A vida continua depois da violência. A vida de quem? Continua como? - Mina
 
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A vida continua depois da violência. A vida de quem? Continua como?

O medo da violência atravessa a rotina de quem vive em São Paulo. Falar sobre isso é uma forma de se fortalecer — e de acolher quem ainda não consegue colocar em palavras o que sente. Em sua coluna, Tatiana Vasconcellos faz um desabafo coletivo.

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Antes mesmo de chegar, eu sabia que tinham matado uma pessoa na rua onde eu trabalho. 

Ironicamente, há dias eu vinha planejando abordar jornalisticamente a violência urbana — os medos, os traumas, as mudanças de comportamento. E fizemos isso no rádio bem no dia em que mataram um cara na esquina do trabalho. Serviu de alívio. Conversar ajuda a expurgar as emoções, ainda que a situação seja tão complexa que não tenha solução mágica, como costumam nos oferecer nessas horas.

Tava todo mundo assustado. Apesar de lidar com a violência diariamente há muitos anos no noticiário, é sempre impactante quando ela chega assim tão perto. Dois homens em uma moto. Um deles desceu para roubar um grupo que ia ou voltava do almoço. Um carro bateu na moto onde estava o outro, ele levantou e disparou 3 tiros no motorista do carro. O homem morreu. 43 anos. Trabalhava no prédio ao lado do meu. 

O cidadão de bem está reagindo, contra todas as recomendações da polícia, e morrendo com um tiro no peito

Mataram o cara no mesmo lugar em que uma amiga sofreu uma tentativa de assalto, um ano atrás — só não consumado porque ela teve a sorte que o cara não teve. E escapou.

Mataram um homem na esquina do prédio onde trabalho, no mesmo dia em que as estatísticas mostraram que o bairro bacana do outro lado da ponte foi líder em assaltos e roubos este ano. Foram 12 por dia. Doze. Por dia. Um estabelecimento foi assaltado duas vezes em quatro meses. Pessoas foram baleadas e mortas. Armas. Tiros. Gente que saiu pra tomar café da manhã num sábado de folga, tomou um tiro e morreu. A violência como paisagem cotidiana na descolada zona oeste de São Paulo, em pleno 2025. Barbaridade.

Tava todo mundo assustado. Conversando sobre os impactos da violência urbana na rotina e na saúde. A banalização das armas de fogo. O medo, a vulnerabilidade, a estupidez, o valor da vida. Na volta pra casa, tirando o assombro que a rigidez do corpo denunciava, parecia que nada tinha acontecido. A vida seguia cotidiana e ordinariamente: o semáforo continuava funcionando num tempo curto demais pra travessia dos pedestres, os trabalhadores da construção civil a caminho do metrô, o trânsito intenso de veículos e os ônibus grandes demais para as curvas que tinham de fazer.

Quem poderia imaginar que mais armas em circulação — uma facilitação do governo do ex-presidente, hoje inelegível e réu por tentativa de golpe de Estado, Jair Bolsonaro — resultaria em maior violência urbana, não é mesmo? “O cidadão de bem tem o direito de se defender.” O cidadão de bem está reagindo, contra todas as recomendações da polícia, e morrendo com um tiro no peito. Até onde vamos com isso? Pra proteger um celular. Uma aliança. No que estamos nos transformando? 

Mataram um cara na rua do meu trabalho. O bairro bacana ali do lado é líder nos índices criminais de assalto. Armas, tiros, mortes de pessoas comuns em suas rotinas, na maior cidade da América do Sul. Da ponte pra lá, a polícia segue matando os suspeitos de sempre, nos CEPs de sempre, e já não tem mais vergonha de arremessar gente inocente viaduto abaixo, sadicamente, permeada pelo preconceito racial de sempre.

Quem está seguro? Onde se está seguro? Se ninguém está seguro, menos seguras ainda estão as mulheres. Além de tudo, sujeitas a caprichos, perseguição e morte por homens que elas rejeitam. Perseguidas, sequestradas, ameaçadas, esfaqueadas como punição por não os desejarem. Estupradas mesmo depois de dizer “não quero” onze vezes. ONZE VEZES! O que é isso? O que está acontecendo? Que merda é essa?

A polícia identifica e prende os autores de violência contra mulheres, enquanto os adolescentes são cooptados online, ensinados a culpar e odiar as garotas por questões que são deles. A polícia atira na periferia, a periferia atira na burguesia. Morrem policiais e inocentes pretos na periferia, trabalhadores brancos nos bairros chiques. E a vida continua? A vida de quem? Continua como? 

Seguimos louvando Deus, o homem, o dinheiro, as armas, a punição e a morte, sem atuar sobre as causas da violência que continua nos corroendo e nos matando. Um looping melancólico e sem perspectiva de melhora.

Pânico em essepê. 

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