O Carnaval é coletivo. E a festa corre risco quando vira negócio
Atrações internacionais, multiplicação de megablocos comerciais, mudança no trajeto em cima da hora: existe um desequilíbrio que afeta diretamente a diversidade do Carnaval de rua. A festa sempre foi política e agora isso está mais claro do que nunca
Fantasia. Excesso. Liberdade. Beijo na boca. Só de falar essas palavras já dá pra saber que estou falando de Carnaval, certo? Da festa da carne, dos prazeres, do momento de se livrar das amarras e ser feliz. Mas existe uma outra palavra fundamental para que essa festa aconteça — e que quase nunca aparece associada a ela, especialmente quando falamos de blocos de rua: organização.
Há um enorme preparo para que a gente ocupe as avenidas e vielas com nossos corpos, alegria e suor. O mais óbvio é o individual, que quem vai às ruas conhece bem. Decidir em qual cidade vai cair na folia. Quem vai estar no seu bonde. Em quais blocos vocês vão. Qual vai ser o look ou fantasia de cada dia. Descolar uma doleira pra proteger o celular dentro da roupa. Escolher bem o que vai na pochete. Y otras cositas más.
Para que tudo funcione, o apoio do poder público faz muita diferença
Só que, acima de tudo, o Carnaval é uma festa coletiva. Então, muito antes de você tacar brilho no rosto e sair com pouca roupa por aí, tem toda uma galera trabalhando para que você possa se divertir. Os músicos ensaiam o ano todo. Os pernaltas e outros artistas se aperfeiçoam. Os organizadores planejam trajetos, negociam autorizações, levantam recursos, contratam equipes, organizam estrutura, segurança, banheiros… Tem muita, mas muita gente se dedicando com afinco – inclusive, em diversos casos, sem ganhar nenhum centavo – para que a gente possa se divertir nas ruas.
E para que tudo funcione, o apoio do poder público faz muita diferença. Inclusive, existe uma lei que formaliza esse dever. A Lei Federal nº 14.845 reconhece os blocos e bandas de Carnaval como manifestações da cultura nacional e garante que eles possam existir e desfilar livremente. Uma confirmação de que o Carnaval de rua é cultura e precisa ser viabilizado com diálogo, organização e regras claras.
Porém, não é isso que vem acontecendo em algumas cidades do nosso país que se orgulham tanto de atrair um grande público nesta época do ano. São Paulo, que recentemente tem se apresentado como “o maior Carnaval do Brasil”, com a expectativa de reunir mais de 16 milhões de foliões, vive hoje uma série de impasses com quem faz a festa acontecer. Organizadores apontam falhas na comunicação com a prefeitura e na forma como as decisões são tomadas.
Totens foram espalhados pela cidade com QR codes para a agenda antes mesmo dela ser definida. Quinze dias antes do início oficial da festa, muitos blocos ainda não sabiam onde nem quando sairiam em cortejo. Após pressão popular e reportagens em diversos veículos, o site com a programação entrou no ar com sobreposições evidentes de blocos dividindo o mesmo espaço, no mesmo horário e um aviso que resume bem o cenário caótico: programação sujeita a alteração.
Isso afeta diretamente a captação de patrocínio. Marcas pedem previsibilidade, circulação estimada, território, e nada disso existe quando a programação chega em cima da hora e pode mudar até a véspera. Esse cenário se soma aos custos obrigatórios para sair às ruas, que vão muito além da música: banheiros químicos, ambulâncias, seguranças e toda a logística exigida para desfilar com segurança. Cuidados que deveriam ser oferecidos pelo poder público para fortalecer a festa que faz circular tanto dinheiro pela cidade, mas que acabam ficando sob responsabilidade dos blocos.
Megablocos e o risco real
Nesse cenário, blocos médios e blocos tradicionais passaram a anunciar que irão reduzir ou cancelar os desfiles deste ano por falta de recursos. Ao mesmo tempo, megablocos, com artistas consagrados e maior apelo comercial (inclusive atrações internacionais que nada tem a ver com a nossa cultura) concentram cada vez mais patrocínio, estrutura e visibilidade, aprofundando um desequilíbrio que afeta diretamente a diversidade do Carnaval de rua da cidade.
A situação fica ainda mais assustadora quando inclusive os megablocos, usados como chamariz, são tratados com descuido. No final de semana oficial pré-carnaval em São Paulo, o que se viu foi superlotação, tumultos e pausas forçadas em desfiles por risco de acidentes, com gente passando mal, falta de banheiros e falhas graves de controle de fluxo e segurança, incluindo ausência de rota de fuga — tanto no bloco da Ivete, no Ibirapuera no sábado, quanto no eixo Consolação, no domingo. Ali, a Prefeitura sobrepôs o megabloco do Calvin Harris ao trajeto do tradicional Baixo Augusta (no mesmo trecho e em horário incompatível) num ponto em que não havia espaço para dois desfiles, criando um efeito de funil que transformou a rua em risco.
Em Belo Horizonte, apesar de uma relação hoje mais estruturada entre poder público e blocos — construída depois de anos de disputa, organização e pressão popular — o cenário recente também mostra fissuras. Com menos recursos disponíveis e maior dependência de patrocínio privado, cresce a lógica de apostar em nomes “vendáveis” e atrações de fora, em detrimento de blocos tradicionais da cidade. Esse movimento já teve efeitos concretos na programação. Grupos tradicionais ficaram de fora ou perderam espaço, como a Alcova Libertina, retirada de seu local histórico, a Avenida dos Andradas, segundo o próprio bloco, por decisão política. O caso levantou questionamentos sobre a transparência e sobre quais critérios estão sendo usados para definir trajetos, prioridades e a própria programação oficial.
Vale lembrar que o Carnaval de rua de Belo Horizonte ressurgiu a partir de 2009, justamente como reação à política de restrição ao uso do espaço público durante a gestão de Márcio Lacerda. Foi a partir da articulação dos próprios blocos, da ocupação da rua e da disputa por direito à cidade que a festa voltou a ganhar escala e identidade. Quando a expansão da festa passa a vir acompanhada de uma curadoria que privilegia escala e apelo comercial, a pressão recai justamente sobre a diversidade e a cena local que fizeram o Carnaval de BH existir e crescer.
Até mesmo Olinda, que tem um dos carnavais mais consolidados do país, vem atravessando problemas. A poucos dias da abertura oficial, a cidade ainda não tinha a sua tradicional decoração instalada nem a estrutura de palcos finalizada em pontos centrais, deixando o Sítio Histórico longe do cenário esperado para receber milhões de foliões. Parte dos serviços essenciais entrou em contratação a menos de dez dias do Carnaval, e licitações chegaram a ser adiadas por instabilidade técnica no sistema, empurrando ainda mais o cronograma.
Mesmo assim, há quem ainda resista à ideia de que o Carnaval é uma festa política. Focados na curtição e em dar vazão aos próprios prazeres, muitos foliões não percebem tudo o que acontece que eles tenham múltiplas opções de bloco espalhadas pela cidade. O Carnaval tem na coletividade sua força primária. E é fundamental que quem frequenta os blocos apoie seus organizadores na disputa por espaço na cidade e na programação oficial da festa. Existe hoje uma força conservadora dedicada a cercear alegria e diversidade — e esse movimento de abafamento dos blocos de rua pelas prefeituras não é mera coincidência. Agora (e para todo o sempre) é um momento decisivo para a gente mostrar a potência da nossa união em nome festa, da cultura popular e da liberdade.



