O que a obsessão pelo retorno ao presencial é masculina - Mina
 
Seu Trabalho / Reportagem

O que a obsessão pelo retorno ao presencial é masculina

Já parou pra pensar pra quem a volta ao trabalho 100% presencial é realmente boa? Para quem nunca teve que lidar com a casa e com o cuidado da família, trabalhar de casa não é nada interessante.

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Quando o home office se popularizou durante a pandemia, muita gente acreditou que o trabalho nunca mais seria o mesmo. Alguns anos depois, porém, empresas de diferentes setores iniciaram um movimento de retorno ao presencial. E foi justamente essa volta que reacendeu um debate que vai muito além da produtividade: afinal, o que estamos tentando recuperar quando insistimos em reunir todo mundo novamente no escritório?

O mercado de trabalho mudou mais rápido do que a divisão das tarefas domésticas

A discussão sobre trabalho presencial, híbrido ou remoto costuma ser apresentada como uma disputa entre eficiência e flexibilidade. Mas existe uma camada menos óbvia nessa conversa. Quando o trabalho remoto misturou escritório e casa, ficou mais difícil fingir que as pessoas não têm filhos, consultas médicas, tarefas domésticas, pais idosos ou uma vida acontecendo paralelamente ao expediente.

O mercado de trabalho mudou mais rápido do que a divisão das tarefas domésticas. Nas últimas décadas, mulheres passaram a ocupar em massa espaços profissionais historicamente masculinos, mas o cuidado da casa e dos filhos continua recaindo de forma desproporcional sobre elas. Em seu livro Reengenharia do Tempo, Rosiska Darcy descreve essa contradição: no trabalho, precisamos agir como se não tivéssemos demandas de cuidado; em casa, como se não tivéssemos uma carreira.

O home office tornou essa equação impossível de esconder. O que antes ficava separado por paredes, trajetos e horários passou a coexistir na mesma tela. Para muitas lideranças, isso representou uma perda de controle sustentada por um modelo que pressupunha a separação entre vida profissional e vida pessoal.

“O trabalho presencial traz uma falsa sensação de controle, enquanto o home office faz com que as pessoas tenham que abrir mão do poder. Tem a ver com a mentalidade antiga de liderança, majoritariamente masculina, e com o ego de precisar ver que as pessoas estão sob um olhar hierárquico”, afirma Daniela Klaiman, futurista e especialista em comportamento e tecnologia.

É preciso mudar

Os dados ajudam a mostrar como essa separação continua produzindo efeitos. Segundo a pesquisa “Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras”, realizada pelo Estúdio CLARICE, apenas 23% das mulheres afirmam se sentir poderosas no trabalho. Na família, esse percentual chega a 66%. O estudo se debruça sobre como as mulheres ocupam e se relacionam com posições de liderança nos mais variados setores da sociedade. 

Para Beatriz Della Costa, cientista social e cofundadora da CLARICE, a resposta não está em tentar reconstruir fronteiras que já não existem. “Existe a necessidade de criar um novo tipo de liderança, mais empática, que entende que é preciso carregar a vida pessoal para a profissional e vice-versa. Seja para buscar o filho na escola, seja para cuidar da própria saúde. Além disso, precisamos de equidade na divisão dos cuidados da casa, já que a separação entre ambiente doméstico e profissional não é mais possível”, diz.

Nesse contexto, liderar passa a significar reconhecer que as pessoas têm filhos, consultas médicas, responsabilidades domésticas, afetos e limites. Integrar essas dimensões não é sinal de menor comprometimento, mas uma adaptação necessária a uma realidade que sempre existiu e que o home office apenas tornou mais visível.

Para Daniela, essa transformação tende a se aprofundar. “No futuro, as pessoas terão diferentes ocupações. Será preciso administrar trabalhos, família, vida social, filhos, deslocamentos e outras questões ao mesmo tempo. Por isso, acredito que o trabalho tende a ter um molde mais feminino, já que ele exige características historicamente associadas às mulheres, como lidar com múltiplas funções e integrar diferentes dimensões da vida.”

Talvez a questão não seja decidir onde o trabalho acontece. Talvez seja admitir que a ficção de uma pessoa totalmente disponível para o trabalho, sem demandas de cuidado, sem filhos e sem vida própria, nunca correspondeu à realidade. O home office apenas tornou isso impossível de ignorar.

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