Carnaval: uma rede social brasileira que não para de crescer - Mina
 
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Carnaval: uma rede social brasileira que não para de crescer

Ter o encontro como parte do cotidiano nos imuniza contra a epidemia de solidão que corrói o mundo. Thais Fabris, faz um convite: Vem pra rua

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Enquanto o Vale do Silício esperneia no Norte, aqui no Sul da América do Sul uma importante rede social ganha cada vez mais força e, a cada ano, cresce em usuários. Trata-se, é claro, do carnaval de rua

Não vai dar nos jornais, mas nas principais capitais da folia dos blocos já arrasta multidões desde a primeira semana do ano. Afinal, o mundo está ruim demais para o carnaval ser limitado a 4 dias lá em março. Novos blocos nascem a todo momento, seja porque Gracyanne Barbosa está no BBB ou porque Fernanda Torres foi indicada ao Oscar, todo assunto é merecedor de celebração. Já há relatos de que o número atual de músicos não dará conta da demanda, que promete crescer conforme a data oficial se aproxima. 

O carnaval é diverso, horizontal, promove o encontro e a troca

Para efeito de comparação, enquanto o X (antigo Twitter) é uma rede social de prejuízo, nas palavras do próprio Elon Musk, e perde usuários em ritmo acelerado (tendo atualmente cerca de 40 milhões de usuários ativos mensais do Brasil), no ano passado o carnaval cresceu 6% em público e 10% em faturamento. A estimativa é de 49 milhões de foliões que movimentaram 9 bilhões de reais. 

Some-se a isso o crescimento de todas as festas populares, do Boi de Parintins ao Círio de Nazaré, passando pelo São João de diferentes Estados, é um movimento contínuo de ocupação das ruas, movimentação dos corpos e valorização da arte local. E olha que, enquanto a regulamentação das redes digitais segue sendo atrasada, as festas de rua são muitas vezes proibidas, coibidas e confinadas pelo poder público e privado.

Se as redes da internet estão cada dia mais anti-sociais, promovendo o isolamento, o preconceito e a intolerância, na rua a história é outra: o carnaval é diverso, horizontal, promove o encontro e a troca. Talvez você esteja pensando que isso é pouco, já que os homens que comandam a Internet têm a força do dinheiro. Pois eu te digo que se eles são poderosos, nós somos muito mais. E repito: precisamos parar de olhar para o Norte em busca de respostas, pois quem criou os problemas não trará soluções. 

Nossas festas populares podem ser o antídoto utópico necessário para essa distopia que os poderosos nos impõem. Se você não acredita em mim, veja o que Ailton Krenak propõe como ideia para adiar o fim do mundo “Cantar, dançar e viver a experiência mágica de suspender o céu é comum em muitas tradições. Suspender o céu é ampliar o nosso horizonte; não o horizonte prospectivo, mas um existencial. É enriquecer as nossas subjetividades, que é a matéria que este tempo que nós vivemos quer consumir.” 

Olhemos também para o que Silvia Federici escreve em Além da Pele “Nossa luta deve começar pela reapropriação de nosso corpo, a revalorização e a redescoberta de sua capacidade de resistência, a expansão e a celebração de seus poderes, individuais e coletivos. A dança é central para essa reapropriação.”. Afinal, como diz Luiz Antonio Simas, a gente não faz festa porque a vida é boa, muito pelo contrário, festejamos para resistir. Esses e outros dos principais pensadores da atualidade que estão olhando para essa perspectiva de fim dos tempos apontam que a saída passa pela festa, música, dança, arte.

Um povo que tem o encontro como parte do cotidiano fica imunizado para a epidemia de solidão que corrói o mundo. Em festa construímos laços sociais, fortalecemos o senso de comunidade, abrimos novos caminhos de pensamento através da arte. Por isso, eu convido: contra a desesperança que Musk, Zuckerberg e Trump nos causaram nos últimos tempos, saia da internet e venha pra rua. Vamos fazer desse o maior carnaval de todos os tempos.

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