Ademara: “Nem tudo é o que a gente vê na internet. Não basta ser bonita, tem que ser ligeira” - Mina
 
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Ademara: “Nem tudo é o que a gente vê na internet. Não basta ser bonita, tem que ser ligeira”

Ademara é feita de uma mistura improvável e irresistível. Teatro, jornalismo, internet, Lady Gaga, Slipknot, memes e uma família católica fervorosa. Aqui ela conta um pouco da sua história

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Cabelo descolorido, roupas pretas, paixão por rock metal, bissexualidade assumida e uma fala acelerada recheada de gírias “icônicas”. Se a brincadeira for reduzir características e gostos a estereótipos, a atriz-jornalista-influenciadora-roteirista Ademara de Barros caberia perfeitamente na caixinha da adolescente de classe média que frequentava a Galeria do Rock nos anos 1980. Com um detalhe que entrega sua origem: o chiado ao pronunciar palavras com S e R, marca registrada do “pernambuquês”.

Observadora atenta, foi justamente manipulando estereótipos que Ademara conseguiu o que milhões de pessoas tentam todos os dias: fincar seu lugar na internet. Morando atualmente no Rio de Janeiro, foi a partir de episódios de xenofobia — ora explícito, ora velados — que ela viralizou com a personagem “Laura Tampurini, a repórter sudestina”, em um vídeo em que tira sarro do sotaque anasalado dos paulistanos.

O conteúdo percorreu o país de norte a sul e abriu a porteira: mais de 666 mil seguidores no Instagram, 201 mil no Twitter e 537 mil no TikTok passaram a acompanhar seu trabalho. “O que eu ganhava com um post de publicidade nas redes sociais era o mesmo que ganhava por mês como jornalista. E o melhor: eu podia me comunicar sem o filtro de um editor ou de uma empresa”, conta.

Foi assim, nesse pêndulo entre metrópole e sertão, tiração de sarro e defesa dos direitos humanos, nordeste e sudeste, que ela conversou com a Mina Bem Estar:

“Aos 2 anos, olhei pro espelho e falei: ‘como sou linda’. Foi meu primeiro atestado de leonina”

Ademara aos 2 anos de idade | Foto: Arquivo pessoal

“Acho essa foto muito icônica, minha mãe conta que, quando me olhei no espelho, falei ‘como eu sou linda’. E este foi meu primeiro atestado de leonina”, diz.  Se por um lado a carreira como atriz de Ademara foi catapultada pelas redes sociais, onde só há espaço para o perfeito, na vida real o mote é outro: “apenas aceito o que Deus me deu”. Ademara colocou em prática o que a veterana Fernanda Montenegro, em sua adaptação de A cerimônia do adeus, defende: “o teatro é a arte mais primitiva de todas porque é uma pessoa em frente a outra, simplesmente falando e se movimentando no mesmo espaço e tempo”. 

Trocando em miúdos: “Com todos aqueles refletores em cima de você, não tem como as pessoas não verem tudo: culote, dobrinha, celulite. Ao mesmo tempo que pode ser uma situação traumática, é um aprendizado essencial pra construção da autoestima. A gente entende que o corpo, para o ator, é só mais instrumento para a atuação e não um objetivo irreal a ser atingido”, completa. Num mundo que cobra tanto uma perfeição inatingível, estar em cena do jeito que se é — com tudo à mostra — vira um gesto de resistência e liberdade que reflete na autoestima.

“Não convivi com muitos adolescentes e isso afetou bastante minha autoestima”

Ademara aos 11 anos de idade | Foto: Arquivo Pessoal

“Sabe aqueles memes do povo sendo roqueiro no interior? Então, foi assim a minha adolescência lá em Igarassu”, conta. Nascida e criada no litoral de Pernambuco, no município com pouco mais de 115 mil habitantes, Ademara lembra que o gosto por rock metal sempre destoou — não só da cidade, mas principalmente dentro de casa. “Minha família é muito católica. Se você for na casa onde eu cresci, até hoje vai encontrar muitos santos. Muitos mesmo. Você vai pegar um pote na cozinha, vai achar um santo lá”, brinca.

Fã de bandas como Slipknot e Black Sabbath, ela encontrou na internet um espaço para compartilhar seu gosto musical. “Não convivia com muitos outros adolescentes porque sempre morei muito longe da escola. Para chegar lá, precisava atravessar dois municípios”, recorda. Quando perguntada sobre como isso impactou sua juventude, ela é direta: “Até tinham adolescentes na minha cidade, mas eu não convivi com muitos por questões familiares e isso afetou bastante minha autoestima àquela época, mas não tirou meu senso de sociabilidade.”

No Orkut, ao se deparar com uma comunidade chamada “Metal e Lady Gaga”, Ademara sentiu algo novo: pertencimento. “Foi a primeira vez que me senti parte de uma comunidade e senti meus gostos normalizados. Surgiram amizades por ali. A gente conversava sobre tudo: música, maquiagem, shows… Isso influenciou muito minha formação pessoal e emocional”, diz. O amor pela estética extravagante de Lady Gaga, inclusive, segue até hoje como uma referência viva na sua forma de se expressar.

“Ir sozinha ao show do Metallica em SP aos 17 anos potencializou meu senso de independência”

Aos 17, Ademara foi ao seu primeiro show de rock, em São Paulo | Foto: Arquivo Pessoal

Essa sede de conexão e identidade atravessou os anos — e os estados. Aos 17 anos, Ademara pisou pela primeira vez no Sudeste para ir ao Lollapalooza, em São Paulo. O show era do Metallica. E ela foi vestida com um sutiã bordado com o símbolo do Ride the Lightning. Aquela mistura clássica: um pouco de metal, um pouco de artesanato brasileiro.

“Foi a primeira catarse verdadeira da minha vida. Eu estava confortável com tudo, com o aperto, a gritaria. Menos com o machismo escancarado que ainda é muito comum entre os fãs de metal. Fui assediada por um cara no meio da plateia, levei um chute na cara de um outro que se jogou por cima de todo mundo”, relembra. Apesar disso, a emoção de se ver cercada de jovens com gostos parecidos — pela primeira vez — marcou. “Estava sozinha no show. Isso potencializou meu senso de independência para viagens e para desenvolver meus gostos e fixações”, completa.

Apesar das piadas com São Paulo (e quem nunca?), Ademara admite que tem um carinho especial pela capital paulista. “Eu gosto mais de São Paulo do que do Rio, desde sempre. É uma cidade cosmopolita na raiz. E também acho que recebe muito melhor as pessoas de fora”, afirma. Mas e o bullying com o sotaque, mêo? “Pensei em fazer a Laura Tampurini [a repórter sudestina] com sotaque do Rio, mas o chiado do carioca é muito parecido com o do pernambucano. O sotaque paulista marca mais a diferença”, explica.

“Mandei currículo pro Brasil inteiro. Fui chamada no Rio de Janeiro”

Com Caco Barcelos, quando participou de um laboratório no Profissão Repórter | Foto: Arquivo Pessoal

Para criar a personagem Laura Tampurini, Ademara se inspirou nas próprias experiências. Ainda durante a graduação em Jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco, foi uma das 20 estudantes selecionadas para participar de um laboratório no Profissão Repórter, concorrendo com alunos de todo o país. “Eu sempre fiz as duas coisas: jornalismo e teatro. Gostava muito dessa loucura”, conta.

A experiência com o programa foi mais do que um ponto alto acadêmico: foi uma virada de chave. Conhecer Caco Barcellos, circular pela redação, ouvir as histórias de colegas de todo o Brasil — tudo isso foi moldando a percepção que Ademara tinha do próprio lugar no mundo. “Conheci gente do Brasil inteiro nesse negócio do Profissão Repórter. Peguei o endereço de todo mundo, de todos os estados, e comecei a mandar currículos com endereços falsos pro país inteiro”, lembra. “Eu pensava: ‘se eu conseguir um trabalho em Minas, no Espírito Santo, na Bahia… pô, eu vou pra lá’.”

Foi nesse ímpeto de tentar, de não se prender a um lugar só, que ela se jogou: uma empresa chamou para entrevista no Rio e, sem titubear, Ademara comprou uma passagem só de ida. “Peguei todo o dinheiro que tinha.” O resto, ela fez com coragem, repertório e carisma. “Eu amava trabalhar no Diário de Pernambuco. É o jornal em circulação mais antigo da América Latina, né? Chiquérrimo”, conta, com humor. Mas como tantas outras redações, o jornal enfrentava dificuldades, e os “passaralhos” — demissões em massa — foram se tornando rotina. Quando as certezas se esvaíram, Ademara apostou em si mesma.

“Estou muito animada pra mostrar minha primeira personagem dramática”

Ademara nos bastidores da série Pssica, da Netflix | Foto: Arquivo Pessoal

Uma busca rápida no Google revela o início de tudo: reportagens de Ademara Thalyta para o Diário de Pernambuco TV. Em algumas, fala com seriedade sobre temas como sustentabilidade e violência urbana. Em outras, mesmo dentro da rigidez do ofício jornalístico, a leveza e a personalidade escapam: como no vídeo dos bastidores do Profissão Repórter, em que arranca gargalhadas ao dizer que “não basta ser bonita, tem que ser ligeira”.

Essa espontaneidade nunca a impediu de ter seriedade — pelo contrário. Ademara carrega as duas com naturalidade. “Eu acho que nunca deixei de ser as duas coisas [jornalista e atriz]. Uma vez jornalista, você nunca deixa de ver o mundo daquele jeito, né?”, reflete. É nesse olhar múltiplo que ela vai firmando seu caminho.

Hoje, além de dois filmes com estreia prevista para este ano (Caramelo e Chá Revelação), Ademara também assina a contracapa do novo livro do jornalista Octavio Santiago, Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste. “Eu tô muito animada! Quando lançar eu vou estar insuportável, falando pra todo mundo que tenho frase na contracapa”, brinca.

E vem mais estreia por aí: Ademara integra o elenco da série Pssica (Netflix), baseada no livro homônimo do escritor Edyr Augusto, com direção de Quico e Fernando Meirelles. “Esta é a primeira personagem dramática que farei depois de ter bombado na internet”, conta. A personagem vai abordar temas delicados como dependência química e tráfico humano. “Nada a ver com o que eu mostro nas redes sociais. Mas a vida é assim, né mona? Nem tudo é o que a gente vê na internet.”

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