É urgente regulamentar as redes sociais
Impactada pela série “Adolescência”, a jornalista Letícia Vidica alerta: a internet tem suas maravilhas, mas do jeito que funciona hoje, tem adoecido e até matado nossas crianças e jovens. Precisamos discutir regras, responsabilidades e limites
Tem série que a gente assiste e sai diferente. Esse foi o efeito que Adolescência, da Netflix, causou em mim. A minissérie de 4 capítulos toca em muitas feridas: bullying, autoimagem, solidão, pressão escolar, expectativas familiares… O roteiro escancara a complexidade de crescer num tempo em que a internet dita o ritmo da vida — e das crises. Mas, em meio à consternação familiar, escolar e policial, uma camada ali foi pouco abordada no debate: a necessidade de regulamentação.
E aí, bem no meio dessa avalanche de emoções e reflexões, veio a notícia que parou o coração — literalmente e simbolicamente. Sarah Raissa Pereira de Castro, uma menina de apenas 8 anos, morreu em Ceilândia (DF) após participar de um desafio lançado no TikTok que consistia em inalar desodorante aerosol. Sim, você leu certo. Uma criança morreu tentando sobreviver a um jogo digital que jamais deveria ter existido.
Liberdade de expressão não pode servir de desculpa para irresponsabilidade das plataformas
Não dá mais pra fingir que as redes são inofensivas. Não dá mais pra aceitar que a vida online seja um campo livre onde tudo pode, tudo se posta, tudo viraliza. E, o mais grave: onde ninguém se responsabilize. E isso, meu povo, não é só tragédia. É alerta. É uma sirene ligada no máximo. É a urgência de parar de passar pano e começar a cobrar regulação.
Embora eu não tenha filhos, entendo que, para muitos pais, ver os filhos em casa — no quarto ou entretidos no celular — já foi sinônimo de segurança ou até mesmo uma espécie de babá virtual. Mas essa sensação de tranquilidade ficou para trás faz tempo. Me paralisa o fato de não termos controle sobre o que nossos filhos, sobrinhos, nossas crianças podem acessar nesse território sem lei que são as redes sociais. O que pode fisgá-los? O que serão capazes de fazer em busca de um like? A que tipo de desafio virtual serão expostos?
Enquanto somos arrastados pelos feeds infinitos, pelas dancinhas e algoritmos que sabem mais da gente do que nós mesmos, esquecemos que as redes não são terra de ninguém. A liberdade de expressão é essencial, sim. Mas não pode ser usada como cortina de fumaça para esconder a falta de responsabilidade dessas plataformas com quem mais precisa de proteção: nossas crianças e adolescentes.
O Brasil já começou a se mexer. A OAB-SP promoveu a primeira audiência pública sobre a regulação das redes sociais. Pelo menos, seis partidos na Câmara dos Deputados já colocaram o tema como prioridade. E não é pouca coisa. Estamos falando de criar um marco legal que acompanhe o ritmo de um mundo digital que corre na velocidade da luz — e que, sem freio, nos atropela.
A campanha 24 horas sem Redes Sociais – Greve das Redes, proposta pela psicanalista Vera Iaconelli e o ativista Pedro Inoue, segue na mesma direção: dar um respiro. “Somos explorados e dependentes dessas plataformas… Mas temos um poder: parar”, escreveu Vera. E tem razão. A pausa é também resistência.
Você sabia que quem passa mais de 3 horas por dia nas redes tem mais chances de ter ansiedade diagnosticada? Isso sem contar a depressão, os distúrbios alimentares, a insônia, a sensação constante de inadequação… E esses dados, infelizmente, não são só números. São vidas.
Hoje, segundo o IBGE, crianças a partir dos 9 anos já acessam as redes diariamente. E o Brasil lidera o ranking dos países que mais usam redes sociais no mundo. A pressão estética, o medo de ficar de fora (o tal FOMO), o bombardeio de conteúdo violento ou sexualizado, os comparativos constantes… Tudo isso vira combustível para crises emocionais que explodem em silêncio.
A gente vive conectado, mas cada vez mais distante de nós mesmos. E de nossas crianças.
A morte da Sarah não pode ser em vão. O sofrimento das meninas de Adolescência não pode ser apenas entretenimento. Precisamos conversar. Precisamos cobrar. Precisamos regulamentar. Porque, se o mundo mudou, as regras também precisam mudar. E urgente.
