Onde ficam os amigos na sua lista de prioridades?
A gente aprende a valorizar o par romântico, a família, o trabalho… Mas e os amigos? Por que esse vínculo pode ser de “baixa manutenção” se os outros não? Tatiana Vasconcellos celebra a amizade como uma das potências da vida — e convida a repensar o espaço que damos a ela.
A morte da cantora e empresária Preta Gil no Dia do Amigo, 20 de julho, foi, pra mim, uma dessas coincidências que despertam sentimentos contraditórios. Logo ela, que parecia gostar tanto de viver, morrer aos 50 anos, depois de ter feito tudo o que uma situação privilegiada lhe permitiu para continuar vivendo com dignidade. E também é tão bonita a simbologia da morte nesta data, em se tratando de alguém que sempre viveu cercada de gente amada.
Amigos são as pessoas com quem, ainda muito cedo na vida, escolhi andar
Pra além de tudo o que Preta representou para nós, mulheres, e para a comunidade LGBT — que foi bastante coisa e tem de ser celebrado —, a despedida dela me fez voltar a lidar com um tema que vira e mexe me ronda desde que li Geni Nuñez pela primeira vez: a forma como organizamos os amores, a hierarquização das relações.
Você estabelece algum tipo de escala de importância? Por exemplo: primeiro meu companheiro, depois meu trabalho, em seguida minha mãe… Calma, eu não sou missionária do amor livre nem da não monogamia, apesar de adorar discutir teorias (que, na prática, sabemos, são outros quinhentos). Mas… Onde ficam os amigos? Em que lugar você os coloca? Que tipo de relação você cultiva com eles? Como você vive com eles? Você vive com eles?
Talvez seja narcisismo (agora tudo é narcisismo, todo mundo que escreve de si é narcisista?), mas confesso: me projeto um pouco nesse jeito da Preta de estar frequentemente em bando. Ela era uma mulher que levava a vida que queria. A despeito do que disseram às mulheres que era pra fazer, ela fez tudo o que quis. E os amigos eram tão prioritários que estiveram com ela até o fim.
Nasce, cresce, se reproduz e morre.
Pra isso que fomos feitas?
Nã nã ni nã não.
Nasce, cresce, faz o que quiser e morre.
Faz o que quiser com quem? Ora, com os amigos, claro. Amigos são as pessoas com quem, ainda muito cedo na vida, escolhi andar. Pra ter por perto, dividir intimidades, experiências inesquecíveis, conquistas secretas e públicas, emocionais e materiais, os perrengues e as durezas. As pessoas pra quem procuro estar disponível (inclusive emocionalmente), pra quem corro quando o bicho pega e a quem jamais terei “obrigadas” suficientes. São as relações mais bonitas, desafiadoras e confortáveis que estabeleço na vida, pelas quais me reconheço e posso ser melhor. Pretendo seguir assim até o fim dos meus dias.
Relações dão trabalho, sabemos. Por isso, sou contra o movimento de “amizade de baixa manutenção” que tem me impactado vez ou outra na internet. Como é isso, gente? Fica um tempão sem saber ou ver o outro, sem fazer UM movimento, não liga, não encontra, vai acompanhando no Instagram e tá crente que isso é amizade. Talvez a “amizade” acabe, né? A relação se constrói ao se relacionar; acompanhar amigos no Instagram é outra coisa.
Uma das maiores entusiastas das amizades femininas que eu conheço, e fundadora da plataforma Lúcidas, que promove amizade entre mulheres, Larissa Magrisso diz que não tem muito jeito de viver assim com “baixa manutenção”, não. Tudo bem, o tempo anda escasso, somos adultos tentando sobreviver ao pós-capitalismo, cheios de compromissos insuportáveis numa lógica de produção enlouquecedora. E, sim, temos também de encontrar espaço e tempo de qualidade para os amigos, inclusive porque essa convivência faz com que as coisas fiquem menos penosas.
Mãos amigas que estão sempre por perto para segurar as minhas
Relacionamento de baixa manutenção… Se não estamos falando de um cacto, que precisa de muito pouca rega, as relações humanas não sobreviverão a tempos prolongados de falta de cuidado. Você deixa o seu relacionamento amoroso sem manutenção? Ou a relação com a sua família? Então, por que faria isso com os amigos?
A psicanalista e estudiosa do amor Carol Tilkian, num comentário no Estúdio CBN – programa que apresento –, disse que uma característica das relações de amizade é que, em geral, não há fusão entre as pessoas. Apesar de acreditar que relações de amizade também podem ser problemáticas e ter traços tóxicos, ouvi tudo com muita atenção, vestindo todas as carapuças de quem gosta de cultivar essas relações: “talvez seja mais fácil se vulnerabilizar e se abrir, dizer quando está triste, quando precisa dos amigos, deixar isso claro, pedir ajuda, pedir socorro”.
Quando Carol chega nessa parte, uma ouvinte reage: “Pedir ajuda pode ser muito difícil para quem foi criada para resolver a vida e não depender de ninguém”. Leio em silêncio. Em seguida, a ouvinte manda outra mensagem: “Eu não fui educada a pedir ajuda, muito pelo contrário, fui criada para ser ‘forte’ e aprender a me virar sozinha em muitas situações. Hoje faço eu mesma muita coisa, pois não acho que terei ajuda”.
Você se identifica? Imagina quantas de nós. Agora pensa: quão mais confortável é ser frágil com os amigos, a quem confiamos a delicadeza de tratar com cuidado as nossas feridas, em relações nas quais a profundidade é possível sem perder as bordas da integridade ao compartilhar de si. Isso é bonito demais! Por que não ser essas as principais relações que construímos ao longo da vida? Quanto da sua vida você tem compartilhado com os seus amigos?
Preta Gil me inspirou e passo adiante: preserve, alimente, desenvolva, viva com os seus amigos, faça novos. Vamos pensar e discutir a hierarquia silenciosa que estabelecemos nas relações e segundo a qual costumamos organizar a nossa forma de viver. Relações de amizade bem nutridas têm potencial para serem as mais saudáveis e duradouras das nossas vidas.
No momento em que você lê este texto, devo estar acompanhada de amigas muito importantes pra mim. Algumas antigas, outras mais recentes, com quem compartilho a alegria (e o nervosismo) de colocar um livro no mundo, durante o evento literário que frequento há 15 anos. Mãos amigas que estão sempre por perto para segurar as minhas: amparar, acarinhar, bailar ou segurar um drink.
