Microestresses, grandes problemas
Os microestresses são difíceis de serem notados, mas, acredite, podem fazer tão mal quando aquelas grandes perturbações que gritam em nosso corpo
Não são nem 8 da manhã e você já se vê tomada por novas demandas. A caixa de entrada cheia de novos e-mails. As notificações do WhatsApp começam a aparecer. O lixo se acumula e outras pendências – como comprar um filtro novo de café, organizar a lancheira dos filhos e lavar o tapete da sala – não param de surgir. Ao ligar a TV ou abrir o site de notícia, você é bombardeada por reportagens devastadoras e preocupantes. E olha que seu dia de expediente ainda não começou.
Estes acontecimentos do cotidiano que, individualmente, parecem irrelevantes têm impacto negativo no foco e na produtividade e no bem-estar das pessoas, seja do ponto de vista físico ou mental. No livro “O efeito microestresse: Quando pequenos detalhes criam grandes problemas ― e como evitar isso”, os autores Rob Cross e Karen Dillon investigam a questão e garantem: as pequenas demandas do dia a dia estão minando a saúde da nossa geração.
Os microestresses são individualizado e, num primeiro olhar, parecem até inofensivos
Em geral, essas microtensões surgem de pessoas próximas; do marido, dos filhos, da mãe, do chefe, do colega. Por educação, apreço ou falta de confiança, vamos acumulando tarefas, conversas e situações que nos esgotam. Só que como são todas relativamente pequenas, não nos damos conta, só reparamos quando já estamos estressadas, à beira de uma crise. Mas, acredite, dá pra escapar dessa.
O primeiro passo é entender a diferença de um micro para um macroestresse. O estresse “normal”, ou aquele ao qual estamos acostumadas, é fácil de ser reconhecido, assim como seus efeitos. Por exemplo, uma demissão em massa, uma ameaça física, um divórcio, uma briga… São coisas que geram reações, que podemos chamar de universais, nas pessoas. Situações emblemáticas e amplamente reconhecidas como mega estressantes. Já o microestresse é muito menos óbvio e individualizado. São pequenos obstáculos que precisamos percorrer ao longo do dia e que, num primeiro olhar, parecem até inofensivos. Isso porque já estamos condicionadas a lidar com eles e mal percebemos seus danos e custos. Eles são “pequenos demais” diante dos outros problemas, e os consideramos fáceis de serem resolvidos.
Um exemplo? Quando seus colegas de equipe não conseguem finalizar uma tarefa e você acha que é mais simples você mesma executá-la (rapidinho, em 10 minutos) ao invés de ter uma conversa desconfortável com o seu time sobre a entrega. A verdade é que, aqui, você está apenas absorvendo mais problemas e prorrogando decisões difíceis. É um acúmulo que faz mal, podemos chamar de shot clássico de estresse.
“Os microestresses parecem controláveis no momento, mas eles se acumulam e podem criar efeitos em cascata de consequências secundárias, e às vezes terciárias, que podem durar horas ou dias – ou até mesmo desencadear microestresse em outras pessoas”, avaliam os autores Rob Cross e Karen Dillon.
O ponto central aqui é a soma dos problemas. Para os autores, a hiperconectividade e a tecnologia estão fazendo com que essas microtensões virem verdadeiras bombas-relógio. Nunca antes na história tivemos tanto contato com demandas, pedidos e “urgências” de última hora. Ninguém desliga.
Mas apesar de parecerem pequenos, os microestresses causam efeitos parecidos com os bons e velhos estresses que conhecemos. Aumentam a pressão arterial e a frequência cardíaca, e podem desencadear alterações hormonais e metabólicas. O problema, contudo, de acordo com Joel Salinas, neurologista comportamental e pesquisador da Grossman School of Medicine da Universidade de Nova York é que “embora as microtensões danifiquem os nossos corpos, os nossos cérebros não as registram como uma ameaça. Portanto, nossos cérebros não estão acionando o mesmo tipo de mecanismos protetores de ordem superior que podem ocorrer diante de um estresse mais óbvio”. E assim a galinha vai enchendo o papo.
O jeito é lidar com o problema. Para a psiquiatra Cíntia Braga, como reagimos diante das situações de estresse (macro ou micro) vai determinar o efeito das mesmas sobre nós. Na opinião da médica, controlar essas reações requer autoconhecimento e algumas técnicas podem ajudar nesse processo:
Respirações profundas e lentas auxiliam a acalmar o sistema nervoso;
Práticas de mindfulness e meditação;
Exercício físico. Lembre-se que se movimentar libera substâncias que atuarão na redução do estresse!
Rede de apoio importa: conversar com amigos, familiares ou cônjuges pode aliviar a carga emocional e oferece novas perspectivas da situação.
No mais, às vezes tentar ver esses pequenos problemas por outra perspectiva, entendendo a sua real dimensão e complexidade, pode ser a melhor maneira de lidar com eles. Fácil falar, né?

