Não é incompetência sua não ter casa própria
Especialistas apontam como a economia, e não escolhas individuais, tornou a casa própria um sonho distante para jovens adultos. A comparação com a trajetória de pais e avós ignora um cenário econômico muito diferente.
Imagine o seguinte cenário: você está casada, tem casa própria, um carro popular, um emprego estável e dois ou três filhos pequenos. Tudo isso antes dos 30. O que soa quase impossível para as gerações millennial e Z, hoje entre 20 e 40 anos, era comum e esperado para adultos da mesma idade nas décadas de 1990 e 2000. Não é incomum a gente comparar nossa realidade com a de pais e avós. Algumas, inclusive, já ouviram deles a cobrança clássica: “Na sua idade, eu já tinha casa e sustentava família”. Mas afinal, a culpa é nossa ou da economia? O que faz com que o sonho da casa própria pareça cada vez mais distante para os jovens adultos de hoje em dia?
Há quem acredite que millennials e geração Z simplesmente preferem morar em casas alugadas e não consideram a compra de um imóvel porque têm outras prioridades. Mas, apesar dessas diferenças existirem, é preciso responder a essas perguntas com um olhar mais crítico, que considere fatores socioeconômicos. Em outras palavras: esse não é apenas um problema de educação financeira – e quem diz isso são as economistas Lai Santiago, educadora financeira, e Paula Sauer, professora de inteligência financeira na ESPM e especialista em comportamento do consumidor.
Segundo Lai, “não dá para dizer que essa geração se comporta diferente porque pensa diferente e ponto, sem considerar como a economia mudou e os jovens adultos têm menos renda, menos riqueza e, consequentemente, menos patrimônio”. Paula complementa: “O contexto agora é outro, a forma como o mundo nos é apresentado mudou. Comparar sua vida com a vida de 20 ou 30 anos atrás é comparar coisas muito diferentes. Não é uma questão de falta de educação financeira ou de organização. O contexto socioeconômico está muito mais complexo.”
A professora destaca ainda que, muitas vezes, a renda dos jovens adultos não contempla sequer o básico, como moradia e saúde. “As pessoas querem ter um imóvel, mas isso se tornou distante porque tudo que é essencial está muito caro: o aluguel, o plano de saúde, o mercado. Como arcar com esses custos e ainda assumir a parcela de um financiamento?”, questiona.
Paula ressalta que a inflação e a defasagem dos salários afetaram o nosso poder de compra. Enquanto isso, imóveis e carros ficaram mais caros e as relações de trabalho foram precarizadas. “Tudo isso inviabiliza que essa geração consiga adquirir bens duráveis com a mesma facilidade que as anteriores”, resume.
Excesso de consumo e angústia
Se por um lado o salário não acompanhou a alta dos imóveis e carros, por outro é constantemente mordido pelos impulsos de consumo – mais frequentes do que há 20 ou 30 anos. “Nós temos um shopping ambulante o tempo inteiro no celular, provocando estímulos dopaminérgicos”, explica a educadora financeira.
Nesse contexto, se bens duráveis estão mais distantes e os não duráveis mais acessíveis, é natural que, como seres emocionais, os jovens priorizem o benefício imediato em vez do ganho de longo prazo. Roupas, acessórios, maquiagem e outros itens se tornam escolhas mais palpáveis. Lai observa que “há uma dificuldade em priorizar o futuro, porque o presente parece mais atrativo”.
Essa lógica levanta uma reflexão: será que a geração prioriza experiências imediatas, como consumo, conforto e bem-estar, ou simplesmente foi isso que restou? Lai ilustra com um exemplo: comprar uma casa hoje pode parecer cem vezes mais difícil do que foi para os pais e avós. Segundo ela, “o que sobra são o delivery, os sapatos, as viagens”. Para adquirir um imóvel, seria preciso abrir mão de lazeres que já fazem parte da rotina – cinema, comida pronta, pequenas viagens – durante décadas, com a esperança de alcançar o objetivo no futuro. “Essa troca é justa? Não existe resposta certa, mas cada um, no seu contexto, precisa avaliar”, conclui.