O feminismo não pode virar uma ameaça aos meninos - Mina
 
Nosso Mundo / Reportagem

O feminismo não pode virar uma ameaça aos meninos

Assim como meninos não podem ser sinônimos de violência e assédio, o feminismo não pode ser sinônimo de repulsa aos meninos. Carolina Delboni fala sobre a necessidade de aproximar esses polos: Educar os meninos é uma urgência social

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“Como a gente cria os meninos”? A pergunta foi feita a mim, que sou mãe de três meninos adolescentes, pela minha sobrinha, também adolescente. Pega de surpresa, precisei de alguns minutos para responder. Se considerarmos os tempos em que vivemos, será fácil entender que a questão é complexa. Mas comecemos trocando a palavra “cria” por “educa” — gosto bem mais desse verbo. 

Vivemos um momento em que meninos crescem entre ordens contraditórias: de um lado, o pedido para serem sensíveis e respeitosos; de outro, a cobrança velada de que não deixem de ser fortes, viris, “homens de verdade”. Eles vivem expostos a discursos que oscilam entre incentivo e repressão, afeto e dureza, acolhimento e violência. E nesse meio-termo, tantas vezes confuso, acabam reproduzindo comportamentos que ferem não só as meninas, mas a si mesmos.

“Meninos e meninas precisam sentar lado a lado para falar de corpo, limites, direitos e afetos”

As redes sociais, os jogos, a pornografia, os influenciadores que ocupam as telas dos celulares e a sociedade – essa real em que a gente vive – funcionam como “escolas paralelas”, onde meninos aprendem, cedo demais, roteiros de masculinidade que reforçam dominação e desrespeito. Não é raro encontrar garotos repetindo frases misóginas, naturalizando a violência ou tratando o corpo da menina como objeto de disputa. Muitas vezes, não por maldade deliberada, mas porque nunca foram convidados a refletir sobre o que estão reproduzindo.

E essa construção tóxica não pesa apenas sobre as meninas, alvo direto das violências verbais, digitais e físicas. Ela também recai sobre os próprios meninos, que enfrentam índices crescentes de ansiedade, depressão, suicídio e envolvimento em crimes violentos. A lógica que cala sentimentos e transforma vulnerabilidade em vergonha adoece uma geração inteira.

Só que neste cenário, o feminismo vira ameaça e aí mora outro perigo. Porque assim como meninos não podem ser sinônimos de violência e assédio, o feminismo não pode ser sinônimo de repulsa aos meninos. O que a gente precisa é aproximar esses polos que, muitas vezes, se fazem opostos. Abrir a roda e trazer os meninos para a conversa. Falar sobre limites, sobre corpo, toque, consentimento, beijo, baladas, desejos, bebida alcoólica, a ausência de consciência. A lista é imensa e nem toda conversa precisa ser feita na presença deles, mas é fundamental que existam momentos em que sejam chamados.

Como esperar que compreendam os sintomas da TPM ou a menstruação em si, se, na grande maioria das vezes, tudo o que sabem aprenderam na internet? Como esperar que usem camisinha de forma consciente se 90% dos meninos nunca pisaram num urologista para aprender sobre o próprio corpo? O que dirá o corpo do outro. 

Meninas entram na puberdade e vão ao ginecologista, mas a mesma realidade não existe para os meninos. Culturalmente — e isso também é machismo — não há a ideia de que homens precisem procurar o médico se “tá tudo bem”. A proposta não é eximi-los de suas responsabilidades, mas entender que existe um histórico de repetição que precisa ser quebrado. E, uma vez que falta a eles essa compreensão, talvez caiba a nós abrir essa porta.

Fato é que meninos têm pouco acesso a informações sobre as chamadas “coisas de menina”. O que não aprendem nas escolas, não aprendem em casa. E o que deixam de aprender nos diálogos com as próprias meninas, acabam aprendendo em situações de conflito. São ensinados a engolir o choro, a manter a postura de “homem”, a carregar o peso de uma masculinidade rígida. A dificuldade — ou incapacidade — de expressar sentimentos aprofunda o silêncio. E os danos desse silêncio já estão traduzidos em estatísticas, pesquisas e histórias de vida.

Abrir a roda, neste contexto, é essencial. Meninos e meninas precisam sentar lado a lado para falar de corpo, de limites, de direitos e de afetos. Não se trata de suavizar responsabilidades, mas de garantir consciência, informação e convivência. Só assim os meninos compreenderão que a colega que se sente excluída no futebol carrega o peso de tantas outras que nem puderam entrar em campo. Só assim compreenderão que menstruação não é piada, mas uma experiência que merece respeito.

Educar meninos hoje é uma urgência social. Não se trata de fragilizá-los, mas de libertá-los de um modelo de masculinidade que os adoece. De oferecer a chance de serem inteiros: vulneráveis sem medo, afetivos sem vergonha, íntegros sem precisar se esconder atrás de máscaras de força.

Abrir a roda para que meninos entrem não diminui a luta feminista — amplia. É acreditar que um futuro menos violento depende de homens e mulheres capazes de se reconhecer no olhar do outro. E esse futuro começa agora, em casa, nas escolas, nas conversas cotidianas. E você, como cria seus meninos? 

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