Por que um relacionamento que nem aconteceu dói tanto? - Mina
 
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Por que um relacionamento que nem aconteceu dói tanto?

Idealização, trauma e o looping do quase-relacionamento: um olhar da psicóloga Ediane Ribeiro sobre vínculos frágeis, culpa e feridas antigas que podem guiar nossas escolhas afetivas sem que a gente perceba

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É noite, mas você não consegue dormir. Entre uma virada e outra na cama, checa o celular. Rola a conversa, enquanto pensa: “O que aconteceu? Parecíamos tão conectados!”. Você relê as mensagens de flerte, vê as figurinhas e trocas de memes, vai para a rede social dele, passeia pelas últimas publicações buscando pistas para decifrar o mistério, enquanto seu coração parece estar dentro de uma caixa que reduz de tamanho a cada rolar de tela. Seus músculos se contraem e o corpo vai se encolhendo sozinho na cama pra tentar acalmar a sensação de mal-estar no estômago. Nesse mar de sensações, sua mente pendula entre: “Deixa de ser idiota! Ele não tá a fim” e “Não é possível. Tínhamos algo”. Até que, entre idas e vindas das teorias que criou para justificar o sumiço, chegam as perguntas:

“O que eu fiz de errado?”
“O que eu tenho de errado?”

A partir daí, você mergulha em um looping infinito de pensamentos de autocondenação acompanhados de sentimentos de inadequação, frustração e apequenamento. A outra parte? Já foi absolvida! Na imensidão da relação que aconteceu no seu mundo interno, sustentada por frases curtas, emojis e dois ou três encontros, o outro idealizado não tem como ser responsabilizado. Logo, só há uma responsável pelo fim do “quase alguma coisa”: você.

Essa poderia ser apenas uma descrição hipotética sobre os abismos das relações na era digital, mas de hipotética guarda pouco. É um relato que já escutei inúmeras vezes em diferentes ambientes: da mesa de bar ao setting terapêutico.

Ironicamente, a era da hiperconexão se tornou também a era da solidão

Mas fantasiar o outro e a relação não é um fenômeno moderno da era digital. Sempre aconteceu e é parte inicial de qualquer relacionamento. O enlace romântico começa com algum nível de idealização e, frequentemente, com uma dança entre traumas. Nós nos atraímos pela pessoa, mas também pela imagem de falta que ela representa em nossa história. É como se a atração acontecesse em dois níveis: em um nos atraímos pelo físico, pelo jeito de ser ou pela forma de levar a vida; e em outro há uma atração pela busca do amor que não foi recebido no passado, especialmente em nossas primeiras relações.

Se o contato avança, a idealização tende a se descortinar e aí começa o relacionamento de verdade, com menos projeções irreais e com menos necessidade de que o outro preencha todos os nossos vazios. Mas, quando o que foi vivido no passado como desamor vira o guia na busca pelo amor, somos paradoxalmente convidadas ao emaranhamento com a idealização e ao distanciamento do amor real e possível. Passamos a confundir a busca por conexão com busca por validação. A montanha russa emocional do estresse se confunde com paixão e o outro se transforma na meta a ser alcançada, no desafio que vai fazer você provar para você mesma que tem valor. Então, quanto mais indisponível e idealizado, melhor.

E, para complicar, vivemos a era da aceleração dos tempos, do mar de interações virtuais, de comunicações ambíguas por figurinhas e de sumiços inexplicáveis que parecem desconsiderar que do outro lado da tela há um humano e não uma IA com potencial para ganhar vida. Ironicamente, a era da hiperconexão se tornou também aquela em que mais se fala, teoriza e se queixa de solidão.

Talvez nem precisasse mencionar o quanto essa dinâmica psicofísica inconsciente é mais cruel com as mulheres, que foram historicamente ensinadas a medir seu valor por seu status de relacionamento e a se culpar integralmente pelo desfecho das relações. É verdade que já aprendemos bastante sobre nos retirarmos dessa prateleira que o amor romântico nos colocou, mas o difícil não é pensar diferente, é sentir diferente. Esses conceitos foram introjetados por muitas e muitas gerações. E como diz uma frase famosa dentro do estudo de trauma: “Saber e não sentir, é como não saber.”

Se há algum caminho para relações reais e saudáveis, certamente então ele passa por voltar a sentir e, assim, reaprendermos aquilo que nenhuma IA pode ensinar: intimidade. A intimidade que vem do cheiro, do gosto, da vida que acontece sem filtros e do aprendizado para sustentar contradições que só as relações reais nos ensinam.

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