Coloque a máscara primeiro em você, mas não se esqueça das outras pessoas
Na era do “cada um faz o que quer”, Maria Bopp provoca uma reflexão sobre os limites do individualismo e o esquecimento de que o cuidado, pra ser eficaz, precisa ser coletivo.
Nos últimos meses, tenho postado alguns vídeos nas redes sociais que chamei de “ponderamentos femininos”. O roteiro é simples: coloco na balança dois lados de um dilema sem buscar uma conclusão definitiva. No primeiro vídeo, falei sobre a minha incerteza em ter filhos. No segundo, sobre a dúvida entre me render ou não ao botox. Em nenhum deles eu aponto um veredito: o exercício é justamente habitar diferentes possibilidades.
“A espécie que sobreviveu pela força do coletivo agora se ilude que basta cada um cuidar de si”
Os dois vídeos juntos já somam mais de 13 mil comentários com muita gente argumentando e trazendo suas experiências pessoais. Mas em meio a tantas contribuições positivas, aparece ele, o comentário que empesteia qualquer debate: “cada um faz o que quer da vida e ninguém tem nada a ver com isso!”. Pronto. Aqui jaz qualquer discussão.
Com as redes sociais, onde está todo mundo cheio de verdades absolutas, está cada dia mais difícil enxergar nuances. A minha intenção com os meus vídeos era justamente abrir espaço pra dúvida, pras relativizações e ambivalências. Mas o “cada um faz o que quer” funciona como um atalho preguiçoso pra que ninguém nunca se implique ou se questione sobre absolutamente nada.
Essa desistência em aprofundar me parece uma versão atualizada do niilismo: “Nada importa de verdade, então vou só consumir e me distrair”. Além disso, é o slogan perfeito do capitalismo. Em uma sociedade que valoriza o indivíduo acima de tudo, o “cada um por si” acaba virando a nossa bússola. É desse caldo que também brotam (e nadam de braçadas!) os coachs da meritocracia e os livros de autoajuda que dominam os rankings dos mais vendidos.
Byung-Chul Han chama atenção pra uma ironia desse processo em “A Sociedade do Cansaço”. Na nossa era, a liberdade e a coação se confundem. A gente se sente livre porque “age por vontade própria”, mas, no fundo, essa vontade já foi moldada por outros. É a tal da autoexploração: não preciso mais de um agente externo pra me oprimir, eu mesmo me cobro, me vigio e me exploro. Mais eficiente do que explorar o outro é ensinar cada um a se explorar sozinho. É um contrassenso. A espécie que garantiu sua sobrevivência pela força do coletivo agora se esgota na ilusão de que basta cada um cuidar de si.
A segunda parte da frase também me incomoda. “Ninguém tem nada a ver com isso”. A pandemia foi a evidência mais gritante de como essa ideia é ilusória. Não faltou gente justificando festas, viagens e os “foda-se a vida!” em nome da própria saúde mental. Enquanto isso, morriam 4 mil pessoas por dia no Brasil. A vacinação é outro exemplo: o que deveria ser um pacto coletivo virou escolha privada. E o que vemos é a adesão às vacinas caindo e, junto com ela, o risco de doenças voltarem a circular. No fim, claro, todo mundo “tem muito a ver com isso”.
Também não esqueço de um story da Virgínia no dia das eleições de 2022. O texto ao lado da selfie dizia “não se deixe levar pela realidade do outro! Pense na SUA realidade! Vote por você, pela sua família!”. Essa foi a sugestão da milionária que deu um avião de presente ao marido enquanto 33 milhões de brasileiros viviam em insegurança alimentar. A diquinha da maior influenciadora do país, cujo trabalho é justamente moldar o desejo dos outros. Ou seja, uma mulher que ganha muito dinheiro vendendo sua influência estava convencendo seu público a tomar decisões imunes a influências externas. Ainda bem que eu sou fã de ironia.
Mas eu tenho uma má notícia. Pra mim, pelo menos. Os niilistas têm razão: essa frase é verdadeira. Porque é óbvio, eu não vou aparecer na sua casa pra fiscalizar seus hábitos, seus caprichos ou a fatura do seu cartão de crédito. Em última instância, sim, todo mundo vai continuar fazendo o que quer.
E pra amenizar a culpa, a gente sempre pode justificar certas autoindulgências apelando pra analogia da máscara de oxigênio. “Coloque primeiro em você para depois ajudar os outros”. Eu entendo o apelo por esse clichê – e também faço uso dele de vez em quando. Só vamos tentar não esquecer da segunda parte do combinado. A parte que cita os outros. Pelo bem da nossa sobrevivência.