Por que muitas famílias estão resgatando desenhos dos anos 90 - Mina
 
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Por que muitas famílias estão resgatando desenhos dos anos 90

Programas de TV de ritmo lento, falas pausadas e histórias simples oferecem um contraponto às telas aceleradas. Especialistas explicam como os clássicos podem estimular atenção, linguagem e até mais calma no dia a dia.

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Hoje já sabemos que falar em “tempo de tela” é vago, já que o que se faz diante delas pode variar tanto quanto seus efeitos. Nessa onda, muitas famílias têm apresentado aos filhos desenhos, filmes e programas antigos. Mas não é só nostalgia. A ideia é diminuir o excesso de estímulo oferecido pelas produções atuais, cheias de cortes rápidos, cores gritantes e sons que parecem competir entre si. Faz sentido.

A forma como a criança usa a tela impacta no desenvolvimento do cérebro e no comportamento

As falas pausadas e os cenários simples permitem que o cérebro infantil processe melhor as informações, sem a avalanche de estímulos que costuma gerar agitação e cansaço. Em vez de uma maratona de explosões visuais e sonoras, os clássicos oferecem uma cadência que convida à concentração, à imaginação e até a um pouco mais de tranquilidade dentro da rotina da casa.

O que diz a ciência

O jeito como a criança interage com a tela afeta diretamente o desenvolvimento do cérebro e o comportamento no dia a dia. A neuropediatra Angélica Ávila explica que há evidências neurocientíficas claras nessa diferença: os desenhos clássicos, com menos cortes de cena e estímulos simultâneos, permitem que o córtex visual e os sistemas de atenção se engajem de forma gradual. 

Isso favorece atenção sustentada, processamento sequencial e consolidação da memória. Já produções cheias de cortes e sons intensos podem sobrecarregar o córtex pré-frontal ainda em formação, gerando hiperexcitação, impulsividade e dificuldade de autorregulação. Esse efeito aparece também no comportamento: “Ao retornar a desenhos clássicos, percebo que as crianças demonstram atenção mais prolongada, maior compreensão das histórias e até mais empatia. O ritmo menos acelerado permite que elas participem cognitivamente da história, em vez de apenas reagir a estímulos imediatos”, diz a neuropediatra.

A neuropsicóloga Tatiany Teotônio Borges acrescenta que as falas claras e pausadas ajudam na aquisição de vocabulário e no desenvolvimento da linguagem. “Esse tempo de pausa dá oportunidade para a criança imitar, repetir e fixar novas palavras.” Além disso, ela lembra que a menor carga de estímulos protege a concentração, o sono e até o humor.

Outro benefício é o vínculo. Se os familiares gostam do que está na tela, maior a chance de assistirem junto, o que cria um espaço de conexão. “Assistir junto com os filhos cria conversas sobre a própria infância e fortalece a relação familiar”, completa Tatiany.

Nem tudo é nostalgia inocente

Mas calma: não é porque passou na TV nos anos 90 que está automaticamente liberado. Como lembra Angélica, muitos desenhos da época carregavam estereótipos, violência e piadas machistas ou racistas que não têm espaço hoje.

A psicóloga Talitha Kishimoto, mãe solo e supervisora de desenvolvimento social do programa Guri, reforça: “Os desenhos têm um papel importante na forma como a criança entende o mundo. Quando ela vê que a agressividade é recompensada ou tratada como engraçada, pode acreditar que agir assim também funciona fora da tela.” Ou seja: o filtro crítico dos adultos continua indispensável.

Como equilibrar o consumo

  • Assista junto: conversar sobre o que aparece na tela abre espaço para vínculo e entendimento.
  • Reduza o tempo de tela: a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda até 1 hora por dia para crianças de 2 a 5 anos e de até 2 horas para crianças de 6 a 10.
  • Misture clássicos com atuais: apesar dos estímulos em excesso, os desenhos de hoje trazem diversidade e temas sociais relevantes, que também são importantes na formação.

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