O que se perde e o que nasce quando a vida recomeça em outro país - Mina
 
Suas Emoções / Textão

O que se perde e o que nasce quando a vida recomeça em outro país

A experiência da imigração atravessa o primeiro romance de Fabiane Secches, mostrando como o isolamento, os encontros e a vida em outro país moldam a escrita e a identidade.

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Com um pouco mais de quarenta anos, Mariana deixa sua terra natal para viver em um país do Norte Europeu. Embora a proposta de trabalho tenha sido feita a seu companheiro, a ideia de se afastar das dores que a cercavam nos últimos tempos a deixou entusiasmada.

O casal não tem filhos. O marido é professor universitário e Mariana, bióloga animalista. Seu trabalho consiste em pesquisa e tradução, o que lhe possibilita trabalhar à distância. Está animada e esperançosa com a ideia da mudança. A companhia inseparável de seu cachorro, Quincas, garante que não se sentirá desamparada. Mas ele tem doze anos e, como Mariana, também está envelhecendo.

O que faria dela brasileira agora que já não vive no país?

Quando chegam ao novo país, é verão, com dias longos, claros e vibrantes. Mariana sente-se alegre e inundada pelas novidades. Mas, à medida que as estações do ano marcam a passagem do tempo, ela vai percebendo  que não se separou de tudo aquilo que a habitava, que não podemos deixar de nos levar conosco para onde quer que formos.

Cronologicamente, no romance “Ilhas Suspensas, acompanhamos um ano da vida de Mariana, o ano depois da mudança, de um verão a outro. Mas também mergulhamos no seu mundo interior, permeado de lutos e lembranças que ressurgem pouco a pouco, enquanto as dificuldades de viver em um país estrangeiro, em que sequer conhece o idioma, parecem intransponíveis. Por algum tempo, ela se empenha em falar com as pessoas em inglês, mas a comunicação é precária e frustrante, e o isolamento, inevitável.

Mariana enfrenta diversas formas de deslocamento, sendo o geográfico apenas a mais óbvia. Sente-se suspensa depois de perder a mãe e, quase que em seguida, também a sobrinha, após se afastar de vez da própria possibilidade de maternidade. Quem seria ela agora que deixou de ser filha, mas não se tornou mãe? E o que faria dela brasileira agora que já não vive no país: um documento, os elos trabalhistas, a nossa língua portuguesa? Essas são apenas algumas das muitas perguntas que Mariana se faz enquanto se sente submersa num processo inquietante de estranhamento.

A escrita do livro

Comecei a escrever esse livro em 2021, e desde a primeira versão, duas personagens importantes para o enredo e para a estrutura do livro eram imigrantes. O tema do deslocamento, naquela altura, já me comovia. A dificuldade de se despedir, não apenas de um país, com tudo o que isso representa, de bom e de ruim; a dificuldade de deixar para trás toda cultura e afeto que um idioma carrega consigo. 

À época, eu ainda vivia em São Paulo. Venho de uma família de imigrantes, como tantas no Brasil, e vinha fazendo leituras de romances, contos e ensaios sobre pessoas imigrantes, descendentes ou deslocadas. Há quase cinco anos, não imaginava que eu mesma me tornaria estrangeira. 

Em 2023, me mudei para a Alemanha, onde vivi por dois anos e, agora, há seis meses, me mudei de lá para a Espanha. As duas experiências têm sido bem diferentes entre si: o espanhol é um idioma familiar; o alemão é permeado de palavras que não me trazem qualquer sentido. Quando aprendia coisas simples, como ir a um café para pedir um suco de laranja, comer um sanduíche e pagar a conta, já era não uma pequena, mas uma grande vitória. 

O clima na Espanha também é mais amistoso, com verões bem quentes e invernos não tão rigorosos. A primavera e o outono, minhas estações favoritas, pintam a cidade de cores vívidas sob uma luz dourada difícil de resistir. Mesmo assim, recomeçar em um lugar distante, longe da família, das amizades e das relações profissionais, bem como as de afeto e confiança, continua sendo um desafio maior do que eu poderia antecipar.

Viver nessa condição me fez ter ainda mais compaixão pelos refugiados, que deixam seus países sem escolha

A experiência radical de imigração, em especial os dois anos na Alemanha, me permitiu fazer um mergulho no universo de Mariana. Pude me aproximar mais dela, compreendê-la melhor. Acredito que sem essa vivência, “Ilhas suspensas” não seria o mesmo romance. Embora eu prefira a escrita de ficção à autobiográfica, é inegável que nossas histórias se misturam de alguma forma profunda e complexa.

O mais bonito para mim são os processos de condensação, representação e, de novo, mas num outro sentido, de deslocamento que a escrita literária exige de quem se dedica a essa aventura. Muitas vezes, ao reler alguns trechos, me surpreendia com o mundo que eu mesma havia criado, ou recriado a partir das palavras. Além disso, há também uma dimensão inconsciente na escrita de ficção que se assemelha ao processo dos sonhos: algo continua misterioso até mesmo para quem sonha.

A minha experiência de imigração também me fez pensar na importância dos laço, e valorizar ainda mais as amizades, sejam elas de uma vida inteira, sejam elas estabelecidas na nova vida. É bem lindo testemunhar como imigrantes se acolhem. Há uma compreensão silenciosa de que, embora cada experiência seja única, existem vivências compartilhadas que só aquelas pessoas podem entender.

Viver nessa condição me faz ter ainda mais compaixão pelos refugiados, que deixam seus países sem escolha, diferente de mim e de Mariana. Por isso, logo no início do livro trago um verso da poeta Warsan Shire: “Ninguém deixa a casa, a menos que a casa seja a boca de um tubarão”.

O tamanho e a ameaça do tubarão com a qual cada imigrante tem que se haver é diferente, mas podemos nos valer da literatura, em especial, e das artes, em geral, para tentar compreender a complexidade do que é viver entre mundos. Esse é um convite que a arte nos faz, o de estabelecer uma ponte com a gente mesma e também com tudo que não vivemos na pele, mas há quem viva. Por isso, também, a literatura é tão preciosa para mim.

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