O que acontece quando a vida não deixa espaço para o devaneio?
A consultora criativa Thais Fabris conecta sono, descanso e imaginação como forças capazes de reorganizar o amanhã e avisa: A gente precisa se permitir sonhar.
Lançar um livro na Flip, trabalhar no Itamaraty, ter um escritório em Nova Iorque, não acordar na segunda-feira com crise de ansiedade, ter um impacto positivo no mundo. Os sonhos das mulheres para as quais eu dou mentoria de carreira são enormes. É lindo ver mulheres sonhando, mas, infelizmente, é incomum. Muitas até caem no choro quando a gente visita esse espaço dentro delas onde moram os sonhos. E por aí, você tem se dado espaço para sonhar?
“Sonho, seja ele dormindo ou acordado, tem tudo a ver com futuro”
Vivemos tempos ansiolíticos, em que as preocupações do dia a dia ocupam todas as nossas horas acordadas e invadem nossos pensamentos noite adentro. Os brasileiros dormem mal, 72% têm algum distúrbio do sono segundo a FIOCRUZ, e as mulheres dormem pior do que os homens. A privação do sono pode causar problemas de saúde física e mental e, além disso, atrapalha nossa capacidade de criar novas possibilidades para o amanhã. Sim, o sonho, seja ele dormindo ou acordado, tem tudo a ver com futuro.
Para a artista e ativista americana Tricia Hersey, conhecida como a Bispa do Descanso, nossa capacidade de sonhar foi roubada pela cultura da exaustão e precisa ser retomada. Isso vale principalmente para descendentes de povos escravizados. Ela diz que “houve um roubo do Espaço do Sonho. A nossa capacidade de sonhar, pausar e divagar foi substituída pelo sequestro do tempo, do valor próprio, da autoestima, da esperança e da conexão com nós mesmas e com os outros. Ao colocar as pessoas para dormir, nós as estamos despertando.” Ela ecoa bell hooks, para quem “A imaginação é um dos modos mais poderosos de resistência que pessoas oprimidas e exploradas podem exercer e utilizar.”
Monges budistas, iogues indianos, indígenas brasileiros ou norte-americanos: muitas culturas entendem que o sonho é um espaço de contato com outros mundos, onde se desenha o futuro. São povos que desenvolveram técnicas avançadas para o sonhar, como o pranayama e o shavasana da yoga ou os sonhos induzidos pela ayahuasca. Segundo o xamã Davi Kopenawa, “os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham consigo mesmos.” A própria definição da palavra um xamã vem de uma língua do leste da Sibéria, significando aquele que vê no escuro.
Mais recentemente, a psicanálise se debruçou sobre os sonhos. Em Freud, eles aparecem como expressões do inconsciente, onde desejos e conflitos se reorganizam, e como parte de um pensamento que ensaia possibilidades antes da ação. Nosso mundo interior, que guarda tudo aquilo que já fomos, reserva também a semente de tudo que ainda podemos ser.
Mais recentemente, a psicanálise se debruçou sobre os sonhos. Para Freud, “os sonhos são uma manifestação do nosso mundo interior, revelando nossos desejos, medos e conflitos mais profundos” e “o pensamento é o ensaio da ação.” Nosso mundo interior que guarda tudo aquilo que já fomos reserva também a semente de tudo que podemos ser.
Ficou provado, também, que sonhar ajuda a fixar o aprendizado do dia, trazendo aquela sensação de que acordamos sabendo fazer algo que não dominamos no dia anterior. Para o neurocientista Sidarta Ribeiro, “se a vigília é o tempo presente, ao transe onírico pertencem o futuro e o passado, tudo que não foi ou que ainda pode ser, o horizonte de futuros possíveis”.
Já dizia o samba enredo da Mocidade, “Sonhar Não Custa Nada: deixe a sua mente vagar, não custa nada sonhar, viajar nos braços do infinito onde tudo é mais bonito nesse mundo de ilusão”. Se por aí está difícil sonhar, saiba que essa capacidade pode ser exercitada. As dicas para acessar seu espaço de sonho passam por:
. Anotar os sonhos ao acordar, em um diário, treinando a atenção para o mundo interior e fortalecendo a memória onírica.
. Praticar o devaneio, sem telas ou estímulos, permitindo que a mente faça associações livres e ensaie possibilidades ainda não vividas.
. Meditar, criando silêncio interno para que desejos, imagens e ideias possam emergir sem controle ou cobrança.
. Brincar, como fazem as crianças, usando a imaginação para experimentar cenários e aprender com eles.
O mundo precisa urgentemente da nossa capacidade de imaginar novas possibilidades de ser e existir. Que a gente se permita sonhar e, sonhando, recupere as forças para realizar.