Não maratone sua série favorita. Deguste
É tão bom que as coisas boas durem, sejam dias de férias, namoros, uma feijoada ou aquela série querida
Toda vez que alguém gosta de uma série já pensa logo em maratonar. E, aliás, desde que o substantivo feminino que se refere à prova de longa duração virou verbo, a ansiedade em devorar temporadas se tornou algo normal. O uso da palavra ansiedade não foi à toa aqui. O que mais resume essa ânsia por acabar logo com alguma coisa? Seja um chocolate, um quebra cabeça, uma trepada ou uma série? Porque, me digam: o que acontece quando a pessoa assiste o último episódio da temporada nova? Ela acaba e, com isso, acaba também a alegria envolvida em consumir aquilo. É o melhor exemplo do “tem, mas acabou”.
A gente já está nessa de slow food, slow travel e movimentos slow no geral há mais de década. Desde que aquele grupo de ativistas ocupou uma praça em Roma protestando contra a abertura de um McDonald ‘s em 1986, que a gente vem discutindo o tema. Apesar de ainda ser muito conhecido por reforçar a conexão entre a comida, a terra e a cultura, hoje, o movimento tem uma atuação bem maior, versa sobre nosso modo de vida frenético e nossa vontade de dominar, devorar e maratonar tudo que vemos pela frente.
Os maratonadores que me desculpem, mas foi exatamente com essa ânsia que a gente devastou o planeta
E os maratonadores que me desculpem, mas foi exatamente com essa ânsia que a gente devastou o planeta. É com essa ânsia que consumimos muito mais do que precisamos. É com ela também que comemos mais do que nosso corpo pede e maratonamos pessoas arrastando pro lado nos aplicativos. Esse hábito não dá em boa coisa.
Daí eu pergunto: pra quê? Onde vamos com tanta pressa?
E vejam, eu não tô aqui querendo cassar o direito de ninguém de assistir a sua série preferida sem pausa ou então de pais e mães que só tem um dia sem as crianças e resolvem se jogar nos streamings. Tô falando de gente que maratona qualquer série – ou todas as séries. Ou pior: assiste em fast foward, acelerando a velocidade pra…. pra que mesmo? Pra acabar logo? Gente, isso me dá uma sensação de ejaculação precoce. Juro.
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Não é porque muitos seriados poderiam ser um filme que precisamos entrar no modo acelerado para todos
E aqui quero resgatar Carl Honoré, com seu best seller Devagar: Como um movimento mundial está desafiando o culto da velocidade, lançado em 2005. O livro traça a história de nossa relação de pressa com o tempo e fala da cultura da aceleração que criamos. “Por que estamos sempre com pressa?”, o autor questiona. E eu replico: porque queremos tanto acabar a série que amamos? Numa metáfora da vida, é como se quiséssemos correr até a linha de chegada. E no fim está a morte.
É verdade que tem gente que devora tudo, de livros a podcasts, passando por pessoas, viagens, álcool e drogas. No geral, são pessoas com um probleminha de compulsão. Mas tenho certeza que nem metade dos maratonadores de série estão neste grupo. Aposto minhas fichas que são apenas pessoas acostumadas à aceleração, gente que se esqueceu da delícia que é guardar um pedacinho de chocolate para amanhã ou passar o dia deixando o caldo apurar.
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Estamos todos tão acostumados com o ao vivo e com os Stories que nos esquecemos de degustar a paisagem, o jantar e as obras audiovisuais. E, convenhamos, não é porque muitos seriados poderiam ser um filme que precisamos entrar no modo acelerado para todos os outros. Afinal, é tão bom que coisas boas durem, sejam dias de férias, namoros, uma feijoada ou aquela série querida que saiu nova temporada.