Amizades precisam ser inteiras, mas talvez não pra vida inteira
Deixar pessoas irem é tão importante quanto deixar entrar. Carolina Dieckmann fala sobre a vontade genuína de continuar junto e também sobre a importância de se despedir
Coincidências não existem, digo para mim mesma.
Há 55 dias eu estava sentada numa cadeira de cabeleireiro no dia de entregar a coluna aqui pra Mina. Nesse mesmo dia, Preta, minha melhor amiga, se submetia a uma cirurgia seríssima, e eu terminei meu texto desejando que ela se recuperasse logo. Hoje, estou novamente sentada numa cadeira de cabeleireiro, novamente aproveitando pra escrever… Hoje a Preta está tendo alta do hospital e, finalmente, indo pra casa.
Só me dei conta agora. E adivinha o tema da minha escrita? Amizade.
Tenho algumas amigas da vida inteira e também algumas que pareciam ser e não foram
Eu combinei com a Lia, minha editora, que o tema seria esse, ontem. E tudo foi fazendo cada vez mais sentido. Acabei de lançar uma coleção-cápsula com uma estampa que eu desenvolvi, absolutamente inspirada pelo amor que sinto pelas minhas amigas. Minha tela diz: ‘amiga é irmã escolhida’ e é bem desse jeito que eu sinto, porque a gente escolhe mesmo!
E escolher é muito diferente de agregar. Seria um sonho que fossem sinônimos, mas a verdade é que quanto mais o tempo passa, mais a gente entende que a seleção vai ficando inevitável. Nunca foi sobre quantidade, nem nunca será.
Muitas vezes me perguntei se uma amizade precisa mesmo de manutenção… é óbvio que estar atenta, estar aberta e estar sempre presente de alguma forma é imprescindível para que a coisa funcione e dure – como tudo na vida. Acontece que, às vezes, uma amizade precisa acabar. Amizades (às vezes) tem prazo. Essa é uma frase que digo com alguma tristeza, mas também com o peito leve por ter deixado ir quando foi necessário. Porque pessoas mudam. Pessoas se revelam. E, às vezes, nesse processo, fica claro que aquilo não combina mais com quem gente é… ou se tornou.
Tenho algumas amigas da vida inteira e também algumas que pareciam ser e não foram – porque já não eram, eu acho.
Tenho visto meu círculo de pessoas preferidas se expandir, e outras vezes encolher, como um pulmão quando respira. A vida é um movimento constante, e fazer avaliações e reavaliações, é parte impreterível do caminho.
Mas se deixar gente ir é importante, deixar entrar, também é. Hoje, escrevendo sobre essa irmandade, penso como é gostoso cuidar de quem se ama. A tal da manutenção só faz sentido se o combustível for o amor e a vontade genuína de continuar junto. Essa coisa de discutir relação, de enfrentar, de falar a verdade na hora que se quer, sem cuidado, no estilo doa a quem doer, não faz o menor sentido pra mim. Amigo é colo. Amigo é pra ser bom. A vida é curta demais pra gente se despedaçar por aí no intuito de manter de pé, e a qualquer custo, relações que não nos fazem bem.
Uma amizade não precisa ser pra vida inteira, mas precisa ser inteira enquanto existe.
Hoje, no dia da alta da Preta, penso também nas amigas dela, que estiveram incansáveis ao seu lado, e que viraram pessoas por quem eu rezo e agradeço, e ainda tenho a sorte de chamar de minhas também. Porque quando o combustível é o amor, ele transborda pra quem está do lado. Jude, Soraya, Gominho, Duh e Mallu. Isso aqui também é sobre vocês. Preta, meu sol maior… vai dar certo. Já Deus!!
Cuide de quem você ama. Cuide das relações que te fazem bem. Se doe, se entregue, se derreta. Mas não se esqueça… acima de tudo, cuide de você.


