As mesmas pessoas que diziam que homossexualidade era transtorno mental, agora dizem que mulher de verdade tem útero - Mina
 
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As mesmas pessoas que diziam que homossexualidade era transtorno mental, agora dizem que mulher de verdade tem útero

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Quando a biologia é convocada como verdade final, não é o debate científico que se resolve, mas o político que se silencia. A partir daí, a psicóloga Flávia Albuquerque analisa como argumentos ‘científicos’ seguem sendo mobilizados para legitimar exclusões

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O apelo ao reducionismo biológico sempre foi a principal ferramenta para justificar opressões, segregações e preconceitos. A ciência, ou aquilo que se apresentava como ciência em cada época, já afirmou que negros eram inferiores por questões cranianas, que mulheres eram naturalmente frágeis para a vida pública por conta de seus ciclos hormonais, que homossexuais sofriam de um “desvio” psiquiátrico curável. Em todos esses casos, o que estava em jogo não era a descoberta de uma verdade biológica incontestável, mas a tradução de uma hierarquia social em fato da natureza.

“Os critérios para estabelecer o que é homem e mulher são muito mais culturais e subjetivos”

O discurso que hoje biologiza o gênero e reduz a experiência de ser mulher à presença de um útero ou a uma configuração cromossômica deriva exatamente dessa mesma retórica. Trata-se do mesmo movimento que, décadas atrás, transformava a homossexualidade em transtorno mental: a biologia convocada para selar um destino, legitimar uma exclusão e encerrar um debate que é, antes de tudo, político.

Mas a verdade é que o sexo, assim como o gênero, também é uma construção. Não no sentido negacionista de que corpos não existam ou que características biológicas sejam irrelevantes – isso seria um absurdo. Mas no sentido de que a forma como classificamos, nomeamos e damos significado a essas características é profundamente cultural e histórica. Como argumenta a bióloga Anne Fausto-Sterling, desde o nascimento, corpos são interpretados, moldados e, em muitos casos, cirurgicamente “corrigidos” para se adequarem a um sistema binário que acreditamos ser supostamente natural, mas que é, na verdade, uma lente cultural através da qual enxergamos a biologia. 

A própria ideia de que existem apenas dois sexos é uma simplificação que a medicina impôs ao longo dos séculos, ignorando a vasta realidade das pessoas intersexo – que nascem com variações cromossômicas, hormonais ou anatômicas que não se encaixam perfeitamente nas categorias masculino ou feminino. Se o sexo fosse um fato bruto da natureza, essas variações não precisariam ser sistematicamente apagadas, “corrigidas” ou tratadas como erro.

O feminismo radical, em algumas de suas vertentes, opera exatamente com essa lógica: parte do pressuposto de que o gênero é uma consequência direta e inescapável do sexo biológico, e que a experiência de ser mulher estaria, em última instância, ancorada numa materialidade corporal específica – um útero, ovários, cromossomos XX. Essa é uma leitura que, ao essencializar o gênero, acaba por biologizar aquilo que é, antes de tudo, uma construção social, histórica e política. 

“Quando a biologia vira destino, sempre há alguém sendo excluído, patologizado ou eliminado”

Mas essa definição, longe de ser precisa, exclui da categoria “mulher” até mesmo mulheres cisgêneras que não podem ou não querem ter filhos, que nasceram sem útero, que tiveram histerectomias ou que, por qualquer razão, não se encaixam nesse molhe biológico restrito. E esse movimento não é inocente, uma vez que ele recusa a complexidade, fecha as portas para a multiplicidade e, no limite, opera como uma tecnologia de controle sobre quais corpos são reconhecidos como legítimos. O que resta, então, senão a constatação de que os critérios para estabelecer o que é homem e o que é mulher são muito mais culturais e subjetivos do que propriamente biológicos?Ora, se a despatologização nos ensinou alguma coisa, foi justamente a desconfiar desse movimento. Aprendemos a questionar quando dizem que a depressão é “só” falta de serotonina, que a ansiedade é “só” um cérebro hiperativo, que a homossexualidade já foi “transtorno” porque fugia da norma biológica reprodutiva. Por que, então, aceitaríamos sem crítica que o gênero pode ser lido pela mesma chave biologicista?

A biologia, quando usada como chave explicativa única para fenômenos humanos, não faz exceções. Ela pode ser usada tanto para justificar que uma mulher ansiosa tem “desequilíbrio químico” quanto para sustentar que existem apenas dois gêneros porque a natureza assim determinou. Em ambos os casos, o que está em jogo é o mesmo, a despolitização do debate. Se a depressão é só química, não precisamos discutir precarização do trabalho ou violência de gênero. Se o gênero é só biologia, não precisamos discutir a diversidade de experiências, as múltiplas formas de existir, a violência que recai sobre corpos que fogem à norma.

Defender que mulheres existem apenas a partir de um corpo com útero, ou que a experiência de gênero pode ser deduzida de cromossomos, é fazer exatamente o mesmo movimento que a psiquiatria fez, no passado, quando transformou a homossexualidade em psicopatologia. É transformar política em natureza. É também um gesto eugenista, pois parte da crença de que é possível, desejável e necessário separar os corpos que “merecem” existir daqueles que são considerados desvios.

Defender a despatologização da vida não é apenas fazer uma crítica pontual aos excessos diagnósticos ou à indústria farmacêutica, embora isso também faça parte. A pauta da despatologização carrega um compromisso mais profundo: o de recusar o reducionismo biologicista que tenta explicar fenômenos sociais, culturais e políticos como se fossem meros reflexos de nossa biologia. E esse compromisso, se levado a sério, não pode se furtar de questionar também as biologizações de gênero. A história nos ensina que quando a biologia vira destino, sempre há alguém sendo excluído, patologizado ou eliminado.

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