Cale a impostora que existe em você - Mina
 
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Cale a impostora que existe em você

Colunista da Mina desde 2022, Tatiana Vasconcellos se entendeu como escritora recentemente. E assumir esse lugar foi um passo para calar a voz que dizia: “você não é suficiente”. Agora, ela se prepara para lançar seu primeiro livro.

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Ser chamada de escritora me causou espanto. Não consegui disfarçar a surpresa ao ser referenciada por uma autora que admiro e que leio há anos, ali na minha frente.  

O fato super corriqueiro se deu durante uma conversa que mediei na Feira do Livro, no Pacaembu, com a escritora e dramaturga Maria Adelaide Amaral, de quem adoro “Meus Queridos Amigos” e que está relançando “O Bruxo” (Ed Instante). Conosco na mesa estava Andrea Del Fuego, autora de “A Pediatra”, que leio desde que ela “escrevia para 107 pessoas”. Diante de uma platéia bem atenta, Andrea me apresentou como jornalista e escritora, me perguntou sobre ”Nem Toda Mulher” (Ed. Telha), que lanço agora no segundo semestre, e me impulsionou a me apropriar deste termo: escritora. 

É impressionante como a impostora sempre aparece nos momentos mais impróprios e inoportunos

Alcunha que já questionei, como se não merecesse. Na ocasião de um convite de uma autora para um “jantar de escritoras”, respondi que iria, ainda que não fosse escritora. No que ouvi uma réplica tão cortante quanto acalentadora, o famoso “tapa com luva de pelica”: “e o que você faz na Mina Bem-Estar? Dança?” 

É impressionante como a impostora sempre aparece nos momentos mais impróprios e inoportunos. Afinal, se estou aqui todo mês e em breve meu nome estampará a capa de um livro sou o que? Dançarina? Oras… Ser validada pelos pares ajuda a gente a se habituar com novas roupas. E sabemos que costuma se dar melhor quem desfila nessa vestimenta com mais conforto, certo que ela foi feita para si. 

Se temos dúvidas ou inseguranças sobre ocupar novos lugares, fica mais fácil quando somos bem recebidas. A maturidade também ajuda na segurança dessa apropriação. Assim vamos nos reconhecendo ali. Uma grande amiga jornalista E escritora, que esteve no palco da Praça Charles Miller falando sobre seu livro, me diz que escrevo uma história por dia no rádio. Arregalo os olhos com a coincidência: a autora Liana Ferraz diz algo muito parecido no prefácio de “Nem Toda Mulher” sobre o que faço todos os dias diante do microfone da CBN.

Vou publicar um livro pela primeira vez. Aos 47 anos. O primeiro livro. “Nem Toda Mulher”. Escritora. Autora. Esse não é um título que se mereça. Parece ostentoso, mas são só palavras usadas para se referir a quem escreve. 

“Estou aqui. Viva e com fome”, diz Maria Adelaide, ali ao meu lado, aos 83 anos, falando sobre trabalhos que está começando a fazer. Roteiros de filmes, de séries. A animação de começar uma coisa nova, de colocar seu talento a serviço de outros fins. Artísticos ou não. 

Tem estudos que mostram o quanto somos beneficiadas por novos começos. Novas experiências ativam o hipocampo, melhoram a memória, estimulam o sistema de dopamina, fortalecem as sinapses e ampliam o prazer de aprender.

Fazer coisas pela primeira vez! Inaugurar, estrear, começar. Se lançar num novo plano, se experimentar em novos papéis, com curiosidade, satisfação e alegria. Um novo ofício, uma nova profissão, um novo amor, uma nova vida. Com parâmetros e engrenagens que funcionam de um jeito sem precedentes. Se acostumar a dançar numa nova pistinha. Renovar o tesão pela vida. Viver com fome, como Maria Adelaide. 

Para ouvir: 
“Com que roupa”, Noel Rosa.

Para ler:
“O Bruxo”, Maria Adelaide Amaral, Ed. Instante.
“A Pediatra”, Andrea Del Fuego, Companhia da Letras.
“Um prefácio para Olivia Guerra”, Liana Ferraz, HarperCollins.

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