Guia Para Socializar: um mapa contra a epidemia da solidão feminina
Levantamento criado pela consultoria 65|10 com a plataforma Mulheres e a Cidade mostra que as brasileiras estão mais solitárias que os homens e revela caminhos para transformar isolamento em vínculos — do resgate das habilidades sociais à ocupação de espaços públicos.
Deixa eu adivinhar: você cresceu ouvindo que tinha que dar conta de tudo sozinha, que no mundo é cada um por si e sendo incentivada a competir com outras mulheres. Seus relacionamentos românticos tiveram mais foco que as amizades. Você está sobrecarregada pelo trabalho remunerado e pelas rotinas de cuidado com a casa e os filhos, se tiver. Aí veio a pandemia, o isolamento aumentou e agora a solidão parece sua maior companheira. Se você se identificou, saiba: não está só em se sentir só.
“Criar conexões não é apenas uma ideia bonita. É uma necessidade”
A OMS declarou a solidão uma epidemia global e, no Brasil, diferentemente de outros países, as mulheres estão mais solitárias que os homens. Segundo dados recentes, 47% das brasileiras se sentem pouco ou nada conectadas a outras pessoas, 43% se sentem um pouco solitárias e 15% se sentem muito sozinhas (OMS, 2025). Imagina se essa multidão de mulheres pudesse se encontrar?
Essa é a proposta do GPS – Guia Para Socializar, uma iniciativa da consultoria 65|10 com a plataforma Mulheres e a Cidade. O relatório reuniu especialistas em criação de comunidades e uma pesquisadora em saúde mental das mulheres em contextos urbanos, que ajudam a explicar por que o isolamento feminino é tão marcante e como criar alternativas.
Um dos pontos destacados é a insegurança que mina a confiança nas relações. Pesquisas mostram que, no Brasil, quem acredita que a maioria das pessoas não é confiável tende a sentir mais solidão (Gallup, 2022). O relatório sugere como antídoto exercitar a colaboração, aprender a pedir ajuda e se engajar em redes sociais presenciais.
A cidade também surge como obstáculo. Estruturada sem levar em conta as experiências femininas, ela reforça o isolamento. Contra isso, o relatório aponta dois caminhos: a pressão popular sobre governo e empresas e a ocupação de espaços mesmo que eles ainda não estejam prontos para nos receber. Um bom exemplo é o de Manu Caiane, uma das guias do GPS. Ela ocupou uma praça abandonada na periferia de Fortaleza com seu Slam das Minas e conta que a partir daí outros grupos começaram a frequentar o local.
Claro que todos esses movimentos geram muito medo: de ser rejeitada, da violência urbana, do assédio no caminho. Mas mais perigoso que tudo isso é não ter uma rede de apoio. A psicóloga Juliane Borsa, entrevistada para o guia, explica que o medo é um aspecto estruturante da experiência das mulheres na cidade. Ainda assim, contra ele, o filósofo Byung-Chul Han fala em esperança: “o sujeito da esperança é um nós”.
Criar conexões não é apenas uma ideia bonita. É uma necessidade. Segundo a OMS, é fundamental pois fortalece comunidades, estimula a cooperação e cria oportunidades. A conexão não precisa vir apenas da família ou dos amigos, ela pode surgir em grupos que se formam a partir de interesses em comum. Metade dos brasileiros participa de grupos intencionais, segundo a pesquisa Queridos Estranhos.
“Quando conseguimos vencer a insegurança, estamos prontas para encontrar nossas comunidades”
As entrevistadas são unânimes: o espaço público é o lugar por excelência para criar vínculos. “É um espaço democrático, em que você encontra pessoas de diversos lugares diferentes”, afirma Raquel Poti, que coordena um grupo de pernaltas no Rio de Janeiro.
Para sermos capazes de criar essas conexões, é preciso fortalecer nossas habilidades sociais, que estão atrofiadas. Exercitar a escuta ativa, estar realmente presente em nossas interações (sem mexer no celular!), cultivar a curiosidade pelo outro e buscar interesses em comum são parte desse treino de desatrofia. Nessa hora, a amizade entre mulheres aparece como um superpoder. Nas palavras de Larissa Magrisso, que estuda essas relações na plataforma Lúcidas, “as amigas são um mecanismo natural de regulação emocional”.
Quando conseguimos vencer a insegurança, o medo e os obstáculos da cidade, nos abrimos para a conexão e fortalecemos nossas habilidades sociais, estamos prontas para encontrar nossas comunidades. É hora de olhar para dentro, descobrir quais são nossos interesses e buscar grupos que tenham essas mesmas paixões.
Um bloco de carnaval, um time de futebol, um clube de leitura…esses são espaços em que o tempo não está submetido à lógica da produtividade ou da urgência. O lazer é um fim em si e também um poderoso meio de construir auto-estima e costurar laços de afeto.
Eventos comunitários são um ótimo lugar para procurar sua turma. Por serem abertos e muitas vezes gratuitos, são oportunidades de sair de casa aos poucos e estabelecer conexões. Mesmo quem chega só para “dar uma volta” pode sair com a sensação de acolhimento. Quando o cotidiano oferece brechas para a presença, o encontro e a escuta, as cidades deixam de ser meros cenários e passam a ser plataformas de vínculo.
Agora que você já tem um mapa, que tal exercitar essas habilidades? Nos vemos na rua!