Como lidar com o luto no ambiente corporativo? - Mina
 
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Como lidar com o luto no ambiente corporativo?

Apesar de ser uma das experiências mais universais da vida, o luto ainda encontra pouco espaço de acolhimento dentro das empresas, onde a dor costuma ser tratada como tabu ou obstáculo à produtividade. Criar espaços de escuta e suporte pode mudar essa realidade.

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Luto é o evento mais desorganizador da vida. Impacta diferentes frentes e não se limita a quem sofre a perda: também afeta quem está ao redor. Lidar com ele não é tarefa fácil, especialmente no ambiente corporativo, ainda marcado pela impessoalidade. O funcionário enlutado se sente impotente enquanto a firma cobra resultados. Mas a verdade é que não dá para deixar a dor do lado de fora da catraca.

Em 2023, o Fórum Econômico Mundial apontou a saúde mental como uma ameaça global à produtividade. A preocupação não é apenas econômica: trata-se também da preservação da vida humana. O fato é que nem sempre podemos contar com líderes assertivos e preparados para assumir a responsabilidade sobre a saúde emocional de suas equipes e encarar conversas difíceis.

“Não existe luto menos importante”

É exatamente esse o tema que a psicóloga Mariana Clark aborda em seu novo livro, Lutos Corporativos (Intrínseca, 2025). Especialista em perdas, lutos e saúde, ela defende que as empresas precisam encarar de frente as dores humanas. Um dos pontos centrais é ampliar o conceito de luto. “A gente vive, em média, de 15 a 20 experiências de dor ao longo da vida. Além de perder pessoas que amamos, enfrentamos divórcios, mudanças de trabalho, diagnósticos de doenças, a síndrome do ninho vazio e a morte de um animal de estimação”, explica.

Para Gisela Adissi, consultora de acolhimento e cofundadora da plataforma Vamos Falar Sobre Luto?, o conceito vai além da perda por morte. “Por definição, luto é a quebra de um vínculo. Pode ser a morte de alguém querido, mas também a saída de um colega ou uma aposentadoria. O importante é entender que não existe luto menos importante.” Essa compreensão ajuda a romper a resistência dentro das organizações. Como reforça Mariana: “Não são nossas dores que nos adoecem, mas a falta de espaço para expressá-las.”

Três dias não bastam

Hoje, a CLT garante apenas dois a três dias de afastamento por luto. Para as especialistas, é um período insuficiente diante da complexidade da experiência. “Reverbera no corpo, na produtividade, no comportamento. Não dá para achar que em três dias a pessoa estará pronta para voltar à rotina como se nada tivesse acontecido”, diz. Gisela defende a flexibilização: “O tempo do luto é relativo. Um luto solitário pode evoluir para depressão ou síndromes, enquanto outras pessoas se reorganizam mais rapidamente. O papel da empresa é oferecer suporte, não impor prazos.”

O maior erro das organizações, segundo a autora de Lutos Corporativos, é priorizar resultados a qualquer custo. “Não precisamos escolher entre cuidado e desempenho. Ambos podem caminhar juntos. O cuidado, além de humano, é estratégico. É muito mais vantajoso cuidar do que tratar.” E isso exige preparo dos gestores e é justamente aí que entra o trabalho de Mariana.

No passado, quando atuava como executiva de RH, Mariana mantinha sempre uma caixa de lenços em sua mesa. “As pessoas batiam na porta e perguntavam: ‘Posso falar com você dois minutinhos?’. Eu já sabia que aquela conversa ia virar uma catarse.” Mariana percebeu que muitos conflitos estavam ligados às dores pessoais e que faltava espaço para expressão em um ambiente hostil. “Essa foi a motivação da minha mudança de carreira. Entendi que as corporações não tinham condições de acolher essas dores. Por isso decidi estudar o tema e levar esse conteúdo para dentro do trabalho”. É o que a psicóloga faz hoje, como consultora.

Como avançar?

A primeira medida, segundo a psicóloga, é investir em letramento emocional. “Explicar o que é depressão, o que é luto, criar rodas de conversa. Quando há informação, todos se sentem mais seguros.” A consultora de acolhimento reforça: “As ferramentas mais fortes são acolhimento e expressão. O líder precisa escutar mais do que falar, validar a dor do funcionário e orientar a equipe sobre como recebê-lo de volta.”

Outro desafio é desconstruir a ideia de que demonstrar sofrimento é sinal de fraqueza. “Quando compartilho minhas próprias vulnerabilidades como líder, autorizo minha equipe a fazer o mesmo”, diz Mariana. “Ninguém é feito só de potência. Somos feitos de dores e de amor. E tudo bem não dar conta de tudo.” Para Gisela, naturalizar a presença da morte e das perdas é essencial. “A gente não supera o luto, a gente se ajusta. Esse entendimento tira o peso da obrigação de esquecer e permite uma relação mais saudável com a ausência.”

Em um mundo acelerado, talvez o maior desafio seja justamente criar espaços para desacelerar, ouvir e acolher. “Dor compartilhada é dor atenuada”, lembra Mariana. “Luto não é doença, é parte da vida. Quando compreendido dessa forma, pode até fortalecer os vínculos dentro do trabalho”.

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