Regulação emocional que te ensina a ser quieta, agradável e doce não é autocuidado, é castigo. - Mina
 
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Regulação emocional que te ensina a ser quieta, agradável e doce não é autocuidado, é castigo.

O que se chama de “descontrole emocional”, muitas vezes, é reação a violências e sobrecarga. Por isso, antes de tentar domesticar as suas emoções, é muito importante olhar pra elas com atenção: o que essa sensação terrível tá tentando te dizer?

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A popularização do conceito de “regulação emocional” no discurso da autoajuda e da cultura terapêutica contemporânea merece uma análise cuidadosa. A premissa, à primeira vista, parece inofensiva: trata-se de desenvolver a capacidade de gerenciar as próprias emoções para responder ao ambiente de forma mais adaptativa. No entanto, é preciso perguntar: adaptativa a quê? E a quem?

O que se observa é que, sob o apelo do “bem-estar”, opera-se uma ideologia específica. Ser “regulado emocionalmente” significa, na prática, corporificar um ideal de corpo dócil – um corpo que não manifesta irritação, que não externaliza a raiva, que não demonstra desconforto diante das situações adversas. Em outras palavras, a pessoa “regulada” é aquela que não incomoda, que não questiona, que suporta sem reagir. 

Esse discurso produz uma distorção significativa na forma como compreendemos as chamadas “emoções negativas”. A raiva, a tristeza profunda, o descontentamento e a revolta deixam de ser vistos como indicadores legítimos de que algo no ambiente ou na relação está errado. Em vez disso, são tratados como disfunções individuais que precisam ser corrigidas.

No Brasil, essa lógica de controle sobre as emoções tem uma longa história e opera de forma particularmente intensa sobre o corpo e a subjetividade das mulheres. Uma pesquisa da organização Think Olga, divulgada pela CNN Brasil, revelou que sete em cada dez diagnósticos de ansiedade e depressão são feitos em mulheres. Essa desproporção, no entanto, não se explica por diferenças biológicas inatas, como às vezes se supõe. Dados do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde apontam que a prevalência de depressão ao longo da vida pode chegar a 20% nas mulheres contra 12% nos homens, e que mulheres são globalmente as mais afetadas por esses transtornos. Tais números refletem, fundamentalmente, a desigualdade estrutural. 

Afinal, é impossível ignorar o contexto: a sobrecarga pela dupla ou tripla jornada (trabalho formal e trabalho doméstico não remunerado de cuidado), a maior exposição à violência de gênero e doméstica, e a disparidade salarial sistemática – onde mulheres chegam a ganhar significativamente menos que homens pela mesma função – são fatores sociais comprovadamente geradores de sofrimento psíquico. Assim, o que poderia ser lido como uma resposta compreensível e legítima a um mundo estruturalmente opressor é, no discurso médico hegemônico, constantemente reinterpretado como uma falha bioquímica individual, patologizando o próprio sofrimento.

A armadilha do autocuidado e o que fazer com o desconfortoA virada se dá quando esse imperativo social é vendido como “autocuidado”. A mensagem implícita é a de que a responsabilidade por administrar o desconforto gerado por situações opressivas recai inteiramente sobre o indivíduo – nesse caso, a mulher –, e não sobre quem ou o quê produziu esse desconforto. Trata-se de uma forma de desresponsabilização sistêmica: a violência, o assédio ou a pressão social deixam de ser o problema. O problema vira a reação a eles.

Essa imposição pela busca da quietude e da doçura descreve uma dupla via de aprisionamento. Se a mulher consegue se “regular” e permanecer calma e complacente diante do que é inaceitável – como assédios, sobrecarga de trabalho ou violência doméstica –, ela se aliena de sentimentos como a raiva e a revolta, que são potencialmente transformadores. Ela aprende a naturalizar a opressão, reforçando o ciclo de violência. Se, por outro lado, ela falha em se conter e expressa sua indignação de forma explícita, sua reação é imediatamente patologizada. Ela é desqualificada como “histérica”, “instável” ou “disfuncional” e, muitas vezes, recebe diagnósticos psiquiátricos que justificam intervenções medicamentosas, em vez de ter sua experiência contextualizada por uma situação de assédio moral ou violência.

No entanto, existe uma função primordial na manifestação da raiva ou do desconforto. Antes de serem “desequilíbrios”, essas emoções operam como mediadoras cruciais entre o sujeito e o mundo. A raiva legítima pode ser o termômetro que detecta a injustiça. O cansaço extremo é, muitas vezes, a forma que o corpo encontra para dizer “não” à exaustão imposta pelo trabalho. Silenciar esses sinais em nome de uma pretensa regulação é calar o mensageiro sem se dar ao trabalho de decifrar a mensagem.

Portanto, “regular-se” não deveria significar adaptar-se passivamente aos padrões violentos ou sexistas. Mas, sim, utilizar esse desconforto como combustível para a análise crítica e entender que, às vezes, a resposta emocional mais saudável a um contexto doentio não é a calma, mas a rebeldia. Resistir ao imperativo da doçura, portanto, não é um deslize emocional; é um ato de preservação da própria subjetividade e, em muitas situações, de sobrevivência política.

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