Por que alguns adultos dormem abraçados a bichos de pelúcia? - Mina
 
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Por que alguns adultos dormem abraçados a bichos de pelúcia?

Entre conforto emocional, rotina do sono e um toque de nostalgia, especialistas explicam por que esse hábito faz tanto sentido mesmo depois da infância

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Dormir com um bicho de pelúcia pode parecer coisa de criança. Isso até você descobrir quantos adultos fazem exatamente a mesma coisa. Uma pesquisa da empresa americana Build-A-Bear apontou que 40% dos adultos dormem com um brinquedo de pelúcia. Para muitos, esse hábito nunca foi embora. Para outros, voltou em momentos difíceis, como contou a escritora Sarah Gannet no New York Times, ao resgatar um urso polar do armário durante os primeiros dias da pandemia: “Ele tinha o tamanho perfeito para segurar nos meus braços ansiosos de adulta.”

“Como nos sentimos vulneráveis durante o sono, é normal buscarmos formas de conforto”

Outro levantamento, feito pela marca Hotpoint com dois mil britânicos, mostrou que 34% dos adultos ainda dormem com um brinquedo de pelúcia todas as noites, e 15% admitem que não conseguem dormir sem o seu. Quando o assunto é apoio emocional, 17% afirmam recorrer ao bichinho quando estão tristes e 9% preferem dividir a cama com ele do que com o próprio parceiro.

A pelúcia como âncora

Por trás desses dados, há uma verdade simples: dormir é um ato de entrega, e nem sempre isso é fácil. “O sono exige que a gente se abra para um universo novo, no qual perdemos o controle. E isso está cada vez mais difícil, porque estamos menos íntimos de nós mesmos, sempre cercados de telas, vozes e informações”, explica Bárbara Conway, psicóloga do sono e pesquisadora da Faculdade de Medicina da USP. “Dormir exige silêncio, solitude, contato consigo. E como nos sentimos vulneráveis durante o sono, é normal buscarmos formas de conforto.”

Esse conforto pode vir de diferentes fontes: um travesseiro, um cobertor, um parceiro — ou, sim, um bicho de pelúcia. “As pessoas precisam se sentir seguras para dormir. Isso envolve criar um ambiente acolhedor, que favoreça o relaxamento. E esse aconchego pode muito bem estar em um objeto”, diz Bárbara.

A infância não vai embora 

A psicóloga e psicanalista Georgia Franco explica que esse traço infantil segue presente em nós ao longo da vida. “A infância é a parte mais incurável do ser humano”, afirma, brincando que atende em seu consultório “crianças em corpos adultos”. Ela também traça um paralelo entre o ato de dormir e o de morrer: “Dormir é estar meio morto para o mundo externo, mas vivo psiquicamente. É um estado de desamparo.” Nesse contexto, o adulto, assim como o bebê com sua chupeta, pode buscar um “objeto transicional” para atravessar esse momento — seja uma pelúcia ou, como aponta Georgia, o celular, “o novo objeto inseparável do adulto moderno”.

Tanto Georgia quanto Bárbara reforçam que não há qualquer problema em dormir com bichos de pelúcia — desde que isso não se torne uma dependência. “Se a pessoa tem boa saúde mental e se sente confortável assim, não há nenhuma patologia”, afirma Bárbara.

E os benefícios?

Apesar das hipóteses de que dormir abraçado a uma pelúcia possa aumentar a produção de ocitocina — o chamado “hormônio do amor”, responsável por sensações de vínculo e bem-estar —, ainda não há comprovação científica direta desses efeitos no sono adulto com pelúcias.

Entretanto, estudos sugerem que certos estímulos táteis (como o toque suave ou o peso de um objeto) podem ajudar a acalmar o sistema nervoso. Um exemplo é o uso de cobertores pesados, que se mostraram eficazes na redução de insônia e ansiedade leve a moderada, como publicado no Journal of Health Psychology.

Dormir bem é mais importante do que parecer adulto

Além disso, o corpo tende a esfriar durante o sono. Dormir com algo aconchegante pode ajudar a manter a temperatura ideal e facilitar o relaxamento. Para algumas pessoas, segurar um bicho de pelúcia funciona como um ritual — um sinal para o cérebro de que é hora de desligar.

No fim das contas, o motivo mais comum mesmo é o aconchego emocional. “Cada um tem seu jeito de se entregar ao sono: tem quem durma de meia, com luz acesa, pelado, com música ou abraçado a alguma coisa. É muito particular”, resume Georgia.

E com a pressão constante por produtividade — que muitas vezes empurra o sono para o fim da fila —, qualquer estratégia que ajude a preservar esse momento deve ser respeitada. “Se o bicho de pelúcia funciona como um gatilho positivo, que te ajuda a dormir melhor, vai fundo”, conclui Bárbara. Dormir bem é mais importante do que parecer adulto.

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