“Não gostei. Próximo.” Por que permanecer parece cada vez mais difícil?
Em uma sociedade que incentiva o descarte, continuar em relações, trabalhos e manter escolhas revela um traço dos nossos tempos; mas mais que isso: exige um olhar que parte do individual para afetar o coletivo
Tolerar o outro, o diferente, o atrito, o incômodo parecem coisas de um tempo longínquo. E, de certa forma, são mesmo. Basta pensar que crianças, por exemplo, já não esperam pelo desenho que querem assistir: é só ligar a televisão e atender ao desejo, sem nem mesmo uma propaganda para quebrar ou interromper o ritmo do prazer imediato.
Será a permanência o maior desafio dos nossos tempos?
Os adultos também foram criando artimanhas para evitar a espera e os pensamentos que vêm com ela. Do cigarro ao celular, passando pela musiquinha nas ligações e por aplicativos que informam desde o horário do ônibus até a data exata da menstruação. Tudo isso, sem dúvida, molda seres humanos cada vez menos pacientes e menos flexíveis. A impressão é de que tudo o que causa desconforto virou motivo para fuga. E rápida, repetida, sempre que necessário.
Nas relações
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em 2025, mostram que o número de divórcios no Brasil cresce ano após ano, com aumento de 4,9% em relação a 2022. Um casamento não é algo estático. Exige dedicação, disponibilidade e espaço para frustrações. O mesmo vale para amizades, trabalhos e até para um curso que se decida fazer. Todas essas escolhas demandam presença ativa e certa persistência. Será a permanência o maior desafio dos nossos tempos?
A pesquisadora e fundadora do Instituto Desacelera, Michelle Prazeres acredita que estamos perdendo essa qualidade coletivamente. “Não é uma questão individual, ou de um corpo ansioso, é uma questão social. Estamos pressionados a desempenhar o tempo todo e com isso a nossa possibilidade de permanência vai sofrendo erosões por conta do processo de aceleração”, diz. Para ela, a exigência por realizações e performances contamina a nossa capacidade de se relacionar, tudo vira robotizado: não gostei desse livro, próximo. Não gostei desse namorado, próximo. Não gosto mais desse amigo, próximo. Um eterno scrolling da vida real, feito no automático.
“As pessoas estão consumindo relações, e não se relacionando de fato. Ao não se afetar por aquilo, não existe o permanecer. Porque a permanência é uma escolha, e essa escolha está sendo sequestrada da gente com uma sistematização de aceleração do tempo”, observa Michelle.
A lógica do consumo também ajuda a explicar a fragilidade dos vínculos contemporâneos. Liv Strömquist, quadrinista sueca e autora de livros que investigam criticamente amor, poder e capitalismo disse em entrevista à Marie Claire: “Vivemos num tempo em que tudo muda muito rápido. O individualismo extremo enfraquece os laços sociais, o que dá espaço para um novo tipo de ansiedade e superficialidade nas relações pessoais”.
Segundo a psicóloga e psicanalista Marina Haddad Martins, a conscientização da sociedade sobre as possibilidades de escolhas, principalmente para as mulheres, fez surgir muitos questionamentos. “Se de um lado é positivo esse leque de opções, de outro pode ser um refúgio, afinal assumir qualquer compromisso, seja um relacionamento ou um trabalho, pode gerar desconforto, dor e dificuldades.”
Para Marina, escolher é entrar em contato principalmente consigo mesmo. “É um processo intenso que desperta sentimentos e sensações variadas, e que não são fáceis.”
A vida no modo automático
Essa ideia de passar de fase, meio de vídeo game, está no nosso dia a dia. Para Michelle, não há um único culpado. “As redes sociais não são a única causa. A tecnologia, o consumo e o trabalho 24 horas por dia se autorreforçam o tempo todo”, diz. “É um projeto que vem sendo construído para o nosso presente e para o nosso futuro já há algum tempo.”
Se de um lado, a tecnologia sozinha não é a vilã, ela sem dúvida imprime sua velocidade. “A tecnologia gera imediatismo e exige menos implicação das pessoas, menos riscos. Diferente de uma escolha, em que você negocia com o próprio desejo ao deixar outras coisas ou pessoas de fora”, afirma Marina.
Mas qual seria, então, a solução? Permanecer em relacionamentos mesmo quando não estamos felizes? Ler um livro até o fim mesmo que ele seja chato? Não. Permanecer não é sinônimo de sofrer. Michelle conta que ainda enfrenta preconceito em relação ao ato de desacelerar. “Não é sobre ser devagar ou preguiçoso. É sobre sair do automatismo, da multitarefa. Desacelerar convida o corpo e a mente a entender que somos gente, não máquina.”
Ela, e nós, celebramos esse corpo que funciona como fronteira, que em algum momento falha e escancara a necessidade de regeneração. “Ficar no automático adoece. E daí vêm as epidemias que vemos hoje: solidão, depressão, ansiedade.” O ponto central é se questionar, parar e avaliar as próprias escolhas — e os impactos que elas têm na vida.