Aumente o som para escutar as mais velhas
Sueli Carneiro e Neca Setubal recebem alguns dos nomes fundadores do feminismo brasileiro em podcast inspirador produzido pela Rádio Novelo
Atire a primeira pedra quem nunca virou para uma amiga depois de um papo incrível e disse: “a gente devia fazer um podcast!”. Agora imagina se a sua “best” (aquela inseparável, que vai dividir a ancoragem do podcast com você) é ninguém mais, ninguém menos que a filósofa Sueli Carneiro. As convidadas, que são suas outras amigas, são Conceição Evaristo, Heloísa Teixeira, Jacqueline Pitanguy, Leci Brandão, entre outras mulheres que construíram o feminismo brasileiro. Pois bem, foi exatamente o que a socióloga Maria Alice Setubal, a “Neca”, pensou antes de colocar no ar o podcast “Escute as mais velhas”.
E se o título em português te remete um outro programa com título gringo, sim, você está certa: qualquer semelhança não é mera coincidência. O “Wiser than me”, programa apresentado pela atriz Julia Louis-Dreyfus em que ela conversa com mulheres “mais sábias que ela”, foi uma fonte de inspiração. Mas apenas uma fonte, não a pavimentação do programa.
Como bem justificou Branca Vianna no podcast “Fio da Meada”, quando entrevistou a Neca e a Sueli sobre o projeto, “A Julie Louis Dreyfus tem mais ou menos a minha idade [Branca tem 62 e a Julia 64 anos] e ela fala com mulheres mais velhas do que ela, de 70, 80, 90 anos que ela considera que são mulheres mais sábias que ela. A gente nunca poderia chamar esse podcast de ‘mais sábias que eu’ porque vocês estão par a par com as pessoas que vocês estão entrevistando”. Branca conjuga na terceira pessoa do plural porque, além de apresentadora, é presidente e fundadora da Rádio Novelo, produtora de podcast que assina a produção do “Escute as mais velhas”.
Apesar da brincadeira ali no início, a escolha das entrevistadas não foi dada apenas em nome da amizade com as apresentadoras. “Nós pensamos, inicialmente, nas mulheres que construíram a luta de emancipação que as mulheres travaram na segunda onda feminista, a partir da constituinte”, explica Sueli Carneiro. A Assembleia Nacional Constituinte (ANC) foi um órgão legislativo extraordinário responsável por elaborar e aprovar a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, após o fim da ditadura militar. “Você acha que vai ter só aquele discurso do ativismo feminista e, de repente, elas trazem esse lado mais espiritual, mais do samba, mais da música, integrado com o discurso feminista, com o discurso acadêmico. Eu achei tão bonito isso”, completa Neca.
Ou seja, se hoje corremos respaldadas por muitos direitos feministas, é porque as mais velhas abriram a estrada. Os episódios são semanais, vale ouvir cada um deles. Para te instigar, selecionamos algumas das melhores frases das convidadas até o momento. Vem se inspirar:
“Minha mensagem para as novas gerações é: brigue. Porque ainda tem muito o que brigar. Quando você pensa que avançou, vem um tsunami e pá! Não se conforme, nunca.” Branca Moreira Alves, militante feminista
“A vida está me permitindo envelhecer com muitas realizações. Claro, muita coisa poderia ter acontecido antes, mas tanta coisa boa tá acontecendo agora, que eu seria ingrata com a vida se dissesse que envelhecer é uma porcaria” Conceição Evaristo, escritora
“Quem acha que eu tô envelhecendo são as pessoas que olham para mim. Porque eu não acho” Schuma Schumaher, pedagoga
“Quero curtir a vida enquanto ela existir. Depois, vou continuar vivendo na memória das pessoas. Ninguém morre quando é lembrado” Helena Theodoro, filósofa
“Entender o funcionamento do mundo masculino me ajudou. Para eles, o poder é uma coisa muito séria, mais até do que o dinheiro. Por isso, quando a mulher escolhe não assumir uma postura masculina, pode contribuir muito mais” Luiza Trajano, empresária
“É um privilégio envelhecer porque podemos importar experiência para este tempo presente” Jacqueline Pitanguy, cientista política