Reduzir o consumo de álcool é a tendência de autocuidado do momento
Os jovens estão bebendo menos – e isso é uma ótima notícia para a saúde e para a qualidade de vida. Já pensou que reduzir algumas doses pode ser bom para você?
Ela está na comemoração dos amigos, nas festas de família, nas letras de música, nos acompanha nos momentos de coração partido, aos finais de semana e também nos blocos de carnaval, no Natal, réveillon e afins. A bebida alcoólica faz morada na vida dos brasileiros e também fez na minha por um tempo. Mas, assim como muitos outros jovens, decidi reduzir bruscamente meu consumo de álcool.
O consumo abusivo de álcool entre os jovens de 18 a 24 anos reduziu de 25%, para 19,3%
Venho de uma família festiva em que o álcool sempre esteve presente. Na volta do trabalho presencial, percebi que o clack da latinha encantava os meus ouvidos quando minhas colegas começavam o happy hour. Ali acendi meu próprio alerta: percebi que meu consumo de bebida alcoólica já não se restringia mais aos finais de semana. Aos poucos, fui diminuindo o consumo e, só depois, percebi que fazia parte de um movimento.
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No ano passado, o Ministério da Saúde revelou que o consumo abusivo de álcool entre os jovens de 18 a 24 anos reduziu de 25%, em 2016, para 19,3%, em 2021 – o menor patamar em 7 anos. Por ingestão abusiva, a pesquisa considerou 60 gramas (que equivalem a 4 doses) ou mais de álcool em uma única ocasião, pelo menos, uma vez por mês. Isso vai de encontro a uma onda mundial, em que o consumo de álcool não apenas tem sido reduzido, como cresce o número de abstêmios, gente que não bebe nada – tanto na geração Z, quanto entre os millennials.
Efeito pandemia
Para a psicóloga Katlylin Eleutério, parceira do Canto Baobá e atende na clínica Pretopsi e atua voltada para dependência química e cuidados com o usuário, esse movimento tem relação com a pandemia. “Ela atingiu os âmbitos de saúde mental e da nossa relação com o mundo. Durante as idas e vindas desses lockdowns, a gente ficou impedido de se relacionar como antes. Ficar quase dois anos sem fazer o uso de bebida com os amigos nos faz repensar o padrão de consumo”, diz.
Foi o caso da Beatriz Calazans*, idade 22. Ela parou de beber no início da pandemia motivada pelo isolamento social, mas também por um fator da saúde. A fotógrafa possui Transtorno de Ansiedade Generalizada, sofria de um quadro de depressão e o álcool era um empecilho. “Comecei a tomar remédio e sabia que não combinava, fui parando e uma hora não fazia mais sentido beber”, conta. Seu contato com o álcool começou no início da vida universitária. O copo de cerveja na mão era uma forma de se entrosar com os amigos. “Comecei a beber na faculdade, depois das aulas com os meus colegas de classe e vi que logo a frequência passou a ser de três vezes na semana.”
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De olho na saúde
Segundo uma pesquisa realizada em 2019 pelo Google, 41% dos jovens da geração Z associam o álcool à “vulnerabilidade”, “ansiedade” e até “abuso”. A nutricionista esportiva Yakini Ribeiro explica que o álcool afeta a saúde como um todo quando ingerido sem moderação. “O consumo excessivo causa dano hepático, cerebral, dano cardiovascular, afeta o foco e o desempenho.”
Foi justamente pensando na saúde que Leonardo França Costa, de 33, parou de beber. “Era intenso, ficava bêbado todo final de semana, não era só social. E depois eu ficava sempre muito indisposto.” Já são quase três sem beber e ele sente uma melhora expressiva na qualidade de vida. “Tenho muito mais energia para fazer as coisas, meu sono se regulou e o inchaço no meu corpo diminuiu muito.”
“O recomendado é tomar uma ou duas doses por semana no máximo”
Não há uma dosagem segura para não dar o famoso pt (que em alguns casos pode levar ao coma alcoólico), mas a nutricionista dá dicas para um consumo mais consciente. “O recomendado é tomar uma ou duas doses por semana no máximo, porque o álcool é tóxico. Conforme a pessoa vai ingerindo, ela vai ficar mais resistente e aí entra em um ciclo de sempre precisar de mais doses para ficar mais tempo sob seus efeitos”, diz.
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Mas por que você não bebe?
Desde quando passei a ver sentido em tomar somente uma taça de bebida em situações específicas e especiais para mim – e não mais em todos os happy hours, aniversários e eventos –, ouço com muita frequência a mesma pergunta: “Mas por que você parou de beber?”. E ela vem sempre de um lugar de surpresa acompanhada da frase: “toma só um copo!”.
Acredito que esse espanto exista justamente porque vivemos em uma sociedade em que beber até cair e não se lembrar do que fez no dia seguinte é socialmente aceito. Fora aquela crença de que a bebida também pode servir para deixar as pessoas mais soltas e desinibidas, e aproveitar o rolê de forma mais feliz. Porém, eu garanto: dá para se divertir sem beber ou ficando só numa taça. E, no meu caso, tudo bem subir a dose de vez em quando, desde que faça sentido para mim.
Bia e Leonardo compartilham dessa mesma experiência. “Até hoje é um choque relatar que eu não bebo. As pessoas sempre acham que é porque sou viciada”, desabafa a fotógrafa. “Às vezes rola algum tipo de julgamento quando vou a um encontro em que a outra pessoa consome mais álcool, mas levo numa boa”, revela Léo.
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Beba com moderação
A frase “beba com moderação” está nos rótulos das bebidas alcoólicas e deve ser levada a sério. Nada melhor do que acordar no dia seguinte e não ter a famosa ressaca. Por isso, mesmo que você não queira parar de beber, mas sinta que está perdendo a mão na quantidade de goró, talvez seja o momento de repensar o consumo. E aqui vão dicas de como começar esse movimento:
1. Semana check
Priorize uma rotina saudável de segunda à sexta para aproveitar no final de semana. “Tenha uma alimentação balanceada, cuide do sono e faça uma atividade física, que isso já ajuda a lidar melhor com os efeitos do alcool”, diz Yakini.
2. Escolha o dia de beber
Você começa a beber na quinta e só para no domingo? Pode ser legal reduzir os dias em que o álcool vai fazer parte da sua rotina. Fora a grana que, com certeza, vai economizar, também ajuda a saborear melhor a bebida que você está consumindo.
3. Busque outros prazeres
Uma dica para diminuir essa vontade de estar sempre com o copo na mão é achar outras atividades prazerosas. “Essa sensação boa que a pessoa às vezes têm com a bebida, também pode vir de outras coisas bem mais saudáveis”, diz Yakini.
4. Uma dose, um copo de água
Essa é fundamental! Intercale o copo da bebida alcoólica com um copo de água que seu corpo vai te agradecer muito. Além de dar uma segurada na ressaca, a água hidrata e ajuda o fígado a processar o álcool.
* Nome trocado a pedido da entrevistada.