Estamos vidrados em performar e competir até dormindo
O discurso da saúde está sendo usado para legitimar práticas que exaurem mais do que cuidam, transformando condutas desgastantes em escolhas “corretas”. Como reflete Tatiana Vasconcellos, quem não adere é visto como culpado.
O capitalismo é implacável. O descanso virou produto, a saúde virou produto, a menopausa virou produto. Imagina o fim de um dia cheio: você está muito cansada, toma um banho e se prepara para dormir. Mas por que só deitar em posição fetal com o rosto largado no travesseiro bem macio e amassado? Por que se você pode antes grudar diversas fitas na cara com a pele esticada, enrolar seus cabelos numa toca de cetim, fazer compressas nos olhos, vestir uma apertadíssima cinta modeladora para, enfim, relaxar e dormir. (Relaxar dentro de uma cinta modeladora. Eu ri.)
“Nada precisa ser, tudo precisa parecer que é”
“Aproveitar esse tempo de descanso” pra deixar os produtos agirem e você acordar linda e magra. Adjetivos que, depois de tanta problematização necessária, lamentavelmente voltaram a ser naturalizados como sinônimos e, consequentemente, gatilho de transtornos alimentares e de imagem para milhares de meninas e mulheres. A Associação Brasileira de Psiquiatria estima que mais de 70 milhões de pessoas no mundo tenham algum distúrbio alimentar. No Brasil, seriam 15 milhões de pessoas, segundo o coordenador do programa de transtornos alimentares do Hospital da Universidade de São Paulo (USP), Táki Cordás. E um dos fatores do transtorno é a comparação que jovens fazem entre si mesmos e perfis fora do padrão de realidade. Mas quem se importa?
Acordar com o rosto brilhando com séruns que prometem rejuvenescer. Funcionam? “Tudo pode ser, só basta acreditar”. Nada precisa ser, tudo precisa parecer que é. Essa busca desenfreada por padrões físicos jovens e inalcançáveis é a velha e cruel pressão estética agora camuflada no argumento híper-evocado e canalha da “saúde”. A lógica neoliberal sequestra a nossa libido, faz com que ela se ajoelhe aos seus pés e ordena: Consuma! Performe! Seja saudável!
Corpos esquálidos graças a canetas emagrecedoras, procedimentos de todos os tipos sendo vendidos como peças em fast fashions, desafios de atividades físicas sendo estimulados por coaches. Em nome da saúde estão sendo naturalizadas práticas bem pouco saudáveis. É a cara dos nossos tempos, aliás, em que homens brancos e poderosos promovem a matança e dizem que é em nome da paz. Na era dos sinais trocados, vivemos um gaslighting permanente.
“Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa”, dizia o personagem do humorístico Escolinha do Professor Raimundo nos anos 1980. Quarenta e cinco anos depois, ouço no rádio uma propaganda que se refere a ovos como “proteína”, salientando que é 100% natural. Vender ovo chamando de proteína natural é demais pra mim. O léxico pode ser adaptado a tudo, não é maravilhoso?
A performance tem uma aliada importante que é a gamificação: o princípio de funcionamento dos aplicativos para os entregadores, por exemplo. E é cheio de riscos, obviamente. Cara na tela, atenção ao jogo, à competição, quem é o mais rápido, o mais eficiente, o que desempenha melhor, some pontos, ganhe 5 estrelas, notas altas, gordas gorjetas, cashbacks, toma aqui esse shot de dopamina. E volta logo que tem mais e mais e mais. (Vou resistir até o fim a citar Byung-Chul Han e a “Sociedade do Cansaço”, mas está tudo lá, sim.)
Lembra quando os episódios de Black Mirror pareciam uma loucura distópica em 2013? Pois estamos no fim de 2025, pedalando nossas bicicletinhas, correndo nas rodinhas como ratos, mergulhados nela. Saúde!
Por falar em ratos, um grupo da redação decidiu se reunir no aplicativo de malhação que abandonei por falta de uso. Quase nunca lembrava de assinalar meus feitos físicos, mas, quando entrava, achava divertido ver as fotinhos com as poses dos queridos na academia, caminhando na rua, na praia, no parque, jogando vôlei, um bullying leve nos comentários, divertido. Me sentia estimulada a seguir minha rotina de exercícios e contar pra eles como foi. Nem lembrava que se tratavam de pontos, competição, quanto mais registros de atividade, maior a pontuação, pfff… Menos provável ainda é que eu me dispusesse a malhar além do meu planejamento para desempenhar melhor no app.
Pois, semana passada, me deparei com uma reportagem com situações reais, resultados da deturpação e da mercantilização do conceito de saúde. Contava uma desavença entre participantes de um grupo desse app. O pessoal reclamava que, para pontuar, uma fulana registrou como atividade física um passeio no zoológico com o sobrinho. Para somar mais pontos. Para vencer. Para ser melhor que os amigos.
Que espertinha! Será que não ganhou aquele troféu na escola e segue pela vida até hoje em busca dele? Olhaí, que bom é ter sido uma criança socializada no esporte, disputando no esporte, aprendendo a ganhar e a perder, sem ultrapassar limites pessoais nem as regras coletivas. Ponham as crianças para praticar esportes, é pedagógico e civilizatório, forma caráter, tudo de bom.
Estamos virando zumbis vidrados em performar para competir em todo e qualquer momento da vida, até dormindo, a ponto de dar um jeitinho, violentar os próprios limites, a fim de ganhar um jogo que nem tem sentido. Em nome de quê mesmo? O outro é uma outra pessoa, que tem a história dela, o corpo dela, as necessidades dela, as condições de vida pessoais e intransferíveis dela… Como diz uma amiga, não se compare. Não tem possibilidade de essa analogia ser razoável e há grandes chances de produzir efeitos nada saudáveis.
Os estudos científicos vão sendo atualizados, novas descobertas sobre o funcionamento do nosso corpo são feitas e a gente evidentemente celebra os avanços para viver melhor. Isso é uma coisa. Outra coisa é a crença de que a gente precisa consumir substâncias e produtos ou adotar comportamentos de que nós e nosso corpo não precisamos para funcionar bem. As necessidades criadas em nome da saúde. Suplementos alimentares, vitamínicos, compostos de todos os tipos, em cápsulas, em pó, em barra, em gotas. Nem toda mulher pode, deve ou precisa. Mas uma rodadinha rápida no Instagram e você vê ativos para todas as necessidades que dizem que temos, naquelas exatas dosagens para todo mundo.
Em 2024, o mercado de suplementação alimentar movimentou cerca de US$10 bilhões, com previsão de atingir R$10,8 bilhões até 2028, de acordo com estimativas do setor.
Sim, os estudos evidenciam que precisamos de músculos para proteger tendões, ossos e articulações. E, sim, os estudos também mostram que a perda muscular nas mulheres começa por volta dos 30 anos e segue aumentando ao longo da vida. Músculos, assim como as proteínas, também estão em alta. De 2014 a 2024, o número de academias no Brasil saltou de 19.266 para 56.833, de acordo com o Panorama Setorial Fitness Brasil. Hoje, segundo o Sebrae, são 64.673 estabelecimentos de condicionamento físico, o segundo maior mercado do planeta. E ainda tem espaço pra crescer, uma vez que 47% da população brasileira é sedentária. Isso pra dizer que se não tomarmos os devidos cuidados, essa saúde e esse bem-estar performáticos ainda podem ocupar mais espaço entre nós.
Unanimidade entre os médicos: comer comidas naturais, evitar ultraprocessados, beber bastante água e pouco álcool, evitar o estresse, dormir bem e fazer atividade física regularmente são um combinado ótimo para a saúde. A engrenagem neoliberal nem tanto.
Para ler:
Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han, Ed.Vozes
Para ver:
Sociedade do Cansaço, série Globoplay https://globoplay.globo.com/sociedade-do-cansaco/t/pn7Bxxcjvn/
Black Mirror, série Netflix
Para ouvir:
Estrelar – Marcos Valle
Saúde – Rita Lee