Abram alas, minha bunda vai passar - Mina
 
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Abram alas, minha bunda vai passar

Que tal decretarmos essa frase poderosa como nosso grito oficial de carnaval? Letícia Vidica conta como está se preparando para colocar, pela primeira vez, a bunda pra jogo na rua

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Durante muito tempo, a bunda foi motivo de desconforto e receio. Nós, mulheres, aprendemos desde pequenas que a bunda não deveria chamar atenção. Parece uma incongruência dizer isso no país da bunda, mas, neste caso, nosso sobrenome é contradição. Ao mesmo tempo que bunda era considerada um patrimônio nacional, em casa e na vida privada, ai de quem deixasse ela à mostra demais. “Esconde essa bunda, menina”, “olha o tamanho desse shorts”, “põe um moletom na cintura”, “tira essa calça apertada”. No país da bunda, mostrar sua bunda não era legal

E dale insatisfação. A dona da bunda pequena, se sentia invisível, a dona da bunda grande se sentia exposta e para tudo que estava no meio arrumava-se um motivo para gerar desconforto. Celulite, estria, falta de contorno, vulgaridade: ter qualquer tipo de bunda era motivo de culpa e insegurança.

O carnaval fez uma revolução que atropela desconforto, neuras e medo da crítica

E assim, no país da bunda, a bunda permaneceu em um território privado, oculto, quase misterioso. Com exceção de quem nasceu na praia ou frequentava as propagandas de cerveja, esconder a bunda era uma missão.  

É por isso que o que vem acontecendo de uns tempos pra cá é tão impactante. O carnaval se empoderou das hot pants e as bundas ganharam a rua. Uma revolução que rasga as saias e dissolve a vergonha. Uma revolução que atropela desconforto, timidez, o medo da crítica e neuras. A bunda pede passagem. E como ela pede!

A colaboradora da Mina, Maíra Blasi, escreveu em um de seus textos que “carnaval não é terapia, mas é terapêutico”. É isso. Não é sobre se curar, mas sobre a sensação libertadora de poder ser quem você é, sem culpa, sem medo. Porque não é sobre a bunda em si, mas sobre ser quem a gente é, celebrando a vida, o corpo e a rua sem tempo e nem espaço para “mas” ou “veja bem”.

E digo isso com muita tranquilidade pois eu fui dessas. Jamais achei que sairia com a bunda de fora, nem no carnaval. Mas nunca subestime o poder da união feminina e da hot pant: esse ano já está agendado, vou me juntar ao batalhão de bundas com glitter e meia-arrastão. E essa certeza não é pouca coisa. Pra quem tem um corpo considerado fora do (que chamam de) padrão isso é de uma força enorme. Nunca imaginei que existiria esse espaço, nem que eu me interessaria por ele e muito menos que avisaria na coluna em rede nacional que, sim, esse ano vou colocar meu popô pra jogo. 

Bundas caídas, com celulite, mirradas ou bundão: uni-vos nessa festa da liberdade, onde, por alguns dias, a gente se aceita, se respeita e se exalta. Parece pouco, mas, acredite, não é. A hot pant tem virado uniforme nos dias de folia, mas no resto do ano nos vestiremos dessa segurança e desse empoderamento pra fazer a maior rebeldia de todas que é se amar, se respeitar e se celebrar. 

A bunda está no comando e, aos críticos, um aviso: a diferença entre objetificação e empoderamento está em nossas próprias mãos.  

Por isso, não se espante, se você vir por aí nesses dias de carnaval, bundas pra todo lado. Porque vai ser bunda no metrô, no ônibus, andando pelas ruas, comendo um cachorro-quente na esquina e dando bom dia para os vizinhos. 

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