A falácia da beleza natural - Mina
 
Seu Corpo / Textão

A falácia da beleza natural

Usar toda a tecnologia disponível para parecer que não fez nada não é ser natural. Mas mais do que vigiar e punir quem acha legal construir a própria imagem precisamos ter maior diversidade de belezas

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Há algumas semanas um mesmo assunto ocupou a nossa cabeça: os dentes da Aimee Lou Wood que, em tempos de sorrisos perfeitos, ganhou destaque justamente por serem naturais. Que coisa deliciosa! Uma atriz de sucesso, estrelando um dos maiores fenômenos audiovisuais do momento, com dentes fora do padrão estético vigente. A euforia foi grande: “A volta do sorriso natural”, li em todo canto. E é justamente sobre essa ‘beleza natural’ que eu quero falar hoje.

Definir o que é intervenção e o que é só cuidado não é tão simples

De cara, eu poderia usar o argumento que todo mundo usa, de que não tem beleza natural porque o que estamos chamando de natural é, na verdade, uma estética que vai virar padrão e será copiada do mesmo jeito. É fazer um botox preventivo, colocar pouco preenchimento, usar toda a tecnologia disponível para parecer que não fez nada. Desconfio, inclusive, que “parecer natural” dá mais trabalho que “assumir a montação”. Mas eu vou além: o que, afinal, é ser natural?

A resposta mais óbvia e imediata é que a beleza natural é aquela que nasceu com a gente. A textura e a cor do cabelo, sem tinta e nem escova, a pele que herdamos da nossa família, o formato de braço-peito-bunda-coxa antes de procedimentos. Mas qual o limite disso, será que a proteína e os pesos na academia também contam?

Definir o que é intervenção e o que é só cuidado não é tão simples quanto parece. Filtro solar é um ótimo exemplo. Uma mulher de classe média urbana no Brasil dificilmente vai dizer que usar filtro solar é deixar de ter uma beleza natural. Mas, sem filtro solar, a pele fica bronzeada, envelhece mais rápido, adquire manchas e aumenta significativamente o risco de câncer de pele. Basta olhar para o rosto de uma mulher que trabalha horas no sol e uma outra que trabalha no escritório e nunca se expõe à luz do dia sem filtro solar. Radicalmente diferente.

Os produtos de skincare, fazem a beleza deixar de ser natural? E os peelings e lasers? E o funcional e o pilates? Será que a beleza é natural se a gente corta o cabelo todos os meses pra manter um determinado penteado? Depilação já foi um tema de disputa: a beleza natural é sempre peluda?

A verdade é que tudo que entendemos hoje como “beleza natural” já é culturalmente mediado. A ideia de natural é também construída. Ninguém, absolutamente ninguém, vive sem fazer intervenções de beleza. Dependendo de onde está, natural tem um determinado significado.

Sinto que, a não ser que façamos uma lista moralista do que é intervenção e do que é apenas cuidado pessoal, essa conversa não faz muito sentido. E mais, mesmo essa lista, precisará ser atualizada diariamente, junto com a movimentação da cultura, certo?

Existe um falso dilema, que já foi resolvido há muitos anos pela antropologia, em que natural é usado como sinônimo de inato, enquanto cultural é tudo que é produzido e, portanto, construído. E, bom, isso é falso justamente porque absolutamente tudo é cultura. Inclusive valorizar mais quem já nasceu bonito, segundo os padrões da sociedade em questão, e não precisa se esforçar.

O problema é quando a beleza natural vira só mais um padrão

Não estou negando a máquina comercial que opera hoje na nossa cabeça. Existe sim, uma enxurrada de “problemas” imputados à nossa imagem e que nos trazem a sensação que precisam ser “consertados” – com a ajuda de algum produto ou procedimento. É claro que existe um padrão de beleza (pelo menos um para cada grupo social) e que somos levadas a acreditar que precisamos nos encaixar naquele ideal. Isso também é cruel.

O problema, pra mim, é que beleza natural vira só mais um padrão para nos encaixarmos. E o pior, num padrão que você tem que atingir se esforçando sem parecer que se esforçou. Não adianta nem ficar rica e torrar tudo em academia e procedimento, só nos resta a reencarnar “naturalmente bonito”.

Entre o rolo compressor da indústria da beleza e a falácia da beleza natural, fico com a sensação de que a discussão fica mais interessante se a gente parar de tomar conta do que cada um faz no próprio corpo e se perguntar: como é que a gente faz para expandir a ideia de “ser bonito”? Como criar menos padrões e mais diversidade de belezas?

De maneira geral, desde muito pequenos, os bebês enxergam, mas é a cultura que vai dizer pra todo mundo o que é importante de ver, de perceber. É por isso que os povos nativos de regiões árticas conseguem identificar vários tons de branco e nós, brasileiros, não. É uma habilidade treinada pela cultura. Sendo assim, arrisco dizer que é mais eficiente treinar o nosso olhar e a nossa cultura para reconhecer uma quantidade maior de belezas ao invés de vigiar e punir quem acha legal construir a própria imagem (até porque, no fim do dia, estamos todos construindo).

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