O cartão de crédito anestesia “a dor do pagamento” e te faz gastar mais
Pesquisas mostram que, quando o pagamento se distancia do ato de comprar, perdemos a noção do impacto real no orçamento. A consultora Jana Gomes mostra como retomar o comando do orçamento com decisões mais conscientes e limites realmente possíveis.
Você já ouviu falar da dor do pagamento? É um termo popularizado pelos pesquisadores Prelec e Loewenstein no artigo “The Red and the Black: Mental Accounting of Savings and Debt” para explicar como sentimos desconforto ao tirar dinheiro da carteira. Lembra da sensação de trocar uma nota de cem reais? Um terror, não é? Mas é justamente essa dor que funciona como um freio natural ao consumo.
O cartão de crédito é o principal tipo de dívida entre os inadimplentes
Só que meios de pagamento como o cartão de crédito diminuem essa sensação porque afastam o momento da compra do momento do pagamento. Como explica a professora Vera Rita de Mello Ferreira, em seu livro “A cabeça do investidor”, quanto mais a forma de pagamento se distancia da ideia concreta de dinheiro, menos tendemos a economizar.
O resultado nós já sabemos, não é? Aquela situação terrível no mês em que o dinheiro cai na conta, a fatura do cartão devora quase tudo e o ciclo recomeça: sem dinheiro no bolso, recorremos ao pedaço de plástico “mágico” para atravessar o mês. Se acontece com você, saiba que não está só. Segundo uma das edições do estudo Serasa Comportamento, o cartão de crédito permanece como o principal tipo de dívida entre os inadimplentes.
Ainda assim, há quem insista nos benefícios do cartão de crédito para justificar seu uso, inclusive um discurso sedutor de que, se você não utiliza o bendito, está perdendo dinheiro. Nesse momento, preciso pedir perdão aos defensores de milhas e cashback, mas alertá-los sobre uma verdade dura: de acordo com o Federal Reserve (o banco central dos EUA), em “Who Pays For Your Rewards? Redistribution in the Credit Card Market”, as recompensas de cartão não são “presentes”. Elas existem porque fazem a gente usar mais o cartão — e isso gera mais ganhos para as instituições.
Isso muda tudo, não é? Claro que vale um disclaimer: há realidades em que o acesso ao crédito é o caminho para a compra de bens duráveis que dificilmente seriam pagos à vista. Imagina sua geladeira quebrar e você sequer ter iniciado a reserva de emergência? Ainda assim, vale tratar o cartão como um meio de pagamento e sempre verificar antes: a parcela daquela comprinha cabe no orçamento? Principalmente se ela for fazer companhia a tantas e tantas outras parcelas já existentes.
Se perder no controle do cartão de crédito, de maneira geral, é fácil. Mas, quando estamos ligados no modo “parcelando vou até a lua”, é bem pior. Nesse sentido, vale uma passadinha na matéria da Mina sobre como a dificuldade de garantirmos bens duráveis, como um imóvel, tem nos feito gastar mais com firulinhas.
Talvez você tenha chegado nessa parte do texto sentindo as mãos atadas. Afinal, se não sobra nada do salário depois de pagar a fatura, como encerrar essa dependência? Sugiro que defina com clareza quanto, de fato, consegue pagar de fatura todos os meses. Porque outro grande risco é este: gastar e gastar no cartão até que o limite dele, que raramente condiz com nosso orçamento real, seja atingido.
Se entender que esse valor é de R$2.000, experimente um exercício de controle financeiro semanal. Ao final da primeira semana, a fatura parcial deve estar em R$500; na segunda, em R$1.000; na terceira, em R$1.500 e assim por diante, até que o total fique dentro do que realmente consegue arcar. Essa pode ser uma técnica para ir diminuindo o valor da fatura aos poucos.
Mas o Pix, o que tem a ver com essa história toda? Ele é quase um meio-termo: não dá a falsa sensação de limite infinito do crédito, porque o dinheiro sai da conta na hora. Mas também não dói tanto quanto abrir a carteira e ver a nota sumir. Uma solução made in Brazil que faz muito mais sentido. Se você conseguir de imediato, vá de Pix sem medo e dê adeus ao cartão. Não use ele como seu quebra-galho: pegue o galho e bata na cara dele.
“O Pix funciona como um meio-termo: o dinheiro sai na hora, então não cria a ilusão de ‘limite infinito’ do crédito — mas também não dói como ver a nota sumir da carteira. É uma solução prática e eficiente. Se der para adotar, prefira o Pix e largue o cartão. Nada de usar o crédito como quebra-galho: pegue o galho e dê um basta nele”