Se o seu relacionamento acabar hoje, você está financeiramente segura? - Mina
 
Nosso Mundo / Reportagem

Se o seu relacionamento acabar hoje, você está financeiramente segura?

Autonomia financeira não tem nada a ver com duvidar do futuro da sua relação. A consultora Jana Gomes explica por que isso importa e como começar

Por:
3 minutos |

Estar em um relacionamento amoroso, feliz e estável, não deveria ser incompatível com ter autonomia financeira. Mas, para muitas mulheres, ainda é. Mesmo quando tudo vai bem, vale se perguntar: se algo mudasse hoje, você estaria segura financeiramente? Não se trata de prever o fim ou desejar o pior. Pelo contrário: desejo que seu relacionamento siga firme, regado de respeito, parceria e afeto. A reflexão aqui é outra, sobre a importância de cultivar segurança e liberdade também na vida financeira. E ela vale não só pra você, mas também para as mulheres ao seu redor.

A verdade é que a presença feminina no mercado de trabalho e o acesso ao próprio dinheiro são conquistas recentes. Muita gente esquece disso. Por isso, ainda hoje, muitas mulheres sentem insegurança ao lidar com finanças e acabam delegando as decisões importantes aos parceiros — mesmo quando são elas que sustentam majoritariamente a casa.

Acidentes, problemas de saúde ou mesmo o falecimento do parceiro podem deixar mulheres vulneráveis

Essa insegurança, porém, não é natural: é socialmente construída. E pode ser ressignificada. No livro “A Cabeça do Investidor”, a psicóloga Vera Rita de Mello Ferreira cita uma pesquisa feita nos EUA que mostra que mulheres negras, frequentemente chefes de família, tendem a ter mais autoconfiança financeira. A explicação? A vivência. Segundo ela, “a autoconfiança advém da experiência, mais do que de qualquer outro fator”.

Por isso, planejar a própria segurança financeira não é pessimismo, é lucidez. Como escreveu Tati Vasconcellos em sua coluna aqui na Mina, “pode ser aparentemente contraditório planejar o possível fim de um relacionamento quando se está confortável nele. Mas é meio como planejar a morte: de maneira desromantizada, realista e pragmática.” E nem sempre se trata de separação. Acidentes, problemas de saúde ou mesmo o falecimento do parceiro podem deixar mulheres vulneráveis, ainda que temporariamente. 

Se nos guiássemos mais pelos dados — e pela experiência das mulheres mais velhas —, talvez estivéssemos mais preparadas. Teríamos liberdade para sair de relações ruins, inclusive aquelas marcadas por violência (assunto para outro texto), e mais segurança após um divórcio. Um bom ponto de partida é a leitura de “O Complexo de Cinderela”, de Colette Dowling, que discute como a dependência financeira pode ser naturalizada como desejo inconsciente.

Mas é possível construir essa segurança. Algumas atitudes podem fazer toda a diferença:

  • Participe das decisões financeiras da família: do supermercado ao patrimônio, saber o que está acontecendo e opinar é essencial.
  • Tenha uma reserva individual: contas e sonhos conjuntos são válidos, mas ter dinheiro só seu garante mais autonomia em momentos delicados. 
  • Tenha uma reserva financeira individual: Não há problemas em ter conta e sonhos conjuntos, mas, diante da decisão de se divorciar ou em caso de imprevistos, dinheiro em conta própria pode fazer muita diferença.
  • Se puder escolher, não abandone sua trajetória profissional por causa do relacionamento: interromper estudos ou trabalho dificulta (e muito) uma retomada futura.
  • Se for se dedicar aos cuidados não remunerados, negocie garantias: um valor mensal depositado em conta individual para suas escolhas pessoais (além das demandas da casa), contribuições ao INSS, previdência, seguros de vida — tudo isso ajuda a manter sua autonomia mesmo fora do mercado de trabalho.

Em tempos de tendências como a da “esposa troféu”, cuidar da própria segurança financeira não é frieza, é maturidade. Relacionamentos podem terminar, mas sua estabilidade precisa continuar. Com ou sem par, que você possa contar com a liberdade de escolher o que é melhor pra você.

Mais lidas

Veja também