiste em pôr em votação, deputados e deputadas conservadores ligados a igrejas querem deixar de fora o discurso religioso. Significa que eventuais crimes cometidos por padres, pastores e líderes religiosos podem ser desconsiderados em nome de uma suposta liberdade da Igreja. Ora, religião nenhuma deveria servir de salvo conduto para subjugar e violentar mulheres. E nem ninguém.
Esse é um dos principais obstáculos para o avanço da matéria na Câmara dos Deputados. No Senado, ela foi aprovada por unanimidade. Que evoluções são possíveis quando esbarram em conceitos religiosos que enfraquecem, pra não dizer que paradoxalmente invalidam, as próprias evoluções? Por essas e outras Rafaela Azevedo se diz contra a existência de uma bancada da Bíblia no Congresso: “Parlamentares não podem decidir sobre a vida das pessoas a partir de uma religião, nosso estado é laico”, defende a atriz.
“Espalhar a palavra”
No Brasil 86% da população se identifica como cristã, entre católicos (a maioria), e evangélicos, além de outras vertentes menos numerosas. Esse número foi aferido pelo Censo do IBGE e por pesquisas feitas pelo Datafolha nos últimos anos. “Os outros 14% estão aqui no teatro”, ri Fran, num momento de alívio cômico do culto em que parece evidente a pregação para convertido.
A personagem faz uma pesquisa rápida entre o público para conversar com os que se consideram religiosos. Na noite em que estive no teatro (com capacidade para 600 pessoas), eram três. Um deles declarou nunca ter lido toda a Bíblia. “O cristianismo é compulsório na nossa sociedade. As pessoas nem sabem quais são os dogmas que elas seguem, nunca olharam pra eles criticamente, estão sendo manipuladas. São os cristãos não lobotomizados que eu quero alcançar, para que eles se incomodem junto comigo”, me diz Rafaela, com planos de ampliar ainda mais a discussão e levar a conversa para fora do teatro, em espaços acadêmicos, com lideranças de várias áreas.
“Da misoginia e da homofobia, de alguma forma, a gente está sabendo se defender, mas com as crianças, pedofilia, isso entra num lugar pra mim de raiva, de revolta. Eu quero falar com esses pais e com essas mães que deixam as crianças na igreja. Nenhum lugar é mais perigoso do que a igreja para se deixar uma criança, sabe? E aí não é sobre crença, é sobre estatística, denúncias, é sobre milhares de casos.”
Antes de me despedir dela na chamada de vídeo, peço uma palavra da igreja da Fran: “Não existe nada mais importante do que o conhecimento, do que questionar qualquer regra estabelecida. Não existe nada mais importante, principalmente para mulheres, do que estudar, do que buscar uma independência intelectual. Que a gente perceba o quanto a religião ou qualquer doutrina pode explorar e acabar com a vida de muitas pessoas. E que, sim, o povo tem poder de mudar, para que as próximas gerações consigam viver num mundo não tão violento, não tão misógino, não tão racista”, idealiza em voz alta.
Eu, com formação religiosa em colégio católico e estágio de jornalismo em emissora evangélica no currículo, só posso desejar Que Deus tenha misericórdia dessa nação. E que as Deusas nos abençoem.
Amém.
Para ler:
. “O Púlpito”, Anna Virginia Balloussier, Ed. Todavia
. “Crentes”, Guilherme Damasceno, Juliano Spyer, Raphael Khalil, Ed. Record
. A pesquisa “Mulheres Evangélicas, Política e Cotidiano”, do Iser
. “Michelle”, UOL Prime
. Recomendação da Fran: “Nos bastidores do reino: a vida secreta na Igreja Universal do Reino de Deus”, de Mário Justino, Ed. Geração Editorial.
Para ouvir:
. Estúdio CBN, entrevista com Pastora Helena Raquel
. Café da Manhã, Michelle Bolsonaro e o voto da mulher evangélica
. O Assunto, O lugar da mulher no Bolsonarismo