Tatiana Vasconcellos reflete sobre a cultura do cancelamento - Mina
 
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Nós queremos sangue ou grandes transformações?

O tribunal da internet trabalhou dobrado neste começo de 2025, já que os absurdos da realidade não deixaram barato. Mas pra onde estamos indo?

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Karla Sofia Gascón, a primeira atriz transgênero a ser indicada ao Oscar, teve publicações preconceituosas reveladas por uma jornalista nos EUA e passou a ser duramente criticada nas redes sociais. Nas postagens resgatadas, ela fala das políticas de diversidade da Academia de Artes de Hollywood, do islã, e de George Floyd, o homem negro que foi morto depois de ser sufocado por um policial branco nos Estados Unidos. A atriz espanhola excluiu sua conta e se desculpou: “Quero reconhecer a conversa em torno de minhas postagens anteriores nas redes sociais que causaram dor. Como alguém de uma comunidade marginalizada, conheço muito bem esse sofrimento e lamento profundamente aqueles a que causei dor. Toda a minha vida eu tenho lutado por um mundo melhor. Acredito que a luz sempre triunfará sobre as trevas“. 

Como temos elaborado nossas dores na veloz era das redes sociais? 

Também recentemente a atriz Fernanda Torres teve um episódio do passado relembrado nas redes: uma cena de um programa de TV em que ela interpreta uma empregada doméstica com o corpo pintado de preto, em 2008. O “black face” era usado por atores brancos para interpretar personagens negros no século 19, reforçando estereótipos e a ridicularização. Fernanda se desculpou assim: “Naquela época, apesar dos esforços dos movimentos e organizações negras, a consciência sobre a história racista e o simbolismo do blackface ainda não havia alcançado o entendimento do público geral no Brasil. Graças a uma melhor compreensão cultural e conquistas importantes, embora incompletas, neste século, está muito claro agora em nosso país e em todos os lugares que o blackface nunca é aceitável”.  

Um pouco antes desses casos, boa parte do mundo cultural/jornalístico se viu às voltas com 15 personagens do mercado editorial envolvidos numa história de abuso cometida por um deles contra a ex-companheira, 14 anos atrás. A publicidade da história deu a eles a oportunidade de refletir abertamente sobre o ocorrido, reconhecer costumes machistas, ter consciência da necessidade de mudança, se comprometer com ela e, eventualmente, se desculpar. Nem todos parecem ter feito esse caminho.

Boas e longas conversas têm me feito pensar:

– Quantos aspectos podem ter uma mesma história?

– Que histórias são protagonizadas por pessoas cheias de emoções e heterogeneidades?

– Para sempre teremos de nos haver com nossas pegadas e registros?

– Como temos elaborado nossas dores na veloz era das redes sociais?

– De que maneira temos lidado com isso coletivamente?

Todos nós fazemos e falamos coisas das quais nos arrependemos ou nos envergonhamos. Coisas que passam a não condizer mais com quem vamos nos tornando. É comum mudar de opinião, porque o tempo passa, o mundo felizmente anda pra frente, e muitos de nós (lastimavelmente nem todos) também evoluímos. Faço esse raciocínio sem deixar de considerar que essas falas e ações do passado tenham ferido pessoas. 

Veja, quero tentar observar a complexidade das coisas e fugir da armadilha de recorrer ao “identitarismo”, como parece andar em alta entre alguns críticos – que, ironicamente, são super identitários ao criticar os que chamam de identitários. À medida que a sociedade avança cultural e legalmente para proteger grupos de pessoas que são marginalizados, os comportamentos que há cinco, dez ou 14 anos podiam soar inócuos ou apenas bobos (apesar de já serem eticamente condenáveis) hoje são inadmissíveis e podem até ser crimes previstos no código penal. Isso porque ao longo do tempo a sociedade foi entendendo, baseada em dados estatísticos de realidade e muita luta, que determinados comportamentos prejudicam, violentam, destroem a vida e até matam pessoas  – pessoas mulheres, pessoas lgbtqiap+, pessoas pretas.    

É adequado analisar acontecimentos passados a partir do atual estado das coisas? 

Como lidar, então, com a eventual retomada de algo nocivo que tenhamos dito ou feito há cinco, dez, 14 ou mais anos, quando as dinâmicas vigentes no mundo eram outras? Quando os avanços ainda não haviam chegado? Ainda que, repito, a distância temporal não altere os fatos e não deva ser usada como desculpa para diminuir o sofrimento de ninguém. Fica a pergunta: é adequado analisar acontecimentos passados a partir do atual estado das coisas? 

Não me parece. Por outro lado, ignorar a gravidade de falas e ações não exime o autor do mal que elas tenham causado. Assim, pedir desculpas sinceras me parece algo correto e elementar, quando o sujeito se dá conta verdadeiramente de que fez merda. De que não foi legal. De que determinadas condutas fazem parte de um caldo de cultura embebido em preconceitos e que essas atitudes têm impactos reais, e muitas vezes graves, na vida de outras pessoas. Mas tem que se dar conta. E a partir de uma nova consciência, passar a agir de outro modo. 

É notória a diferença entre a manifestação de quem entendeu tudo isso e está procurando evoluir e de quem está mais preocupado com o que vão pensar, com o que parece, com a própria imagem. É gritante. Nesse sentido, muitos desses grupos ainda são o refúgio de quem continua agindo da mesma maneira. E, então, seguem reproduzindo comportamentos danosos. 

Quer ver? 

Na semana passada, veio à tona mais um caso de cyberbullying envolvendo dezenas de alunos do ensino médio de uma escola de elite tradicional em São Paulo. Não faz tempo. Foi semana passada do ano de 2025. 

Adolescentes, quase todos meninos, foram autores de mensagens com ameaças de violência, inclusive sexual, com teor racista e homofóbico num grupo de WhatsApp. A escola suspendeu 34 garotos por tempo indeterminado, reuniu os pais emergencialmente e promete tomar medidas que têm a ver, sobretudo, com educação e conscientização de que determinadas condutas não são aceitáveis e podem até ser criminalizadas.

Nesse e em tantos outros casos, a punição pode ser bastante didática, inclusive como reparação ao mal causado a alguém. Mas a transformação social efetiva em direção à igualdade só virá com o entendimento do malefício de modos misóginos, homofóbicos, racistas, inclusive para quem os pratica. Jovens precisam ser orientados, adquirir consciência do problema e das consequências dele. Isso não está no Tiktok. Ao contrário, é a antítese completa da lógica da rede. 

Educar, transformar comportamentos individuais leva tempo, seja de jovens ou de adultos. Implementar novos processos em uma escola ou em uma empresa de modo a impulsionar essas transformações leva tempo. A melhor resposta não vem na velocidade das redes sociais nem da ânsia da massa digital por apontar culpados e exigir reparação imediata. Problemas complexos exigem muita disposição e comprometimento, inteligência, debates amplos e profundos e muita conversa dos envolvidos para encontrar soluções. O ambiente imediatista e doentiamente dopamínico das redes não proporciona nada disso. 

É fora do ambiente digital, portanto, que devemos tentar reconstruir as relações sociais, olho no olho, que foram e continuam sendo esfaceladas pelas telas. E considerar também, paradoxalmente, algo tão importante que é a urgência legítima dos que historicamente têm suas vidas impactadas por esses comportamentos.  

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