Cadê a esposa que estava aqui?
A solidão masculina é resultado da crença histórica de que sempre haveria uma mulher subserviente ao lado deles. O termo mankeeping expõe essa solidão e indica os caminhos da mudança
Nos últimos anos, muito se falou sobre a importância de redes de apoio, saúde mental e igualdade de gênero. Mas, apesar de tantos avanços, seguimos diante de um paradoxo: enquanto mulheres constroem e cultivam laços diversos ao longo da vida, muitos homens têm visto seus círculos sociais encolherem. O resultado é que, em muitos relacionamentos heterossexuais, a parceira acaba sendo a única fonte de apoio emocional.
“Os homens foram ensinados a acreditar que nunca estariam sozinhos”
Esse fenômeno ganhou um nome: mankeeping – conceito cunhado por uma pesquisadora da Universidade de Stanford para descrever o trabalho invisível que muitas mulheres realizam ao compensar a falta de rede social e emocional dos homens. Na prática, significa estar disponível para ouvir, acolher e até gerenciar crises emocionais do parceiro, muitas vezes sozinha. Isso, claro, traz consequências: exaustão, frustração e desgaste nos relacionamentos.
O termo é recente, mas o papel que ele nomeia é antiquíssimo. As mudanças sociais permitiram que as mulheres pudessem ter a escolha de sair desse lugar. Foi nesse ponto que a solidão masculina ficou exposta e abriu-se espaço para a discussão sobre como mexer nesse cenário, que não se trata apenas de largar a administração emocional dos boys, mas sim, buscar ferramentas para que essa gerência não seja mais necessária.
Ciclo do silêncio
Ismael dos Anjos, responsável pelo projeto que originou o documentário O silêncio dos homens, explica que a raiz desse problema está no modo como os meninos são educados. “Desde muito cedo, aprendemos que há um modelo hegemônico desejável para esse ‘ser homem’: hetero, corajoso, forte, provedor, competitivo, que aguenta o tranco. Esses marcadores acabam afastando os homens de características eminentemente humanas e que muitos leem como femininas, como sentir, acessar ou demonstrar emoções”, afirma.
Segundo ele, entrar em contato com um espaço em que se pede ou se aceita receber apoio emocional requer vulnerabilidade, e isso ainda é visto como fraqueza. E um fator que complica é o fato de que, muitas vezes, se abrir sobre uma dificuldade ou trauma é abrir espaço para ser zoado, e não acolhido. “Sofrer calado e sozinho parece, portanto, a única opção viável para eles”.
Para o psicólogo e terapeuta de casais Elídio Almeida, a solidão masculina também é resultado de uma crença histórica. “Por gerações, os homens foram ensinados a acreditar que nunca estariam sozinhos. Sempre haveria uma mulher disposta a estar ao lado deles em uma relação conjugal, muitas vezes de subserviência. Essa convicção, sustentada por séculos de normas culturais e sociais, criou uma falsa sensação de segurança afetiva.”, diz.
Esse raciocínio, no entanto, já não corresponde à realidade. Mulheres cada vez mais se recusam a sustentar relações desiguais, e homens que não conseguem se adaptar acabam enfrentando o isolamento. “Vejo no consultório pacientes que insistem em papéis arcaicos e não conseguem manter relações amorosas. Esse é um dos fatores que explica o crescimento de grupos como os incels, homens ressentidos que não se adaptam a um mundo mais igualitário”.
O desafio, afirma Elídio, é que “consciência não significa prática”. Muitos até entendem a necessidade de mudar, mas não estão dispostos a abrir mão de privilégios. “Existe uma resistência coletiva, sustentada pelo medo de perder poder, conforto e uma identidade construída sobre uma lógica de dominação”, ressalta.
Caminhos possíveis
É nesse cenário que muitas parceiras acabam assumindo o papel de educadoras emocionais. “Embora não tenham obrigação, muitas mulheres assumem essa função por serem as principais interessadas na mudança. Afinal, são elas que convivem na intimidade e estão sujeitas às violências e outros efeitos colaterais da restrição emocional desses homens”, explica Ismael.
No entanto, é insustentável manter uma sociedade em que homens e mulheres ocupem papéis tão diametralmente opostos dentro dos relacionamentos. E, se nada mudar, o prognóstico é preocupante e tende a ser desastroso, alerta Elídio. “Quando homens e mulheres são colocados em lados opostos, fragilizamos vínculos, aprofundamos desigualdades e comprometemos a construção de uma sociedade saudável”.
“A vulnerabilidade não deve ser vista como falha moral, mas como ponte para relações mais humanas”
Ele defende que a saída está principalmente no investimento nas novas gerações. “A história mostra que nenhum movimento social consistente se constrói rapidamente – exige investimento nas bases. Meninos e meninas precisam crescer compreendendo que devem caminhar juntos”, ressalta.
O também psicólogo Alexandre Coimbra Amaral reforça que não basta a conscientização individual. “A gente precisa de muitos espaços de diálogo onde os homens possam se reconhecer uns nos outros, ressignificar suas dores e se expressar de forma mais interdependente, sem acreditar no modelo hegemônico que conta a fake news de que somos racionais e independentes. Isso é só uma mentira”, diz ele, que há 8 anos conduz grupos terapêuticos, e gratuitos, de homens.
Para o especialista, a manutenção do modelo atual ameaça não só as mulheres, mas os próprios homens. “Quanto mais eles se isolam nessa vertente conservadora, mais aumenta o ciclo de violência, depressão masculina, ideação suicida e dificuldade de socialização.” E ele garante: a transformação só pode ser coletiva: “Precisamos de políticas públicas, instituições engajadas e rodas de conversa que furem a bolha algorítmica e criem espaços de encontro. A vulnerabilidade não deve ser vista como falha moral, mas como ponte para relações mais humanas”, enfatiza.