Dá para trabalhar e ainda fazer amigos - Mina
 
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Dá para trabalhar e ainda fazer amigos

Metade dos brasileiros se sente só no trabalho. Cultivar vínculos mínimos — confiança, apoio, troca — pode transformar o ambiente, reduzir o mal-estar e fazer um bem danado tanto para a saúde mental quanto para a produtividade.

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Eu nunca fui muito entusiasta de happy hour ou das festinhas de fim de ano e continuo sendo defensora do trabalho remoto. Mas preciso admitir: o trabalho tem uma importância enorme na nossa vida. A maioria das pessoas passa pelo menos oito horas por dia trabalhando. E, gostando ou não, cuidar das relações no ambiente profissional ou simplesmente sair de casa de vez em quando para encontrar as pessoas presencialmente (principalmente quando não somos obrigados), faz diferença na nossa saúde mental.

“A solidão está ligada à queda de motivação e ao aumento de riscos de ansiedade e depressão”

A solidão no trabalho é mais comum do que parece. Uma pesquisa da Pluxee mostrou que 47% dos brasileiros já se sentiram sozinhos no trabalho, mesmo cercados de colegas, e que 78% valorizam amizades verdadeiras no ambiente corporativo. Outro levantamento da Ipsos, realizado em 28 países, revelou que o Brasil lidera o ranking global: 50% dos brasileiros afirmam sentir-se solitários, contra uma média mundial de 33%. Não dá para ignorar esses números, eles mostram que a solidão não é apenas uma experiência individual, mas um traço coletivo que impacta a sociedade como um todo e, naturalmente, se reflete nas nossas relações de trabalho.

No dia a dia, ela aparece de formas sutis: preferir almoçar sozinho para não ter que conversar, evitar o café com os colegas, não compartilhar nada da vida pessoal. Parece inofensivo, mas esse isolamento cobra um preço. Pesquisas mostram que a solidão está ligada à queda de motivação, à menor produtividade e ao aumento de riscos de ansiedade e depressão. No artigo Solidão e Trabalho na Contemporaneidade, os autores dizem que a solidão pode ser entendida como um afeto da convivência e da interação social: não basta estar fisicamente entre seres humanos, é a qualidade dos vínculos que dá sentido ao convívio.

Até mesmo quem adota o discurso “não estou aqui para fazer amigos” (confesso que eu mesma já disse isso algumas vezes) acaba, de alguma forma, sofrendo com essa falta de conexão. Criar vínculos no trabalho não significa ter que ser amigo de todo mundo, mas sim ter a confiança mínima para dividir ideias, pedir ajuda ou compartilhar uma dúvida sem medo de julgamento. Quando esse suporte falha, a solidão deixa de ser apenas uma sensação passageira e se torna um sintoma do mal-estar organizacional, fruto de culturas de trabalho excessivamente competitivas e da pressão por desempenho individual. 

Ainda que em alguns casos a solidão possa gerar reflexões pessoais ou até abrir espaço para projetos internos, é perigoso romantizá-la. Como lembram pensadores como Alain Touraine e Vincent de Gaulejac, citados nas discussões sobre trabalho contemporâneo, a solidão muitas vezes revela não força, mas a fragilidade dos laços sociais em contextos que exigem cada vez mais autonomia sem oferecer nada em troca.

Ignorar o  aspecto social do trabalho pode ser arriscado, porque grande parte da nossa vida adulta se passa ali. Por isso, cultivar relações no ambiente profissional não é luxo, é investimento no bem-estar e na performance. O oposto da solidão não é a euforia, mas sim a certeza de que existe suporte na hora da dúvida e celebração na hora da conquista.

É fundamental lembrar que o trabalho não deve ser a nossa única fonte de afeto. A conexão é uma necessidade humana que transcende o crachá, por isso precisamos cuidar dos nossos amigos, família e comunidades. No entanto, já que a solidão é uma epidemia global, é importante fazer deste espaço um lugar de nutrição social, nem que seja mínima. 

Essa construção começa com a nossa disposição individual de quebrar a barreira: na próxima vez que pensar em almoçar sozinha, convide alguém, ir ao happy hour faz parte do trabalho, tome cafezinhos com a galera, seja mais intencional nas trocas. Se 50% dos brasileiros se sentem sós, essa simples abertura pode ser o primeiro passo para mostrar que estamos, ativamente, combatendo o isolamento e construindo um convívio mais humano e saudável.

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