Quando o luto ganha raízes e lindas folhas
Para se despedir do seu gato “Gordo", a atriz e escritora Luisa Micheletti e sua família decidiram ritualizar o luto plantando as cinzas do bichado
Meu gato acaba de atingir três metros de altura e está mais verde do que nunca. Calma. Não se trata de uma mutação genética rara, nem de uma alucinação. Acontece que, dois anos atrás, Gordo, meu gato de dezesseis anos, se foi. Durante o luto, eu, meu pai, meu companheiro e meu enteado decidimos, juntos, plantar uma árvore em homenagem a ele, como forma de ritualizar a passagem. Então, enterramos suas cinzas junto com uma muda de Jatobá, perto de casa.
“O luto é melhor elaborado em grupo. E o ritual devolve a noção de pertencimento”
Os últimos meses de vida foram difíceis para ele. Insuficiência renal é muito comum em bichanos na idade avançada. O tratamento exige terapia com soro e comprimidos. E dar comprimido para gatos, convenhamos, é desafiador. Especialmente para o Gordo. A sua partida foi uma tragédia na vida dos envolvidos. Mesmo se tratando “apenas” de um gato, no fundo, sabemos que “gato” (ou “cachorro”) pode ser muitas coisas, dependendo do significado que construímos junto com aquele serzinho peludo.
Quando alguém morre, morre a imagem e os tantos sentidos que damos para aquela relação, além de um universo inteiro construído junto com quem se foi. Quando o Gordo morreu, morreu também um tipo de amor incondicional que eu só tinha por ele – e ele por mim. Morreu uma alegria específica que brotava no peito quando ele aparecia miando e se jogando no meio do caminho. Morreram vinte e quatro apelidos. Morreram as risadas da vizinha idosa que gostava quando ele invadia o quintal da casa dela e entrava sem ser convidado. Morreu meu alívio ao chegar em casa e não me sentir sozinha. Morreu a companhia constante que nunca julgou nenhum choro, nenhuma raiva, nenhuma noite mal dormida. Morreram cheiros, sons, texturas. Morreu um sentimento, para o qual nunca consegui dar nome, mas aparecia ao beijar suas bochechas e pensar: como pode ser tão perfeito? Morreu a principal e mais constante testemunha de toda a minha vida adulta.
Gordo me esperava tomar banho do lado de fora do box, como todo o respeito daqueles que não gostam de água, mas honram quem pensa diferente. Os gatos têm isso a ensinar: respeitam as diferenças e gostam de ser respeitados nas suas manias também, sem cobrar nada de ninguém. Postura para a qual nós, humanos, ainda estamos despreparados, engatinhando sobre quatro patas.
Por tudo isso e mais um pouco, eu e minha família achamos que seria importante realizar um ritual de despedida. Fizemos a cremação no Ânimas, em Itapecerica da Serra/SP. Depois, as cinzas do Gordo foram para uma urna hidrossolúvel que foi plantada junto com a muda de Jatobá perto de casa. Não é um serviço barato, mas naquele momento, para mim, fez sentido investir. Existem vários centros de cremação animal, mas que oferecem esse serviço do plantio com a urna conheço a Ânimas e a Casa Cerimonial Pet.
Me lembrei da psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, que nos ajuda a entender o luto ao longo de cinco fases:
- Negação
- Raiva (de si ou dos outros)
- Negociação (tentativa de acordos com o divino ou com o destino – “e se eu for diferente?”)
- Depressão
- Aceitação
O luto é sempre melhor elaborado em grupo. E o ritual é uma ação simbólica que gera uma sensação de comunhão com o coletivo e nos ajuda a atravessar as cinco fases. O ritual nos devolve a noção de pertencimento. Afinal, escolhemos juntos a árvore, o lugar onde seria plantada, cavamos o buraco, nos reunimos para uma atividade que deu sentido para algo em comum: a dor que estávamos sentindo – mas não sozinhos.
Ritualizar ajuda a nos apropriarmos da dor. E isso é importante porque varrer a dor para baixo do tapete nunca dá bons resultados. A dor precisa ser reconhecida, acolhida, e quando compartilhada num ritual, ela se transforma em ação física e ganha novos sentidos. A despedida é dura, mas é menos dura quando temos a oportunidade de valorizar o que vivemos com aquele que se foi. A despedida é um trabalho árduo que vale a pena.
Mas o que aprendi com este gato não acabou no dia triste de sua morte. Não é que o bichano me mostrou que a vida poderia transcender a materialidade? Que nosso vínculo poderia atravessar esta vida concreta, que fomos ensinados que é a única possível? Hoje tenho a oportunidade de continuar cuidando do Gordo, mas de outra forma. Vejo suas folhas da janela do meu quarto. Posso regá-lo, adubá-lo. Em dois anos, a muda de cinquenta centímetros atingiu três metros de altura. A folhagem verde e abundante é toda peludinha na parte de trás.
No dia do primeiro aniversário de sua morte, fui até o Gordo, ou melhor, até a pequena árvore, com um regador. Notei duas ou três pombas brancas por ali e achei curioso. Peguei o celular para tirar uma foto e exatamente na hora do clique, uma das pombas voou. Acho que nenhuma inteligência artificial seria capaz de me deixar tão pensativa com a imagem que vi em seguida na tela do meu telefone: uma árvore com asas brancas. Pode ter sido uma grande coincidência, ou quem sabe, um recado do mundo dos gatos, nos lembrando de que, apesar da nossa limitação humana, a vida se transforma e continua.