Vera Iaconelli: “Psicanálise não é mágica. Depende de ética, método e, sobretudo, do paciente”
Em “Análise”, seu mais novo livro, a psicanalista costura vivência pessoal e experiência clínica para desmontar idealizações sobre o processo analítico, apontando seus limites, suas potências e o desconforto inevitável de se reconhecer parte do próprio sofrimento
A psicanálise pode até parecer uma prática distante para alguns. Aquela imagem de consultório silencioso, divã e palavras difíceis. Mas conceitos como ego, ato falho, recalque e desejo — trabalhados por Freud e por aqueles que seguiram seus passos — circulam amplamente na linguagem cotidiana, revelando sua presença na forma como a sociedade pensa e se organiza.
Nos últimos anos, com o debate sobre saúde mental em alta, ela ganhou ainda mais destaque. Estar em análise virou quase sinônimo de estar “bem resolvido”. Como se fazer psicanálise fosse um selo de evolução emocional. Preocupada com essa ideia — da qual reconhece ter participado como figura pública —, a psicanalista Vera Iaconelli quer romper com esse imaginário em seu novo livro, “Análise”, lançado na terça-feira (22) pela editora Zahar. “Tento mostrar que os efeitos analíticos não são mágicos. Eles dependem de uma ética, de um dispositivo específico e, sobretudo, do paciente”, afirma.
Colunista da Folha de S.Paulo, podcaster, presença constante na mídia e autora de títulos como “Manifesto Antimaternalista” (Zahar, 2021) e “Criar filhos no século XXI” (Contexto, 2019), ela agora dá um passo além: entrelaça sua história familiar ao seu percurso pessoal no divã e na prática clínica, propondo um mergulho íntimo e relevador no que significa sustentar o processo analítico — sem atalhos e para além das idealizações.
“A análise nos ajuda a parar de apontar o dedo para si mesmo e para os outros”
É também um livro que cutuca a onça com vara curta: revisita as ficções que sustentam o ideal de família, questiona os silêncios herdados, a violência “pelo bem da criança”, os desejos aprisionados em nome da harmonia. Ao tornar visível sua travessia como filha, mãe e paciente, oferece ao leitor a chance de se reconhecer e, quem sabe, tomar as rédeas da própria história. Porque, como escreve na obra: “Cada mulher que dá um passo em direção ao próprio desejo oferece uma chance para as demais.
Em entrevista à Mina, Vera retoma essas questões. Com um olhar afiado e generosidade, ela fala sobre o que a psicanálise ainda pode oferecer num tempo de tanta pressa e tanto mal-estar — e como ela pode abrir espaço para formas mais honestas de estar no mundo.
Existe toda uma mítica em torno da figura do analista (enigmático, sábio, inacessível, etc), por mais que ele tenha uma presença pública, como é o seu caso. Em “Análise”, você se apresenta de um jeito diferenciado, dividindo a intimidade da sua família entrelaçada com seu processo como analisanda. O que espera com isso?
Tem duas questões aí. A primeira é pessoal: eu senti uma necessidade grande de escrever esse livro. Tem a ver com meu processo analítico, com passar da oralidade para a escrita e elaborar questões íntimas. A segunda tem a ver com o trabalho que venho fazendo há tempos de divulgar a psicanálise, sempre com a preocupação sobre qual psicanálise estamos transmitindo. Gosto da ideia de que a psicanálise é potente, tem alcance, mas não é uma panaceia.
No livro, tento mostrar que ela fez uma diferença crucial na minha vida — e na de muitos pacientes —, mas também pode não dar certo, pode não ser boa. É um esforço de colocá-la em seu devido lugar. Tem uma certa iconoclastia aí, mas também um enorme respeito pelo dispositivo analítico. Quis lidar com os efeitos colaterais da psicanálise ter vindo a público de forma inflacionada e idealizada. Reconheço que eu mesma, com a minha figura pública, contribuo para isso. Existe esse paradoxo. Tento mostrar que os efeitos analíticos não são mágicos. Eles dependem de uma ética, de um dispositivo específico, e, sobretudo, do paciente. Tentei mostrar um pouco disso tudo.
No livro, você questiona a ideia de “pessoa analisada” como alguém bem resolvido e emocionalmente equilibrado e propõe outra, de alguém inseguro, que dá vexame. Qual é a força de olhar por esse ângulo?
Acho que o grande saldo de uma análise não é virar um Buda iluminado ou alguém acima da humanidade. Ao contrário: é reconhecer o que há de extremamente humano em nós e assumir isso com ética. Assumir os vexames, as responsabilidades, sair da defensiva, o que é muito difícil, porque a gente preza muito pela nossa autoimagem, essas feridas narcísicas doem muito. Mas é isso: parar de se levar tão a sério, deixar de defender o indefensável, se responsabilizar pelo que é seu. Não para se fazer vítima do inconsciente, mas sujeito dele. A gente não vai deixar de ser mesquinho, tolo, exagerado – ou qualquer coisa que você possa achar constrangedora no seu jeito de ser – mas pode, ao menos, assumir tudo isso. Parar de apontar o dedo para si mesmo e para os outros.
“Não é que a psicanálise demora, é que as questões que ela trabalha levaram anos para se formar”
A gente vive um momento em que o sofrimento psíquico está no centro do debate público com uma ânsia grande por soluções rápidas. A psicanálise não se propõe a isso – no livro, você até brinca que não é Procon. O que ela tem a contribuir nesse cenário?
Mostrar o curto-circuito que é esperar soluções fáceis para a existência humana já é, em si, uma contribuição. Criar essa expectativa de resposta rápida gera ainda mais sofrimento, porque há algo no sofrimento humano que é irredutível e nem todo sofrimento leva ao adoecimento. O adoecimento é o fracasso em lidar com o sofrimento humano. Quando tentamos cortar caminho — tomando um remedinho para não sentir a morte de alguém, nos alienando nas redes sociais, evitando pensar, bebendo algo para esquecer — acabamos achatando a experiência. É um barato que sai caro. Quanto mais evitamos o sofrimento, menos recursos temos para enfrentá-lo e mais suscetíveis ao adoecimento ficamos.
Além disso, negamos que o nosso estilo de vida é profundamente adoecedor. Mesmo com relações afetivas boas e uma vida aparentemente “bem-sucedida”, estamos inseridos numa lógica performática, produtivista, exibicionista, com pouca intimidade real. Tudo isso adoece. E aí entra uma característica importante da psicanálise: ela não se dá só no divã, ela também presta o serviço de pensar a cultura e denunciar esses aspectos. Hoje vivemos uma cultura adoecedora, que oferece soluções igualmente adoecedoras, apenas para adaptar o sujeito e fazê-lo voltar logo à produção. Mas o que colhemos disso é uma população inteira deprimida.
Ainda existe uma resistência coletiva à psicanálise, que muitas vezes é vista como enrolação por não oferecer as soluções imediatas. Seu trabalho já atua nesse campo, mas o livro também tem esse propósito? Ao compartilhar histórias pessoais, a intenção é aproximar a psicanálise das pessoas pelo emocional, criando identificação?
Ah, é legal você perguntar isso assim. Eu, pessoalmente, não tenho nenhum interesse em fazer propaganda da psicanálise. Pelo contrário, gostaria de desinflacionar o que se supõe dela. Ela tem limites, claro: é um processo demorado, porque o psiquismo humano não mudou a sua estrutura. A gente leva tempo para ter insights, aceitar. Não é que a psicanálise demora a dar resultado, é que as questões que ela trabalha levaram anos para se formar. Isso não invalida outras formas de psicoterapia, nem o uso de medicação. Muitos pacientes já chegam medicados. Mas esperar que a psicanálise se adapte à pressa da época é negar que ela busca outra coisa. E essa imediatez é uma das coisas que nos adoecem.
Também é importante lembrar que a escuta psicanalítica pode ter efeitos fora do consultório tradicional. Há analistas trabalhando em hospitais que veem um paciente poucas vezes e, mesmo assim, a qualidade da escuta produz efeitos. Pode não ser uma análise de anos, mas pode gerar um insight e abrir perspectivas. Advogados, professores, médicos, artistas… Muitos encontram nela uma nova forma de pensar suas práticas. E isso tem efeitos reais: mais escuta, mais humanidade, mais atenção ao outro. Nem tudo acontece na clínica particular, mas o que acontece ali exige tempo. Não dá para transformar isso em resultado imediato só porque o neoliberalismo exige pressa.
No livro, você destaca que se reconhecer como parte do próprio sofrimento é fundamental para iniciar uma análise. Por que é tão difícil fazer esse movimento — e o que ele exige de quem decide começar?
A psicanálise é diferente de procurar um advogado, um padre, uma amiga. Ela parte da pergunta: “o que esse sofrimento tem a ver comigo?”. E isso fere o nosso narcisismo. É muito mais fácil dizer que o inferno são os outros do que se perguntar qual a nossa participação naquele casamento difícil, da dificuldade de se despedir de um ente querido, naquele impasse. O que está me emperrando? Essa implicação remete à nossa história de vida. E é aí que a análise começa a operar: quando a pessoa começa a entender sua parte na violência que sofre, o que não significa negar o sofrimento ou a violência em si. Mas é reconhecer que talvez ela esteja capturada de um certo modo por aquilo. E que, ao se implicar, pode mudar essa trajetória. A pergunta vira: onde estou capturado nessa história? É isso que pode abrir caminho para não ficar preso nessa violência, nesse processo de luto…
“O amor surge na diferença entre o que você espera do outro e o que o outro é”
Você também mostra como as nossas vivências em família na infância impactam em quem nos tornamos, como agimos e como nos sentimos. Fala-se muito do impacto do trabalho na nossa saúde mental, mas a família ainda é protegida do debate. Por que isso acontece?
Porque a família, como a conhecemos hoje — essa estrutura burguesa e moderna — é fechada em si mesma. Ela se organiza com o objetivo de proteger patrimônio, herança e descendência. Funciona quase como uma pequena empresa, competindo com outras famílias para ver quem ganha. Isso a torna cheia de segredos, rígida, voltada para dentro. É bem diferente de outros modelos, como o de povos indígenas, em que todos são parentes dentro de um mesmo grupo. Nos Krenak, por exemplo, todo mundo é Krenak, não existe essa ideia de consanguinidade, essa família embotada em si mesma. Já na nossa cultura, que opera numa lógica europeia, prevalece a ideia de que o outro é uma ameaça e isso reforça a paranoia, os segredos, a disputa por espaço público e o fechamento. Vamos nos proteger, nos separar dos vizinhos. Muros altos. Isso se cria à ideia de família como “nós contra a rapa” e, por isso, ela ainda é protegida do debate. As pessoas se fecham em pequenos feudos. Tudo muito diferente do que os portugueses encontraram quando chegaram aqui.
O processo analítico ajuda a desalienar essa lógica. Esses laços são importantes, mas não podem aprisionar o sujeito nem o desejo dele. É preciso que as famílias sejam mais arejadas, nas quais a descendência possa se emancipar. A família pode ter uma religião e o filho outra. Uma família heteronormativa pode ter uma filha trans. Isso só é possível se houver um entendimento de que a diferença não significa perder tudo. Quanto mais saudável a família, mais ela suporta a diferença sem romper os laços e, às vezes, esses laços até se fortalecem. Porque o amor surge na diferença entre o que você espera do outro e o que o outro é. Se o outro for só o que você espera, é puro narcisismo. É porque o outro não é o que você espera e você continua a amá-lo que você pode chamar isso de amor. A família exige algum grau de alienação, mas o sujeito precisa poder se separar. Quando sente que isso não é possível, ele se apequena, se anula, com medo de ser expulso do núcleo familiar. Às vezes, a rebeldia aparece justamente quando a criança ou jovem sabe, no fundo, que é amado o suficiente para que aquele choque seja absorvido na diferença.
É possível acreditar em mudanças coletivas rumo a famílias mais arejadas? Ou, diante do cenário atual, resta a cada um fazer seu próprio processo para, quem sabe, transmitir para as futuras gerações?
Olha, o tecido social é muito heterogêneo — tem de tudo. Desde as trade wives, que querem resgatar modelos antigos de família (e, se isso funciona pra elas, sorte a delas, espero que os maridos não as abandonem no meio do caminho), até trisais e famílias em que amigos são considerados parte do núcleo familiar. Essas formas sempre existiram, mas agora estão sendo nomeadas, discutidas, reconhecidas. Já não são mais proscritas. Acho que, sim, estamos caminhando para laços mais significativos, menos presos à ideia da família burguesa moderna, baseada em patrimônio, consanguinidade e herança. Esse ideal vem se esgarçando, dando lugar a formas mais diversas e menos rígidas. É claro que esse discurso também pode ser capturado pelo neoliberalismo — e é. Mas, ainda assim, ele bagunça um pouco o coreto dessas estruturas tradicionais. E isso já é alguma coisa.