As customizações do amor como caminho para vínculos atentos e honestos
A partir de conversas, vivências e leituras, a jornalista Tatiana Vasconcellos discute arranjos afetivos não convencionais, os limites entre saber e sentir e os desafios de construir relações mais éticas.
Outro dia brincava com um amigo que vamos namorar livre em 2026. A gente namora – eu e ele. Ele namora quem quiser, eu também, e quem a gente namorar pode estar com quem quiser também. Vamos praticar a derrubada do conceito de exclusividade, reconstruir significados, atualizar as costuras e nos livrar das garras desse amor gostoso. Rimos muito e passamos a tarde discutindo teorias, possibilidades práticas e limitações, com base na nossa experiência e na realidade ao nosso redor.
Um dos desafios para quem se dispõe a tentar modelos não convencionais de relacionamentos é lidar com o paradoxo que uma amiga muito sabida chama de “saber não é sentir”. Novos parâmetros, que em tese podem ser mais saudáveis porque são mais colados ao que queremos, só são possíveis com uma espécie de reconfiguração mental e emocional – bem pra lá do que pregam as fantasias do amor romântico com o qual estamos acostumados.
“Para mulheres, a possibilidade de escolher com quem ficar é uma novidade recente”
“Após tantos séculos subjetivados nessas lógicas, é difícil desaprender esses roteiros que nos ensinam que prova de amor é abdicar de si, que é abrindo mão da nossa autonomia que demonstraremos o quanto cuidamos, amamos e nos importamos com o outro”, diz a psicóloga e ativista guarani, Geni Nunez, em Descolonizando Afetos (Ed. Paidós).
Por isso, agir de acordo com o que se acredita pode ser bem difícil. Em vez de se basear na concorrência, na disputa, na rivalidade, no conceito de dividir uma pessoa (ou mais), o desafio é desierarquizar as relações e dar contorno para cada uma delas existirem todas e completamente ao mesmo tempo em seus valores absolutos. Afinal, a gente não divide as nossas pessoas com o mundo? Filhos, amigos, irmãos, companheiros, companheiras têm vínculos que se dão em dimensões que não nos dizem respeito, certo?
“Em um sentido mais amplo, todo mundo que ama mais de uma pessoa ao mesmo tempo em sua vida, quer esse amor envolva ou não práticas sexuais, poderia ser descrito como alguém ‘poliamoroso’, se considerarmos o amor algo que vai além da dimensão romântica e/ou sexual” diz outro trecho do livro.
Mas saber não é sentir. E o que fazer com um eventual ciuminho que sobra aqui e ali? Existe reconfiguração neuroplástica possível para nos desprender sentimentalmente das lógicas do amor romântico?
Um homem heterossexual me diz que não segurou a onda ao se envolver com uma mulher que tinha um relacionamento longo e não-exclusivo com o marido, apesar de eles terem se apaixonado loucamente. No fim, depois de um tempo, mesmo disposto a tentar desenvolver um romance, ele percebeu que tinha vontade de estar só com ela. Mais importante, não se desapegou da ideia (de fundinho machista) de que ela devesse querer estar só com ele. Mas ela não queria. E a história foi interrompida.
Um outro amigo que está há anos numa relação, que agora é não-exclusiva, me conta que está muito animado com uma nova pessoa na mesma medida em que está aflito em manejar as coisas de modo a não ferir susceptibilidades de ninguém. Ao menos parece estar implicado.
Enquanto homens estão sendo convocados a praticar velhos hábitos de novos jeitos (inclusive os monogâmicos), chamados a agirem com honestidade e responsabilidade com menos moralismo e mais cuidado, para mulheres, a possibilidade de escolher com quem ficar é uma novidade relativamente recente. Até outro dia, e ainda hoje em algumas culturas, é o pai quem escolhia o homem com quem a filha deveria se casar. De preferência pra sempre.
Até hoje só é possível se vincular legalmente a uma pessoa por vez no Brasil. Isso sem mencionar a “síndrome da escolhida”, ainda tão incutida e presente nas fantasias femininas, o que leva a uma concorrência estúpida e a permanência em relacionamentos ruins.
A primeira pessoa que li e ouvi sobre os problemas da monogamia, sobretudo para as mulheres, novos arranjos de relacionamentos foi a antropóloga Regina Navarro Lins, que esteve no Estúdio CBN, programa que apresento, quando lançou o Novas Formas de Amar (Ed Planeta), em 2017. Faz tempo que o assunto me interessa, assim como imagino que deva instigar a todo mundo que não se sinta exatamente contemplado com o que é praticado e, por que não, exigido de nós. Mulheres e homens.
Recentemente, ouvi a escritora Mariana Salomão Carrara falando sobre a história da família dela e a família que ela formou com um companheiro e uma amiga, fugindo das regras da monogamia. Questionar o motivo dessas regras e ir compreendendo “o tamanho da não-monogamia” foi algo que ela foi vivendo, sem embasamento teórico, e experimentando depois do fim de um relacionamento. Me identifiquei na parte em que ela diz que desde nova considera os vínculos com os amigos prioritários, tão ou mais importantes do que com um cônjuge, que seria a “relação fundamental”.
Não sei se serve pra mim, não sei se meu emocional seria capaz, não sei se gostaria. Mas que satisfatório é saber de tantos jeitos diferentes e possíveis de viver o amor e praticar famílias.
Depois de uma fase bastante pessimista, tenho ouvido histórias surpreendentes de mulheres, entre 30 e poucos e 50 e poucos anos, que aparentemente têm tido bons encontros. Mulheres que se veem confrontadas com seus traumas, pré-conceitos e medos, mas também satisfeitas por protagonizarem novas histórias amorosas na medida em que dão conta, considerando que estabelecer vínculo emocional com um homem exige uma boa dose de coragem (confiar em homem é um ato de coragem e fé na vida, em vista da realidade medida pelas estatísticas escabrosas).
Caras que ouvem e prestam atenção, tratam fragilidades com delicadeza e têm disposição para sair do velho roteiro do macho. Se colocam a provar a vida real conforme o corpo sente, em vez de perseguir um ideal de comportamento supostamente correto (ou de se debater em “os homens estão perdidos, socorro, feministas”).
Quem sabe as customizações sejam caminhos para construir vínculos baseados em observação atenta dos quereres e das alternativas possíveis de vivê-los, para lá das convenções. Devagarinho, um dia de cada vez, sem linha de chegada para cruzar. Na contramão dos velozes, furiosos e performáticos tempos vigentes.
Não parece um processo sem trancos, mas pode ter seus sabores. Além do mais, desconheço relação de qualquer instância que se faça como mágica e não exija lapidação. Combinados e recombinados. Ajuste. Afinação. Enquanto estiver bom pra gente.
Para ler:
Não fossem as sílabas do sábado, Mariana Salomão Carrara, Ed. Todavia
Novas Formas de Amar – Regina Navarro Lins, ed Planeta.
Descolonizando Afetos – Experimentações sobre outras formas de amar – Geni Nunez, Ed. Paidós
Para ouvir:
Isso não é uma sessão de análise, de Vera Iaconelli, com Mariana Salomão Carrara.
Menina Amanhã de Manhã – Tom Zé
Para ver:
Brigite Vassalo e Geni Nunez na Flip, 2024.