Fora de qual padrão?
Nutrição, dança, educação física: elas escolheram profissões associadas a corpos magros e assim, conseguem quebrar estereótipos e acolher outras mulheres
Não existe nenhum manual, lei ou convenção determinando que você só pode exercer determinada profissão se for magra. Mas, na prática, muitas profissões não aceitam corpos gordos pelo fato de a magreza ser o “cartão de visita”. Nutrição, dança, esporte e educação física estão diretamente relacionadas à magreza. E a conta ficou mais cara quando o Instagram, essa rede imagética, passou a ser uma vitrine de exemplos de bons profissionais e seus shapes.
Mas, como essa é uma “regra” sem nenhum embasamento científico ou social, tem muita gente indo na contramão desta tendência. Gente que encontra, justamente, na pressão da rede social, um espaço para quebrar estereótipos. Ellen, Bianca, Júlia e Lyandra são quatro mulheres que questionam padrões e expressões em suas áreas de atuação, na internet e fora dela.
O amor pelo esporte faz a diferença
Ellen Valias, 43 anos, criadora do perfil atleta de peso
“Me sinto uma fortaleza sendo uma mulher gorda atleta. Imagine que foi somente aos 30 anos que eu percebi que tinha o direito de existir? Quando isso aconteceu disse ‘agora ninguém me segura’. Pratico corrida, basquete e levantamento de peso, atividades que gosto de fazer e estou sempre experimentando e alternando, sem seguir uma rotina rígida — talvez por causa do TDAH. A única atividade que faço constantemente é o basquete, minha paixão. Comecei a nadar no ano passado e estou aprendendo. Minha relação com o esporte mudou ao longo dos anos.
Desde criança, sempre fui fora dos padrões convencionais de corpo. Em projetos sociais, como o da Cidade Tiradentes, na periferia de São Paulo, onde cresci, encontrei acolhimento no basquete e participei de campeonatos. Mesmo assim, enfrentava desafios: os uniformes nunca serviam e precisavam ser adaptados pela minha mãe. Parei de praticar basquete aos 17 anos, mas continuei fazendo atividades físicas, como academia, futebol americano e muay thai. Para estes esportes, meu corpo grande não importava tanto, mas mesmo assim, era alvo de olhares e comentários.
Aos 33, voltei a jogar basquete em um parque com meus filhos e, desde então, não parei mais. Em 2018, trabalhando há 20 anos em telemarketing, comecei a ter crises de ansiedade, especialmente no trajeto até o trabalho. Pedi demissão para cuidar de mim e decidi compartilhar minha trajetória nas redes sociais. Minha presença online cresceu e encontrei um espaço para falar sobre ser gorda e praticar atividade física. Fui aos poucos assumindo uma postura de representatividade, enfrentando o preconceito e a pressão estética. Vale lembrar, que na academia, as pessoas me julgavam e me incentivaram a focar apenas no emagrecimento.
Em 2020, durante a pandemia, comecei a correr e me desafiei. Mesmo com julgamentos sobre meu ritmo e resistência, me tornei líder de um grupo de corrida em São Paulo, dois anos depois fiz uma meia maratona e vou me preparar para correr 42 quilômetros.
Hoje tenho noção que a representatividade no esporte é essencial para mostrar que toda pessoa tem o direito de praticar, não apenas para alto rendimento, mas como ferramenta de saúde e existência.
Quero inspirar outras pessoas, independentemente de seus corpos, a encontrarem sua paixão no esporte. Sempre falo para as pessoas gordas que querem entrar para o mundo da atividade física, para começarem caminhando duas vezes na semana. Sei que se disser pra fazer atividade todos os dias, na academia, não estou considerando os acessos, e ela já começa devendo. Não serve. É preciso começar a atividade física em paz, pra daí se fortalecer e conseguir enfrentar, se quiser, um ambiente de aulas”
Instagram: @atleta_de_peso
O voo da bailarina gorda
Júlia Del Bianco, 37 anos, bailarina e professora de dança
“Se você pegar uma foto minha de criança, vai ver que eu era considerada magra para a época, dentro do padrão. Me senti gorda pela primeira vez aos nove anos, numa coxia, esperando para entrar no palco, quando alguém falou da minha barriga. Para mim, aquilo era normal, era a postura típica de uma criança.
Sempre quis dançar, e minha mãe me colocou no balé bem cedo. Nunca mais parei. Na adolescência, passei a ter um corpo com mais curvas e, diante da decisão de seguir carreira de bailarina, me senti pressionada a emagrecer. Fiz muitas dietas restritivas e malucas que me levavam a momentos de compulsão, claramente um transtorno alimentar. Ninguém falava ‘você precisa emagrecer’ diretamente para mim, mas eu ficava sabendo de comentários. Nunca era escolhida para um pas de deux e sempre me colocavam no fundo das danças coletivas.
Passei no vestibular de dança, e, na universidade, sofri gordofobia de maneira mais evidente: um professor dizia que eu precisava ficar “mais fina, mais leve”. Eu concordava, pois via isso como uma crítica construtiva. Engordei demais nessa época por repetir o ciclo de dieta e compulsão.
A gordofobia é uma questão moral; colocam a pessoa gorda no papel de alguém que não se esforça. ‘Como você vai conseguir dançar e se expressar?’ Tudo isso que estou te contando só fui compreender e analisar depois de um tempo. Aos 24 anos, comecei a dar aula de dança em uma escola municipal, pois sabia que não seria aceita em outros espaços. Como havia todo tipo de criança, inclusive crianças gordas, percebi que fazia um bem enorme para elas. Elas começaram a florescer, e isso me transformou.
Quando meu irmão morreu de parada cardíaca, aos 32 anos, minha vida sacudiu. Percebi que estava em espera, vivendo no stand-by para, quando emagrecesse, me tornar protagonista. Como se só pudesse chegar lá assim.
Faz dois anos que me apresento sozinha, dou palestras, workshops e sou modelo. Leveza, flexibilidade, mobilidade — o que é exigido de uma bailarina magra pode ser feito por uma bailarina gorda. Mas demorou para eu entender que não estava errada, nem meu corpo.”
Instagram: @judelbi
Autoconfiança e resultados tangíveis pra quem tem pavor de academia
Bianca Martins, personal trainer, 28 anos
“Muitas pessoas ainda me questionam sobre minha capacidade de ajudar alguém a emagrecer, devido à minha própria constituição física. Respondo a essas dúvidas explicando que meu papel como personal é oferecer conhecimento, estrutura e motivação. No entanto, o comprometimento fora do ambiente de treino é essencial para que qualquer aluno atinja seus objetivos. Por compreender dores e limitações, desenvolvi treinos personalizados que atendem a mulheres com diversos tipos físicos e níveis de condicionamento.
Uma das minhas maiores realizações como profissional de Educação Física é a capacidade de oferecer um ambiente acolhedor para mulheres que, como eu, enfrentam desafios com o preconceito nas academias. Muitas das minhas alunas vieram até mim pelo Instagram, onde compartilho conteúdo sobre saúde e aceitação corporal. Ao se identificarem com minha história e abordagem, elas escolheram treinar comigo, mesmo à distância, preferindo muitas vezes os treinos online, realizados no conforto de suas casas, a frequentar uma academia onde poderiam se sentir julgadas.
O caminho até aqui foi desafiador. Começou cedo. Durante a infância, especialmente na fase escolar, sofri com comentários e apelidos cruéis. Flashes de situações dolorosas e apelidos como “gorda” e “baleia” ainda estão comigo e são lembranças difíceis, que até hoje trabalho em terapia. Ao entrar na adolescência, encontrei um esporte que trouxe mais entusiasmo à minha vida: o handebol. Tive a oportunidade de jogar em competições locais e regionais. Mas a estrutura do meu corpo sempre foi grande, e mesmo com o treino pesado, manter o peso era uma luta constante. Por mais que estivesse em forma, havia a cobrança para ser mais magra, especialmente por parte da técnica, que condicionava minha participação nos campeonatos a uma redução de peso. Cheguei a ficar fora de viagens.
Em resposta a essa pressão, vieram as restrições alimentares rígidas e pouco saudáveis e ansiedade, o que resultou em um transtorno alimentar. Foi por compreender essas dores e limitações, que desenvolvi treinos personalizados que atendem a mulheres com diversos tipos físicos e níveis de condicionamento. Em vez de seguir uma rotina genérica ou exigir exercícios avançados, crio atividades que respeitam o corpo de cada uma, promovendo autoconfiança e resultados tangíveis para a saúde, não apenas para atender a um padrão estético.”
Instagram: @personaltrainer.bianca
Nutrição sem pressão e com foco no bem-esta
Lyandra Dias, 26 anos, nutricionista
“Desde pequena, tive experiências negativas com médicos e nutricionistas, que, sem considerar minha idade, insistiam que eu estava gorda e precisava cortar alimentos. Foi minha mãe quem começou a me levar nestes profissionais por conta de comentários de que “eu estava gordinha”. Cresci ouvindo que não podia comer doces ou lanches com meus amigos e muitas vezes foi limitada a opções “light” e “diet”. Esse controle precoce sobre a comida me levou a ter uma relação difícil com a alimentação.
Antes de entrar na faculdade de Nutrição, consultei uma nutricionista com uma abordagem mais inclusiva e qualitativa. Ela me mostrou que eu poderia comer de tudo, desde que considerasse a frequência e a quantidade. Esse plano alimentar foi um alívio, mas a pressão estética persistia. Senti que precisava entrar na faculdade magra para ser aceita e fiz dietas rigorosas e jejuns de até 72 horas, práticas nada saudáveis que me trouxeram apenas mais ansiedade e desconforto. E, como previsto, quando entrei na graduação, a pressão estética aumentou.
A Nutrição é uma área onde transtornos alimentares são comuns, especialmente pela ideia de que é necessário “dar o exemplo” com o nosso corpo. Cheguei à faculdade magra, mas, ao longo do curso, voltei a ganhar peso ao adotar uma alimentação mais saudável e sustentável. Percebi que, com o peso, mudava também o olhar das pessoas. Os colegas evitavam fazer trabalhos comigo e pareciam questionar minha credibilidade, embora eu fosse uma aluna bolsista e estudasse tanto quanto os demais.
A situação ficou ainda mais marcante em um episódio no segundo ano, quando cheguei atrasada a uma aula, e a professora insinuou que eu devia estar na sala errada, já que estava “fora do padrão” esperado para uma estudante de Nutrição. Esses comentários, diretos ou velados, tornaram o ambiente acadêmico insustentável.
A experiência na faculdade foi difícil, pois mostrou que a pressão pelo corpo “ideal” na área de nutrição é uma realidade. No entanto, a nutrição não se limita ao emagrecimento — ela envolve saúde, bem-estar e muito mais. Hoje, acredito que essa visão precisa mudar, pois todos os corpos têm espaço na profissão, e a nutrição vai além de padrões estéticos.”

