Não é só um corte: a trajetória do cabelo - Mina
 
Seu Corpo / Reportagem

Não é só um corte: a trajetória do cabelo

Há muita história e ancestralidade no corte das madeixas. Entre simbolismos e demonstrações de poder, o corte dos cabelos tem seu lugar no mundo. Só precisa olhar.

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“O que é que houve, meu amor / Você cortou os seus cabelos?
Foi a tesoura do desejo/ Desejo mesmo de mudar” 

O diálogo é da música “Tesouro do Desejo”, composta por Alceu Valença em 1992. Segundo o compositor, a música foi escrita após reencontrar uma ex-namorada em Nova Iorque. Foi, ao ver o novo corte, que ele teve certeza que eles não reatariam. Nas palavras de Alceu durante um show em São Paulo: “toda mulher quando corta o cabelo depois de uma separação, saiba, minha gente, que ela não vai voltar pra ninguém”.

A artista plástica e pesquisadora Sofía Álvarez Capuñay lembra bem desse momento na vida dela. “Acho que eu tinha uns 25 anos. Tinha terminado com um cara e decidi cortar o cabelo bem curto, na época era algo bem masculino”, diz. O corte, segundo Sofía, foi um rito — um movimento para abrir espaço para quem ela estava prestes a se tornar. Antes de cortar, no entanto, trançou os fios e guardou a trança. “Meu cabelo é preto, longo e pesado. Bem típico das mulheres andinas. Guardar esse cabelo era uma forma de preservar algo meu, que tinha sido parte do meu corpo.”

A associação entre cabelo longo e feminilidade que tomamos como natural é uma importação europeia

A trança ficou guardada até se tornar parte da série “Tenho que tirar isso de cima de mim”, na qual a artista explora luz e objetos em composições intimistas. Em uma das fotos mais marcantes, ela aparece de costas, segurando a trança nas mãos. “A foto me fez lembrar da minha avó, que guardava o cabelo dela, e também das mulheres peruanas que têm esses cabelos longos. Foi então que decidi estudar e trabalhar com este tema”, diz a pesquisadora, doutoranda na Universidad Complutense de Madrid.

Cabelo como herança

A antropologia confirma o que a memória já sabia: cabelos não são apenas cabelos. “O cabelo comprido para o mundo indígena no período pré-hispânico possuía um substrato de prestígio, de prestígio social, e delimitava fronteiras entre as sociedades”, explica Katherine Quinteros, professora e pesquisadora da Universidad Finisterra, no Chile. “Para o mundo europeu do século XVI, a masculinidade e a virilidade estavam associadas à barba e ao cabelo curto ou raspado. Já nas sociedades indígenas, os povos não tinham pelos faciais, mas tinham o cabelo comprido. Essa associação entre cabelo longo, sexualidade e feminilidade que hoje tomamos como natural é, na verdade, uma importação europeia.”

Segundo Katherine, cada etnia na América Latina possuía códigos próprios inscritos nos cabelos — quase como uma linguagem visual. O corte, o comprimento e os penteados podiam indicar se uma pessoa era solteira, anciã, se uma menina tinha menstruado pela primeira vez, se um jovem estava prestes a ir para a guerra. “Mas havia um consenso amplo: o cabelo longo era sinal de pessoa saudável e sinônimo de vida”, diz.

Esse valor simbólico se traduzia em rituais. Na cultura Chinchorro, por exemplo, durante o processo de mumificação, famílias confeccionavam perucas de cabelo natural para seus mortos como parte do rito funerário. Já no Império Inca, existia um servidor treinado desde a infância apenas para cuidar do imperador: cortar as unhas, aparar os cabelos e recolher cada fio que caísse. “Esse trabalho era de extrema importância porque protegia o soberano contra práticas de feitiçaria. Era literalmente um cargo de segurança espiritual”, explica a historiadora.

Os colonizadores perceberam essa centralidade rapidamente e o corte compulsório se tornou ferramenta de dominação. Desenhos de Felipe Guamán Poma de Ayala, cronista peruano do século XVI, mostram o cabelo sendo usado como instrumento de castigo e humilhação. “O corte não era apenas apresentado como um processo civilizatório, como consta nos documentos oficiais. Era uma mensagem clara de tomada de poder”, afirma Katherine.

O mesmo aconteceu com as populações africanas escravizadas. “A raspagem compulsória não foi só por uma questão de higiene, como se alegou. Foi um processo de neutralização simbólica”, diz Anita Pequena, professora no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão. O cabelo nas comunidades africanas carregava códigos de pertencimento étnico e de classe social. Ao raspá-lo, rompem-se vínculos individuais e coletivos. Anita lembra ainda que, nas lavouras, homens eram raspados para trabalhar debaixo do sol sem proteção, enquanto mulheres podiam ter seus cabelos cortados por ciúme das sinhás — após estupros sistemáticos pelos senhores.

A história mostra que cabelo já foi sinônimo de poder, de proteção e símbolo de controle violento. E hoje, distanciados dessa história não paramos pra pensar o que a decisão de fazer uma mudança radical nos cabelos representa. Mas essa história que nos antecede está ali em algum lugar quando diante de um término tomamos a decisão de radicalizar a franja.    

O que corte pós-término tem a ver com isso? 

Por mais que não percebamos, existe uma marcação política e também marcações simbólicas relacionadas ao cabelo. Cortes, colorações, apliques e outras funções podem ser determinantes como “marcadores físicos” das distintas fases da vida. 

Para a psicanalista Renally Xavier de Melo o elo envolvendo cortes de cabelo e términos amorosos é o narcisismo. “Tem algo no término de um relacionamento que coloca o sujeito numa nova relação com o investimento narcísico. Quando acaba isso, esse tanto de energia precisa retornar para o sujeito e muitas vezes fazer inferências na própria imagem versa sobre excesso de energia que volta, que também pode dizer respeito a um processo de luto”, diz a psicanalista. 

Daí a célebre frase atribuída a Coco Chanel: “Uma mulher que muda o cabelo está prestes a mudar de vida.” De acordo com essa leitura, faz sentido. “Todo término de uma relação coloca o sujeito para se organizar libidinalmente. Tudo aquilo que você fazia junto com o outro, fantasiava, retorna para você de forma muito intensa. Isso diz dessa necessidade de um redirecionamento de uma energia psíquica”, completa. 

“É óbvio! Você acabou de levar um pé na bunda. Você precisa estar linda, seja para pegar outra pessoas, seja para jogar na cara do ex que você já está em outra”,  observa a cabeleireira Camila Rocha Azevedo. E a psicanalista Renally explica que essa atitude não é só da ordem prática: “Se o plano do narcisismo é um plano de organização do sujeito com o próprio corpo, tem algo que não é só um cabelo: é também uma restituição afetiva presente ali”.

E voltando para Sofía, vemos que essa restituição pode ser política. “Estou vivendo na Espanha, um país muito xenófobo. Percebi que inconscientemente fui deixando meu cabelo preto, denso e longo”, diz. Mas hoje, ela sabe que seus cabelos longos não são para que os espanhóis a reconheçam como andina. “Eles são para que eu me reconheça. Para que, quando eu me olhar no espelho e lembrar de onde eu vim e porque mereço estar aqui”. 

Pode ser só vontade de cortar a franja? Pode, mas há muito mais entre as madeixas e a tesoura do que reza nossa vã filosofia. 

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