Vamos falar sobre reposição hormonal e câncer de mama? - Mina
 
Seu Corpo / Reportagem

Vamos falar sobre reposição hormonal e câncer de mama?

Estudo mal interpretado dos anos 2000 ainda influencia decisões de mulheres que temem um tratamento que pode mudar suas vidas na menopausa

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É difícil precisar quantas vezes uma mentira precisa ser contada para que se transforme em verdade. Mas quando o assunto é saúde, qualquer informação mal comunicada uma única vez já consegue fazer um estrago enorme.  Foi assim em 2002, quando a má interpretação de um estudo criou a crença de que a terapia de reposição hormonal disparava o risco de câncer de mama em mulheres na menopausa.  

O resultado? Gerações inteiras privadas de um tratamento seguro e eficaz, por medo de uma ameaça que, na prática, era muito menor do que foi divulgado. Especialistas entrevistados pela Mina falam sobre a importância da reposição hormonal, desmistificam sua associação ao câncer de mama e reforçam que o tratamento deve ser sempre individualizado.

“A reposição hormonal, quando prescrita correta e individualmente é supersegura” 

Uma mulher entra na menopausa depois de 12 meses sem menstruar.  Esse é o fim da fase reprodutiva e, na média, acontece entre 45 e 55 anos. Nesse período há uma queda na produção dos hormônios, principalmente estrogênio, progesterona e testosterona. É essa redução que acaba causando ondas de calor, insônia, mudanças de humor, queda da libido, ressecamento vaginal, ganho de peso, dificuldade de concentração, lapsos de memória e diversos outros sintomas incômodos.

Nesse cenário, a Terapia de Reposição Hormonal (TRH) vem para compensar essa queda na produção natural e aliviar os sintomas. A reposição pode ser feita através de pílulas, adesivos, géis ou cremes. E isso pode ajudar muitas mulheres, não fosse o mito criado sobre o assunto. 

O mal entendido


A controvérsia surgiu após a divulgação dos dados do  Women’s Health Initiative (WHI), um dos maiores – e mais respeitados – estudos de saúde feminina já realizados no mundo. Ele foi feito em três partes: um ensaio clínico, um estudo observacional e um estudo de prevenção comunitária e concluiu a coleta de dados em 2005. 

Foram mais de 160 mil mulheres envolvidas e um investimento de 600 milhões de dólares. A pesquisa era concentrada em estratégias para prevenir doenças cardíacas, câncer de mama, câncer colorretal e osteoporose em mulheres na pós-menopausa. 

Porém, durante as análises, os pesquisadores identificaram que mulheres que faziam Terapia de Reposição Hormonal (TRH) tinham maior risco relativo de câncer de mama. “O risco relativo era 26% maior, mas isso foi apresentado pela mídia como risco absoluto”, explica a médica ginecologista Joele Leripio, especialista em menopausa e pós-graduada em fisiologia do envelhecimento. Aqui a diferenciação entre “absoluto” e “relativo” é essencial.

Risco absoluto é a probabilidade de um evento ocorrer, enquanto o risco relativo é a probabilidade em um grupo comparada com outro grupo. Sendo assim, a chance de uma mulher que faz TRH ter câncer de mama era menos de 1%: “A cada 10.000 mulheres, quatro a seis tinham câncer sem terapia hormonal. Com a terapia, o número passou para oito. Ou seja, o risco absoluto foi de 0,08% ao ano e não 26%”, aponta Fabiane Berta, médica especialista em menopausa e pesquisadora. 

Fabiane reforça outro detalhe pouco divulgado e crucial neste caso: a maioria das participantes do estudo era composta por mulheres mais velhas, com doenças crônicas e fatores de risco já presentes. Marcelo Steiner,  ginecologista endócrino, especializado em Climatério complementa: “Uma avaliação do estudo concluiu que, como a média de idade das mulheres desse grupo era de 63 anos, e já tinha doenças como diabetes e hipertensão, já existia um risco maior para o desenvolvimento da doença. Além disso, essa não é a idade do público que costuma fazer reposição hormonal”. Em pesquisa, cada detalhe importa.  

O estrago estava feito

O erro de interpretação gerou manchetes alarmistas ao redor do mundo associando o uso de estrogênio ao aumento de câncer de mama. “Uma geração inteira de médicos e mulheres que já usavam o tratamento suspenderam tudo. E muitas que chegavam à menopausa pararam de receber ajuda”, lamenta Leripio.

O impacto foi tão grande e muita gente pareceu esquecer que o estrogênio sempre esteve presente no organismo feminino: da puberdade à vida adulta. Fabiane brinca que “se o hormônio dá câncer, então tinha que arrancar o ovário de toda adolescente, porque ali produz estrogênio e testosterona na flor da idade”. O questionamento logo apareceu, mas a população em geral – e também a classe médica – ficou receosa. 

Marcelo lembra: “O cérebro sempre trabalhou com estrogênio e, o que acontece na menopausa é que, de repente, ele fica sem”. E perder estrogênio significa perder proteção. “O que aumenta o risco para doenças cardiovasculares, perda de massa óssea e acúmulo de gordura abdominal, entre outros”, explica. 

Cada corpo é um corpo

Os especialistas ouvidos pela reportagem são unânimes ao afirmar que o grande vilão não é a Terapia de Reposição Hormonal, mas, sim, a ausência de tratamento individualizado. Antes de receitar o TRH ou qualquer outro tipo de medicamento, é preciso compreender o histórico de saúde e também psicossocial de cada mulher. 

“A menopausa não é uma doença, mas pode gerar várias doenças. O Brasil é o país dos depressivos e ansiosos, metade são mulheres. Mas deixo um questionamento: será que somos depressivas de fato ou estamos falando de uma menopausa não tratada?”, diz Fabiane. 

“A reposição hormonal, quando prescrita corretamente e individualizada, além de supersegura, protege contra sintomas incapacitantes. Ignorar essa possibilidade por medo é negar à mulher um direito que é seu: o de envelhecer com saúde e vitalidade”, afirma a especialista. 

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