O antirracismo não é uma tendência que passou - Mina
 
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O antirracismo não é uma tendência que passou

O que acabou foi a euforia performática que separa aqueles que estavam apenas surfando o hype dos envolvidos de verdade, defende Dandara Pagu.

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Já tem uns 2 ou 3 anos que eu sinto que os direitos dos grupos historicamente minorizados viraram uma calça boca de sino esquecida no fundo do armário. Aquele item que um dia todo mundo jurou que era indispensável, usou em foto, em festa, fez textão… e depois deixou lá, pegando mofo.

O problema é que não estamos falando de uma peça de roupa, mas de vidas. De futuro. De gente que sente na pele o que muitos só postam no Instagram.

E já que chegou o 20 de Novembro, vamos aproveitar pra falar o óbvio que alguns fingem ter esquecido: o debate racial não é efeméride, não é modismo. É urgência e é pra sempre.

Equidade não é moda. Dignidade tivesse coleção primavera/verão

Depois da onda de 2020, daquela avalanche de posts pretos e brancos, hashtags sérias e compromissos corporativos emocionados, veio o quê? O silêncio. Que para alguns, foi estratégico e para outros foi confortável. Mas pra quem vive o racismo na pele, foi um extremamente barulhento. Porque a gente nunca teve o privilégio de descansar, de desistir ou de achar que a moda passou.

O antirracismo virou slogan corporativo. Treinamento obrigatório na segunda, camiseta estampada na sexta, um compromisso que cabia certinho no mural do LinkedIn. Quando o assunto deixou de ser trend… muita gente tratou como se, de fato, fosse uma tendência que passou. Como se equidade fosse moda. Como se dignidade tivesse coleção primavera/verão.

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Marcas, agências e parte da sociedade se apegaram ao próprio cansaço. Um cansaço conveniente, que usa a desculpa do “desgaste” pra empurrar a pauta racial de volta pra gaveta – como se fosse opcional. Enquanto isso, nós,  pessoas negras, seguimos vivendo um cansaço mental real, seguimos sentindo o medo do pior e uma exaustão que não é estética: é sobrevivência.

Mas reconhecer a exaustão não é desistir. É reorganizar estratégia. É entender que lutar contra o racismo não depende do volume do Instagram, mas da intensidade da consciência e da ação.

Sim, cansa.
Cansa repetir o óbvio, cansa ver retrocesso, cansa ser lida como exagerada quando você só está relatando o que vive. Mas meu cansaço não invalida a luta, só denuncia a falta de apoio.

E é exatamente aí que mora o perigo: quando o cansaço vira desculpa coletiva pra fingir que o problema esfriou. É claro que o antirracismo não acabou. Até porque somos muitos e seguimos vigilantes. Usemos as palavras certas: o que acabou foi a euforia performática. E, vendo o lado cheio do corpo, talvez isso seja até bom porque, em certa medida, longe dos holofotes, dá pra seguir com quem realmente está comprometido. A história sempre dá conta de separar os envolvidos daqueles que surfam o hype.

A pergunta não é “o movimento cansou?”.
A pergunta é: quem estava lutando de verdade e quem só estava seguindo a tendência?

Porque vidas negras não eram e nunca serão moda.
Moda passa. Gente não.

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