Que neste novo ciclo você pare de se adiar - Mina
 
Seu Corpo / Textão

Que neste novo ciclo você pare de se adiar

Com o litoral de Maceió como pano de fundo, a poeta Giovanna Lunetta escreve sobre corpo e cotidiano, explorando como pequenas escolhas moldam nossa relação com prazer, tempo e pertencimento – especialmente no verão.

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Talvez todo corpo mereça a praia. Mas mais do que isso: acho que todo corpo merece querer ir à praia. Eu moro a oito minutos andando de uma das praias mais deliciosas e cobiçadas do Brasil. Oito. Ainda assim, passei dois meses sem entrar no mar. Não me faltou tempo, convite nem sol. Faltou, sim, cuidar melhor da minha relação com o meu corpo, tratá-la com mais ternura, com mais gosto mesmo, eu diria. 

“O verão não espera”

Percebi, mais uma vez, que é inevitável: quando não se está bem com o próprio corpo, a gente começa a adiar pequenas delícias como quem acredita que elas não são urgentes, ou que ainda não é merecedor delas. A praia vira “depois”. O biquíni vira “quando eu me sentir melhor”, “quando eu emagrecer”. O mergulho fica condicionado a uma versão futura de nós mesmas. Só que o verão não espera.

Ele, tão esperado e desejado, costuma ser vendido como uma estação expansiva, solar, confiante. Mas, para muita gente, tantas e tantas mulheres, ele também escancara inseguranças. Mais pele à mostra, mais olhares, mais comparações. O corpo vira pauta. E, quando isso acontece, a gente se encolhe. 

Demorei para entender que celebrar não precisa ser performático. Que, às vezes, a festa é interna, quase imperceptível. É vestir um biquíni depois de muito tempo. É caminhar até o mar mesmo com vontade de desistir no meio do caminho. É boiar por alguns minutos e lembrar que esse corpo ainda sente prazer, frescor, presença.

Não concordo com a ideia barulhenta de que o verão é festa, música alta, corpos confiantes ocupando espaços sem hesitação. Claro que essa espécie de fervor também há de existir e ser exaltada: um sambinha é sempre muito bem-vindo, risadas altas com quem a gente ama, encontros inesperados fazendo dias serem surpreendentemente bons, o corpo suando, se mexendo, celebrando o simples fato de estar vivo. 

As festas que fazem barulho têm seu lugar, e eu, particularmente, amo esse lugar delas. Elas não competem com as outras. Realmente, no sentido de realidade, elas se complementam. Porque há também festas mais silenciosas. Vulneráveis. Discretas. Às vezes, a celebração é desafiadora, como quem aprende a nadar sem boia, como quem enfrenta uma gastura antiga. Às vezes, a festa é só você se permitindo de novo. Pisando na areia depois de meses. Sentindo o sol tocar uma pele que você vinha evitando olhar com cuidado. 

Outro dia, no começo de dezembro, me fiz um convite simples: ir à praia. Colocar um biquíni no corpo que eu tenho hoje, não no corpo que eu prometi cuidar melhor depois. Entrar no mar não como um ato de coragem épica, mas como um gesto cotidiano de reconciliação. E foi curioso o que aconteceu: no dia seguinte, eu fui de novo. E no outro também. Fui empolgada, emocionada comigo, voltei para casa tão contente, dormi melhor. Feliz por voltar a gostar de mim, por acender a minha pele. 

“Os novos ciclos não pedem grandes resoluções, mas que a gente pare de se adiar”

Nos dois dias, sem combinar, encontrei algumas amigas. Amigas que também têm suas questões: não só com o corpo ou a autoestima, mas com a vida mesmo. Seus lutos, seus cremes de pentear favoritos, seus desejos para o ano que chega, suas conquistas pequenas e sagradas. Sentamos juntas. Falamos de coisas simples. Deixamos o corpo ao sol. Levamos para o mar, mergulhamos com ele em dias lindos de verão, dias de nordeste, dias de corpos vivos. Nossos dias.

Ali, entendi que, quando a gente não se sente bem, não se restringe só aos lugares: se restringe às experiências, às boas companhias, aos dias de sol, à poesia do cotidiano. Deixa de ocupar, de sentir, de celebrar. E, mais uma vez, me dou conta de que os novos ciclos não pedem mesmo por grandes e extraordinárias resoluções, mas sim que a gente pare de se adiar. De tentar caber apenas no depois. Como se o agora fosse exigente demais. E, se não somos merecedoras do agora, que é o único tempo garantido, não somos também merecedoras desta vida. Impossível, pois é. Porque somos, sim. 

Sou também testemunha, claro, dos novos ciclos que se dão por grandes viradas. Mas ainda me acho mais fã, mais emocionada pelos que se fazem em gestos menores. No cuidado adiado que finalmente acontece. Nos convites que inventamos com carinho e dedicação para propor a nós mesmas e àquelas que amamos e que queremos bem. 

Penso que, mais do que nunca, o verão, charmoso e ousado, para mim, passou a ser isto: uma chance, uma grande oportunidade de reocupação. Do corpo, dos espaços, das delícias simples. Não como obrigação, mas como um doce e ousado merecimento. É… talvez todo corpo mereça a praia. Mas mais do que isso: acho que todo corpo merece querer ir à praia.

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