Defesa pessoal não resolve violência estrutural - Mina
 
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Defesa pessoal não resolve violência estrutural

Enquanto mulheres buscam cursos de luta para se sentir mais seguras, Tatiana Vasconcellos questiona: por que seguimos apostando em respostas individuais para um problema coletivo?

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As estatísticas pavorosas e as notícias de agressões e morte de mulheres também têm te deixado mais atenta? Não por acaso. É realmente estarrecedor que quatro mulheres sejam mortas por homens diariamente no Brasil. Diante dos vagarosos processos institucionais e culturais, cada uma vai se protegendo como consegue. Seja em grupos de amigas, redes de vizinhas ou, veja só, aprendendo defesa pessoal. 

Fiquei impressionada, e um tanto triste, ao ver quantas mulheres estão procurando aprender luta para se sentirem mais seguras nas ruas e no transporte público, como mostrou uma reportagem da Marie Claire. Vou te dizer que nunca me caiu bem esse lance de aprender técnicas e golpes para se defender de violência física. Nada contra, tenho até amigas que são (treinadas e chefes da nossa gangue), mas é que sempre me pareceu uma naturalização inadmissível de um problema histórico e sistêmico que precisa ser seriamente combatido. Mas não literalmente. 🙂   

Tenho muitas incertezas sobre a real eficácia de saber alguns golpes, entrar em luta corporal com um homem e evitar um roubo, por exemplo. Ou um estupro. Não gosto nem de imaginar, não transo violência, e acho sintomático que estejamos normalizando essa cena sem fazer perguntas sobre o que me parece o principal; a lógica individualista para lidar com um problema que é coletivo. 

Em vez de aprender como reagir, não deveríamos estar engajados e trabalhando socialmente de maneira árdua e incessante em medidas que combatam a abordagem violenta de homens? Deveríamos estar (e em alguma medida até estamos) debatendo coletivamente por que esse comportamento é praticado, tolerado e o que precisa mudar. O diagnóstico já está dado e é claro. Falta fazer a mudança acontecer.

Para que mulheres estejam seguras no espaço público, as respostas centrais precisam vir do poder público: principalmente prefeituras e governos estaduais, responsáveis pela zeladoria urbana, pela organização das cidades e pela segurança pública. Você não é um alecrim dourado numa vida em sociedade.

E a pressão funciona. Recentemente, depois de muita mobilização de mulheres organizadas, decisões institucionais importantes avançaram. O uso de tornozeleira eletrônica para agressores foi aprovado pelo Senado e sancionado pela Presidência. O Senado também aprovou a tipificação do vicaricídio, quando alguém mata um filho, parente ou pessoa próxima para atingir emocionalmente uma mulher. Ainda na Casa, os 81 parlamentares aprovaram por unanimidade a criminalização do discurso misógino, equiparando-o ao crime de discriminação racial — o texto agora aguarda votação na Câmara. Houve também o lançamento do Pacto Nacional contra o Feminicídio, reunindo os Três Poderes. Nada disso resolve sozinho, mas mostra que pressão social impulsiona transformações. 

Luta corporal

Voltemos à defesa pessoal. De que mulheres estamos falando? De que idade? Com que tipo de corpo e estrutura física? É indicado para qualquer mulher? Idosas, com algum tipo de deficiência? 

Sabia que existe curso de defesa pessoal para garotas de 10, 12 anos? Será adequado? Fui perguntar pra quem entende do riscado e ouvi que não é bem assim. Me pergunto se não é uma antecipação, a famosa adultização a que meninas são submetidas (não, não “amadurecem mais rápido”) e se não menos ajuda do que atrapalha o desenvolvimento delas, criando paranóias e tensões. 

Para a diretora presidente do Instituto Liberta de combate a violência sexual contra crianças, Luciana Temer, a prática de luta para garotas, desde que bem orientada, é sempre algo a se fortalecer em vários aspectos. Mas dizer que uma menina dessa idade vai conseguir impedir a violência sexual se aprender sobre defesa pessoal pode ser coisa de quem não entende da dinâmica dessa violência. 

“A maior parte dos estupros contra meninas dessa idade são intrafamiliares ou praticados por pessoas muito próximas, e não acontecem dessa forma. Para mulheres adultas talvez faça sentido e possa ajudar. Mas para uma menina de 10, 12 anos pode até ser danoso e criar nela uma expectativa irreal de que possa se defender de um homem adulto”, diz.

Além disso, o país tem mais de um milhão e meio de armas de fogo registradas, mais um tanto circulando sem registro, número que cresceu muito entre 2017 e 2022, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. E se o agressor tiver um revólver? Uma faca? Gente, a recomendação número UM da polícia militar é “não reaja”.

A gente nunca sabe como o nosso corpo vai se comportar durante uma abordagem, aquela descarga imensa no sistema nervoso central, modo de luta ou fuga. Vai paralisar? Vai gritar? Vai correr? Vai ter frieza para colocar em prática as técnicas e golpes que aprendeu? “Por isso, uma boa formação em defesa pessoal não pode prometer ‘controle total’. Ela deveria preparar o corpo para ampliar o repertório de resposta, reconhecendo limites reais. Isso é importante até para evitar julgamentos do tipo: por que ela não reagiu?’. Muitas vezes, o corpo simplesmente travou para sobreviver”, me conta a PhD em psicologia Arielle Sagrillo. 

Se eles matam uma policial militar, treinada e armada, por que não matariam uma mulher comum que reagisse a uma abordagem violenta? Temos visto. E é justamente porque temos visto que recorremos a medidas desesperadas. Para não morrer. Mas por outro lado como não reagir a uma ameaça de violência sexual, por exemplo? Lamentavelmente não tenho respostas.

Quanto mais leio sobre o debate em torno do uso do spray de pimenta e do dispositivo de choque, mais tendo a crer que na prática o que temos (e teremos) são jovens delinquentes agredindo pessoas em situação de rua por diversão e não mais segurança para as mulheres. 

A situação é urgente, mas as soluções não podem ser emergenciais, sob risco de efeitos colaterais danosos. Olha a que ponto chegamos: a insegurança de mulheres é tão geral e irrestrita, que precisamos aprender golpes de luta para nos defender de violência, em vez de atuarmos já, conjuntamente nos alicerces do comportamento violento. Saber dar golpes ou usar uma arma, qualquer uma, não evita episódios violentos e nem o feminicídio, infelizmente. A saída não é individual, é coletiva.

Medidas coletivas eficazes dependem (também) do trabalho dos 513 deputados e deputadas da Câmara, cujo presidente Hugo Mota não parece estar disposto a colocar em tramitação o projeto que criminaliza o discurso misógino. Por isso, mulheres e homens vão às ruas mais uma vez sábado agora, 25, em todo o país, articuladas pelo Instituto Levante Mulheres Vivas, para pressionar o legislativo a votar o projeto antes das eleições. Porque a campanha nem começou oficialmente, mas o aperitivo já é terrível: o combate à violência contra a mulher vai ser tristemente usado por quem não tem interesse algum em proteger as nossas vidas e lucra muito com a narrativa que a lei tenta combater. 

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