O peso muda, as memórias ficam
Vergonha do próprio corpo faz muitas mulheres abrirem mão de momentos que não voltam mais. Diante da volta da magreza extrema aos holofotes, a comunicadora Ciça Campos lembra: quando o medo de não se encaixar pesa mais do que o corpo, o que fica de fora é a vida.
A quantas festas você já deixou de ir? Quantas fotos apagou? Quantos convites recusou, mergulhos evitou ou roupas não usou por vergonha do próprio corpo? Por trás da insegurança com a aparência, muitas vezes, existe algo mais profundo: o medo de não caber. Não caber no padrão, no desejo do outro, no momento que poderia ter sido leve, mas virou pressão.
Eu mesma já deixei de ir à praia por achar que minha barriga estava inchada demais. Já deixei de comer em lugares incríveis durante viagens por me achar “acima do peso”. Já transformei passeios deliciosos em momentos caóticos por não querer sair da dieta. Já vivi fases em que o peso do meu corpo era menor do que o peso do julgamento que eu imaginava que fariam dele. E isso me impediu de viver.
Você quer se lembrar de ter se sentido inadequada ou do dia incrível que passou com seus amigos?
A insatisfação corporal afeta a vida social muito mais do que a gente gosta de admitir. Uma pesquisa global da Dove revelou que 69% das mulheres já deixaram de participar de eventos sociais por se sentirem desconfortáveis com a própria aparência. Sete em cada dez meninas evitam até atividades básicas do dia a dia pelo mesmo motivo.
E não é só sobre aparência. É sobre o quanto você se sente à vontade para estar presente. De verdade. Porque quando o foco está na barriga marcando, no braço balançando, no “como será que estão me vendo?”, você não está ali. Está se vigiando. Está se comparando.
Aprendemos a associar saúde a emagrecer. Mas esquecemos que, para ter saúde, também precisamos de uma boa vida social. E que comida é muito mais do que calorias e nutrientes, é também cultura, afeto e conexão. Isso pode parecer pequeno, mas é enorme.
Tivemos um avanço importante com a aceitação corporal nos últimos anos. Mas, com a recente “volta” da magreza extrema nas redes, algo retrocedeu. A régua do que é considerado aceitável voltou a apertar e a alimentar nóias silenciosas na cabeça de muita gente. E aí, mais uma vez, voltamos a esconder nossos corpos – e a deixar de viver.
Talvez, por isso, seja tão urgente perguntar: daqui a alguns anos, do que você quer se lembrar? De ter se sentido inadequada ou do dia incrível que passou com seus amigos na praia? Porque o peso muda, mas as memórias, ah… essas ficam. E algumas a gente não consegue refazer depois.

