Nem tudo que você pensa sobre si mesma é verdade
A instrutora de meditação Ilana Gorban fala sobre como a observação dos pensamentos pode ajudar a reduzir a identificação automática com ideias dolorosas sobre nós mesmas.
Sabe quando a mente sai em disparada e parece que seus pensamentos são verdades absolutas? Nesses momentos, começamos a nos perder em ideias que assumimos como verdades definitivas sobre nossa identidade, nosso jeito de ser, nossas possibilidades e limites e deixamos de questionar se aquilo corresponde à realidade. A ruminação mental desenfreada ocorre justamente quando acreditamos nesses pensamentos e passamos a segui-los automaticamente.
Em vez de “eu sou sempre ansiosa”, podemos trocar por “estou percebendo ansiedade”
Com a prática da meditação, aprendemos algo libertador: o pensamento é um evento mental. Existe uma prática específica em que observamos a própria mente, permitindo notar como um pensamento surge, se transforma e se dispersa no seu próprio ritmo. A consciência desse fluxo nos ajuda a afastar a ideia de que esses pensamentos são determinantes para nossa identidade, abrindo espaço para uma outra experiência.
Se você pensa coisas como “eu não dou conta de nada” ou “eu sou sempre ansioso”, isso não é uma verdade sólida sobre você — é um pensamento passando. Adotar essa perspectiva de observação cria espaço para não prolongar uma “conversa” interna que aprofundaria a identificação, o que não apenas distorce a percepção de si, mas também intensifica o sofrimento. A experiência ganha leveza com a tomada de consciência de que há movimento constante.
Não é fácil perceber que os eventos mentais se transformam a cada instante, mas o treino meditativo abre essa possibilidade. De um lado, treinamos esse ângulo de observação; de outro, desenvolvemos a atenção direcionada. Pare para refletir por um momento: você direciona sua atenção ou é conduzido por seus pensamentos? Na maioria das vezes em que somos reativos, é fácil perceber por qual caminho seguimos: acabamos levados por pensamentos que não escolheríamos conscientemente, e que muitas vezes intensificam a irritação, a confusão ou até mesmo a tristeza.
Ao observar a nossa atitude diante de um evento mental, é possível constatar como o medo e a apreensão muitas vezes levam a crer que “tem algo errado comigo”. Enquanto a curiosidade traz mais possibilidades para nossa experiência. Dentre elas, a de reformular os pensamentos. Por exemplo, em vez de “eu sou sempre ansiosa”, podemos trocar por “estou percebendo ansiedade”.
Isso muda tudo. Porque você para de se identificar, se prender e se confundir com o pensamento, dando tempo para a experiência se transformar. Assim, percebe: nem todo pensamento é uma verdade. A curiosidade sobre o funcionamento da mente pode ser um impulso para buscar a meditação.
A prática meditativa oferece ferramentas para que a atenção deixe de ser agitada e instável, permitindo perceber que os pensamentos não apenas passam, mas também podem ser reformulados. Dessa forma, é possível evitar ser levado por exageros e imprecisões, focando no que é prioritário naquele momento. Essa atitude promove relaxamento e, gradualmente, muda a maneira como encaramos os acontecimentos e nossas experiências; possibilitando renovar o olhar e também as formas de agir.