O desconforto também é parte das relações mais preciosas
Num tempo em que tanta gente acredita que vínculos bons só existem na leveza, Giovanna Lunetta destaca o contrário: amizades e amores se fortalecem também nos embates, nas conversas francas e nos reparos.
Num churrasquinho há umas semanas, minhas duas melhores amigas sentiram que era apropriado me fazer uma confissão: elas sofrem de uma dificuldade específica de iniciar conversas desconfortáveis e fazer apontamentos necessários e construtivos em relação a mim. Considerando que estou quase sempre sendo elogiada, o receio delas era de me machucar, de me fazer sentir que sou o oposto de querida e amada. Medo também de se sentirem amigas péssimas com alguém que preza tanto por oferecer uma boa amizade.
“As coisas se quebram e se consertam sem que isso signifique, necessariamente, perder importância”
Quando me contaram, imaginei o tanto de coisas guardadas, engoli seco, fantasiei uma tempestade e quase me descobri, eu, uma péssima amiga. Foi desconfortável ouvir que elas tinham coisas desconfortáveis a dizer sobre mim. Depois, percebi que também era difícil dizer coisas desconfortáveis sobre elas. E que, por mais que algumas vezes eu tivesse apontamentos a serem feitos, isso jamais chegou perto de ameaçar o lugar delas na minha vida como duas das pessoas mais amadas e admiráveis que eu conheço e que, todos os dias, eu escolho.
Tudo isso me fez pensar que o desconforto é parte da manutenção do que é tão valioso, daqueles que cativam o nosso amor maior. Depois de uns dias, mandei alguns áudios para uma delas pedindo que não me poupasse, que soubesse que eu reconheço que cuidar da nossa amizade é se utilizar das durezas também. E me fiz esse mesmo convite. A vida é toda cheia de situações complexas, de rispidez e imprevistos; nós somos todas feitas de hábitos velhos e profundos, de egoísmos e excessos. Acho que é impossível viver uma vida honesta sem aceitar que essas partes todas são partes da gente.
Amar essa amizade e prezar pelas outras relações íntimas que tenho é entender que, entre as delícias, os momentos de aconchego e intimidade, haverá também um estranhamento ou outro, uma palavra mal colocada, um limite não visto, a necessidade de um respiro, de um tempo, de palavras como “me perdoe, por favor” e “obrigada por ser sincera, só preciso pensar um pouco”.
Tudo bem que a gente precise pensar um pouco, aprender a pedir perdão, a digerir o desgosto, a descobrir um jeito de consertar as coisas quebradas. As coisas se quebram e se consertam sem que isso signifique, necessariamente, perder importância ou valor. Eu sei desse medo de abalar as estruturas preciosas que construímos, o medo do silêncio, da despedida e do confronto. Mas também sei que temos motivos o bastante para confiar na intimidade tecida pouco a pouco, nas revelações mais secretas ditas olhando nos olhos. Sei que grande parte das estruturas se levantam e se sustentam por elementos como esses.
Um amor profundo, uma amizade bacana precisa existir diante de tudo isso: dos egoísmos e das luzes, do tanto que somos brilhantes e contraditórias por vezes. E, honestamente, eu prefiro que seja você, minha amiga, meu amigo, que tanto me ama e me conhece, que me olhe nos olhos para me dizer que fui rude, que fui negligente comigo mesma, que não achou de bom tom o tom que eu usei para me expressar da última vez. Aliás, eu peço que seja você, minha mãe, meu pai, meu amor, que me diga que não tem me reconhecido, que não tem se admirado com as minhas atitudes. Que sejam vocês que me sinalizem que estou sonhando pequeno, que eu consigo muito mais do que isso.
“Não somos péssimas amigas se o que tivermos a dizer não for um elogio”
No final das contas, os áudios foram cheios de pedidos e de declarações. Contar com alguém também significa contar com sua honestidade, suas partes mais vulneráveis de todas, confiar que as nossas partes também são colocadas e vistas. Nunca que o amor e as amizades existirão só em suas delícias; eles serão fermentados por todas as camadas possíveis que a vida trouxer, e ela traz muitas: os desgastes naturais, as necessidades urgentes de manutenção, os ajustes aos poucos, os pequenos remendos, a renovação das cores, mais adubo, menos água.
As boas relações não são boas por si só; são boas porque inventam os caminhos, porque desbravam o que é nebuloso e desconfortável, porque aprendem meios de cuidar daquilo que importa. Sabem que não existe manual nem atalho, que não há paz quando se convive com nós na garganta, palavras não ditas, conversas não detalhadas — e não querem nada disso.
Percebemos que, para todas nós, era difícil trazer o desconforto. Mas fizemos questão de mostrar, umas para as outras, naquele churrasquinho e na vida inteira, que queremos isso para que o amor continue vivo. O desconforto é sinal de vida. E essas relações preciosas, mesmo aquelas que precisam da despedida para permanecerem num lugar bonito, merecem da gente honestidade: no carinho imenso, no conselho amigo, na dureza que há de ser pronunciada.
Não somos péssimas amigas se o que tivermos a dizer não for um elogio, se o olhar da vez for para perceber algo que não está bom. Não somos boas amigas quando apenas aplaudimos, nos momentos convenientes, amorosos e fáceis. Somos amigas no oferecimento do cuidado e da chamada de atenção quando as coisas se complicam, no reconhecimento das vezes que não somos tão boas assim.
Posso falar das minhas amigas, posso falar da minha mãe, das pessoas próximas que me fazem descobrir que o amor das relações é o tesouro mais precioso que temos. Aprendo que o amor é bom quando, depois de tudo, por tudo, segue bonito e especial seguir com elas; quando descobrimos novos jeitos de colocar nossos desejos, nossas insatisfações. É bom, também, quando não se pensa que a despedida é o caminho mais assertivo de todos. Quando se olha para as estruturas construídas, com remendos e luzes, com cores e rabiscos, com palavras e segredos compartilhados, e as reconhece preciosas exatamente por tudo isso: pela escolha de criar, de inventar, de fazer de novo, de pensar num melhor jeito.
No final das contas, no meio da semana, poder comer churrasco com minhas melhores amigas, criar com elas um solo fértil e saudável para que nos amemos e trabalhemos nossas questões juntas é de uma sorte que só pode mesmo ser construída. Com um adubo que não se reveste só nas simplicidades e nas delícias, mas também no que desvia do eixo, que provoca incômodo, mas que pode ser visto e cuidado junto. As relações bonitas fazem esse convite: que nos deliciemos e enfrentemos. Que reconheçamos que é precioso que possamos fazer isso de perto, escolhendo caminhos que se cruzem, construindo melhores e mais saudáveis motivos para seguirmos juntas.