A mentira é um instinto de sobrevivência disfarçado de vilã - Mina
 
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A mentira é um instinto de sobrevivência disfarçado de vilã

O que chamamos de sinceridade absoluta raramente existe; o que chamamos de mentira é, muitas vezes, defesa. A vida social se constrói nesse meio-fio, como investiga a criadora de conteúdo e atriz Vic Brow

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Vamos começar assim, sem rodeios: desconfio de quem diz que não mente. A verdade é a grande pesquisa da minha vida. Ou será que é a mentira? Quando eu tinha uns doze anos, a professora de artes propôs que a turma se dividisse em grupos para criar um produto com alguma efetividade. O meu grupo criou um refrigerante chamado Sincere: ao digerí-lo, a pessoa ficava por algumas horas sob um efeito que não permitia que mentiras fossem proferidas. Não preciso dizer quem foi a roteirista, né? Na época, eu achava que a verdade era o ponto mais alto da evolução humana. Hoje sei que, na verdade, é a mentira que nos mantém vivos.

“As pessoas não querem trocar ideias; querem eleger uma verdade e destruir o resto”

Cresci entre dois extremos: uma mãe física e um pai paraquedista. Metade do tempo com os pés fincados na lógica; a outra metade com a cabeça nas nuvens. A mesa do café era um coliseu filosófico onde o objetivo nunca foi vencer o debate. Era muito mais interessante construir, em conjunto, uma série de ideias contraditórias e opostas, sem o menor intuito de chegar a uma conclusão, uma resposta final, a maior das verdades. Até sair pra vida e descobrir que o mundo não é como a mesa de debates e cafés do lar dos meus pais.

As pessoas não querem trocar ideias; querem eleger uma verdade e destruir o resto. A mentira nasce do medo, e o medo é um alarme que o corpo toca pra dizer “não faça isso, você pode morrer”. Às vezes, não é a vida que está em risco. É o ego, a imagem, o afeto. Mas o corpo não distingue. O instinto só sabe berrar “perigo”. O resto é a gente fingindo estabilidade.

Um dia eu disse que todo mundo mente, só varia o grau de coragem para o que vai mentir. Silêncio. As pessoas têm uma fé religiosa na própria sinceridade. “Eu odeio mentira”, dizem, como quem confessa uma virtude. Todo mundo odeia mentira. É horrível quando você é a vítima da mentira. Mas sincero full time ninguém é.

A gente tem uma tendência a achar que as coisas pelas quais a gente mente são ok, porque a gente sempre se considera uma boa pessoa. E porque as nossas mentiras, pequenas ou grandes, estão no nosso controle e, de alguma forma, conversam com medos internos que estão confortáveis e não querem ser mexidos. Existe um choque quando a gente descobre que uma pessoa mente sobre algo que a gente jamais teria coragem de mentir, porque não se conecta com os nossos medos. Pra mim, é muito mais difícil perdoar uma mentira que eu não me imagino mentindo do que uma mentira sobre a qual eu me coloco no contexto e penso: ok, eu mentiria sobre isso também.

Mentir é humano; acreditar é quase místico. A gente confia nas pessoas não porque elas são confiáveis, mas porque não existe outra maneira de viver. Viver na desconfiança é como dormir de olhos abertos: você sobrevive, mas não descansa. Minha mãe, sábia e debochada, me disse uma vez: “Se o medo é de ser traída, imagina passar dez anos num relacionamento e ser traída só no último. Você gastou nove anos sofrendo à toa.” A frase me rendeu duas rugas de riso e o melhor conselho de vida que já recebi: sofrer por antecipação é fazer duplo estágio pra dor. Se a decepção não vier, você sofreu à toa; se ela vier, você sofreu em dobro.

Ser sincero o tempo todo também é outra armadilha. Tem gente que usa “minha sinceridade é a minha maior qualidade” como desculpa pra ser grosseira. Sinceridade sem vínculo é só invasão. Crítica sem convite é exibicionismo. E, sinceramente, eu desconfio de quem nunca mentiu, não pela moral, mas pela falta de imaginação. A mentira é o que tempera o realismo cru da convivência. Ela cria respiros entre o que somos e o que conseguimos admitir.

A verdade, por outro lado, é uma lâmina. Afia-se na faca da moralidade e, quando usada sem critério, corta tudo — inclusive quem a empunha. No fim, talvez o truque não seja escolher entre mentir ou ser sincero, mas entender o peso de cada palavra antes de colocá-la no mundo. Não se trata de enaltecer a mentira (nem faria sentido vindo de uma criança cientista com o sonho de lançar uma KS de 250 ml de Sincere), trata-se de reconhecer sua natureza. Mentir é indiscutivelmente feio, mas a perfeição moral é uma ficção ainda mais grotesca. Não há gesto mais honesto do que admitir nossas pequenas desonestidades. A confissão da mentira é, ironicamente, o ponto mais alto da verdade.

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