Saúde também se faz com contato com a arte
Pesquisas revelam como o contato com a arte — mesmo virtual — pode reduzir o estresse, melhorar o humor e aliviar sintomas de ansiedade e dor
Há algo mágico no instante em que nossos olhos encontram uma obra de arte. Pode ser um quadro impressionista no silêncio de um museu, um mural colorido em meio ao caos da cidade ou até aquela música que arrepia a pele. É como se o tempo desacelerasse e o mundo ao redor se dissolvesse em formas, sons e emoções. Apesar de parecer uma vivência subjetiva, a ciência mostra que a arte pode ser uma verdadeira aliada do bem-estar.
Quem interage com arte regularmente relata níveis mais altos de satisfação com a vida
Pesquisas na área da neuroestética indicam que contemplar uma obra ativa regiões do cérebro ligadas ao prazer e à recompensa. Um estudo da University College London revelou que, ao observar uma pintura considerada bela, há aumento na atividade do córtex orbitofrontal — a mesma área cerebral ativada quando estamos apaixonados. Ou seja, criações artísticas podem, literalmente, fazer o coração bater mais forte.
Outro estudo, publicado no Journal of Positive Psychology, mostrou que pessoas que interagem com arte regularmente — seja visitando museus, ouvindo música ou criando algo — relatam níveis mais altos de satisfação com a vida e menor risco de desenvolver depressão e ansiedade. A arte, portanto, não só emociona como também pode ter efeitos duradouros na saúde mental.
“A arte tem o poder de evocar emoções e memórias. Mais do que isso, ela desperta sensações e nos ajuda a ressignificar e a navegar pelos labirintos da nossa existência”, diz Ariela Mansur, que tem conhecimento de causa. Ela é uma das sócias da galeria paulistana NATA Art&Design, ao lado de Natasha Szaniecki, que completa: “A arte salva, independentemente do estado emocional”.
Quando a arte transborda
Em alguns casos, a experiência estética pode ser tão intensa que provoca reações físicas e emocionais extremas. É o caso da chamada Síndrome de Stendhal — ou “mal dos viajantes” — que acomete pessoas diante de uma quantidade avassaladora de beleza artística e histórica. Os sintomas incluem tontura, palpitações, ansiedade e até alucinações. O nome vem do escritor francês Stendhal, que em 1817 relatou se sentir tomado por uma emoção incontrolável ao visitar a Basílica de Santa Croce, em Florença.
Apesar de ter sido identificada no século XIX, a síndrome continua atual. Casos semelhantes ainda são registrados em grandes centros artísticos como Florença, Paris e Roma — mas agora com novas roupagens. Em tempos de hiperconexão e sobrecarga sensorial, há quem se sinta igualmente impactado ao visitar exposições imersivas ou consumir arte digital em excesso. É uma lembrança do quanto o contato com a arte pode ser visceral e, às vezes, avassalador.
Arte à distância
Nem todo mundo pode estar frente a frente com obras-primas como o Davi de Michelangelo, a Santa Ceia de Leonardo da Vinci ou os quadros de Van Gogh, Monet e Rodin. Mas a boa notícia é que é possível admirar essas e outras maravilhas do mundo todo pela internet. E isso também surte efeito positivo.
Foi o que comprovou uma equipe da Universidade de Viena durante o confinamento da pandemia de Covid-19. No estudo, voluntários foram convidados a visitar uma exposição virtual com obras de Monet, da National Gallery de Londres. Antes e depois da experiência, eles responderam questionários sobre bem-estar, ansiedade, humor, solidão e interesse por arte. O resultado surpreendeu: os participantes relataram melhora nos níveis de humor e sensação de bem-estar, reforçando que a arte, mesmo virtual, pode ter efeitos terapêuticos.
A arte não é apenas um passatempo — é uma necessidade humana
Esse achado amplia o leque de possibilidades. Imagens artísticas acessadas por celular, por exemplo, podem aliviar a tensão em salas de espera, ajudar no controle de crises de ansiedade ou levar conforto a pessoas com mobilidade reduzida. E mais: permitem que os benefícios cheguem a regiões remotas, promovendo inclusão e cuidado.
Além da contemplação
Mais do que observar, participar de atividades artísticas também traz benefícios significativos. As terapias ocupacionais baseadas em arte são amplamente utilizadas em tratamentos para depressão, ansiedade e Alzheimer. Dança, pintura, música e escrita são formas de expressão que ajudam no desenvolvimento emocional, cognitivo e social dos pacientes.
Mas mesmo sem a prática direta, a presença da arte já pode fazer diferença. O projeto britânico Arts in Health revelou que ambientes hospitalares decorados com obras artísticas ajudam a reduzir a percepção da dor, diminuem os níveis de estresse e até melhoram o sono dos pacientes.
Seja admirando um quadro, ouvindo uma canção ou criando algo do zero, a arte não é apenas um passatempo — é uma necessidade humana. Ela nos conecta, nos inspira e, sobretudo, nos lembra de que estamos vivos. Da próxima vez que você se perder em uma obra de arte, lembre-se: esse instante de encantamento pode ser exatamente o que sua mente e seu coração estavam pedindo
