Existe idade certa para trabalhar? - Mina
 
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Existe idade certa para trabalhar?

Entre a desconfiança com os jovens e o descarte dos mais velhos, o mercado de trabalho insiste em tratar a idade como problema. A especialista em futuro do trabalho Maira Blasi mostra por que esse fator precisa ser lido como ativo de valor, e não como filtro excludente.

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Outro dia, numa conversa, alguém comentou que “essa geração nova não quer nada com nada”. Minutos depois, a mesma pessoa reclamou que “depois dos 40, o mercado já não te enxerga igual”. Fiquei pensando: então a gente só tem dez anos úteis de vida profissional? Dos 30 aos 40 é o nosso auge, antes é inexperiência, depois é obsolescência?

“A convivência entre gerações é uma vantagem competitiva”

As empresas falam tanto sobre diversidade, mas quando o assunto é idade o discurso ainda tropeça. O etarismo segue firme, disfarçado de “perfil adequado” ou “energia pra acompanhar o ritmo”. Enquanto isso, o país está envelhecendo. Em 2022, 10,9% da população brasileira tinha 65 anos ou mais, contra 7,4% em 2010. A proporção de pessoas com 60 anos ou mais saltou de 10,8% para 15,8% no mesmo período, segundo o IBGE. As projeções indicam que, em 2070, 37,8% da população será idosa. Ou seja: num futuro próximo, teremos mais pessoas “mais velhas” do que jovens, inclusive no mercado de trabalho.

O problema é que nossa ideia de envelhecimento ainda está presa a uma época em que a expectativa de vida era muito menor. As pessoas vivem mais, estudam mais, mudam de carreira, aprendem novas habilidades e seguem produtivas por décadas. O “velho” de hoje é alguém que, há 40 anos, nem existia nessa faixa etária. A noção de que experiência equivale a envelhecimento e que envelhecimento equivale a declínio, já não faz sentido.

Do mesmo jeito, o entendimento de que uma pessoa jovem é necessariamente júnior também perdeu validade. Num mundo em que a informação é abundante, a internet encurta caminhos e a inteligência artificial acelera aprendizados, idade e senioridade já não caminham juntas. Há pessoas de 20 anos liderando times, e pessoas de 50 aprendendo novas linguagens de programação ou abrindo empresas pela primeira vez.

As empresas deveriam estar pensando em como acompanhar essa virada. O envelhecimento populacional e a reorganização da lógica de trabalho exigem novas estratégias de contratação, de retenção e também de desenvolvimento de produtos e serviços. Entender o que esse cenário representa é decidir se a marca vai acompanhar o tempo ou ser engolida por ele. Ainda assim, a maioria das empresas continua olhando para a idade como se fosse uma categoria de exclusão quando, na prática, ela deveria ser um dado estratégico.

A convivência entre gerações é uma vantagem competitiva. O olhar curioso de quem está começando e a experiência de quem já viu o mundo girar algumas vezes não competem entre si e, sim, se completam. Idade certa pra trabalhar é aquela em que a pessoa se sente bem, motivada, com saúde e os conhecimentos necessários para realizar as tarefas e entregar resultados, o resto é julgamento sem sentido.

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